de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Quinta-feira, 7 de Março de 2013
Aos pobres do campo (1 e 2)

1.  A LUTA DOS OPERÁRIOS NA CIDADE

Muitos camponeses certamente ouviram falar da agitação operária nas cidades. Alguns até estiveram nas capitais e fábricas, tendo tido ocasião de presenciar os motins, como lhes chama a polícia. Outros conhecem operários que participaram nos distúrbios e foram mandados para as aldeias por ordem das autoridades. Outros leram comunicados e folhetos sobre a luta operária. Por último, haverá aqueles que apenas ouviram relatos de gente informada sobre o que acontece nas cidades.

Dantes só se revoltavam os estudantes, mas agora levantam-se milhares e milhares de operários que lutam, na maioria dos casos, contra os patrões, fabricantes e capitalistas. Os operários declaram greves, suspendem o trabalho na fábrica, todos ao mesmo tempo, reclamam aumentos de salários, exigem que não os obriguem a trabalhar dez ou onze horas por dia, mas apenas oito. Os operários reclamam também melhores condições de trabalho. Querem que as oficinas estejam melhor organizadas, que as máquinas tenham dispositivos especiais para que não mutilem os operários que as manejam, que os seus filhos possam ir à escola, que se atenda devidamente os doentes nos hospitais, que as casas em que vivem sejam habitações próprias para seres humanos, e não autênticas pocilgas.

A polícia intervém na luta operária. Prende os operários, mete-os nas prisões, envia-os sem julgamento prévio para as suas terras natais, e até os desterra para a Sibéria. O governo decreta leis que proíbem as greves e reu­niões de operários. Mas os operários lutam contra a polícia e contra o go­verno. Os operários dizem: «Nós, milhões de operários, estamos fartos de ser explorados! Já trabalhámos demais para os ricaços sem sair da miséria. Não continuaremos a permitir que nos roubem. Queremos unir-nos e formar asso­ciações, queremos juntar-nos a todos os operários e formar uma grande união operária (um partido operário) e lutar, todos juntos, por uma vida me­lhor. Queremos uma organização nova e uma sociedade melhor. E nessa sociedade nova e melhor não haverá ricos nem pobres; toda a gente terá que participar no trabalho. Não serão alguns ricaços, mas sim todos os trabalha­dores, que recolherão os frutos do trabalho comum. As máquinas e demais aperfeiçoamentos devem aliviar o trabalho de todos, e não enriquecer alguns à custa de milhões e milhões de homens do povo. Essa sociedade nova e melhor chama-se sociedade socialista. A doutrina que trata desta sociedade chama-se socialismo. As associações de operários que lutam por esta socie­dade melhor chamam-se partidos social-democratas. Esses partidos têm uma existência livre em quase todos os países (menos na Rússia e Turquia), e os nossos operários, juntamente com os socialistas intelectuais, também organi­zaram um partido deste tipo: o Partido Operário Social-Democrata Russo.

O governo persegue-o, mas o partido, apesar de todas as proibições, existe clandestinamente, publica os seus periódicos e livros, organiza associações secretas, e os operários não só se reúnem clandestinamente, como também se manifestam em massa nas ruas, desfraldando bandeiras com inscrições tais como: «Vivam as 8 horas de trabalho», «Viva a liberdade», «Viva o socialismo». Por isso o governo persegue furiosamente os operários. Até manda tropas disparar contra eles. Os soldados russos mataram operários russos em Yaroslavi, Petersburgo, Riga, Rostov do Don e Zlatoúst.

Mas os operários não se dão por vencidos. Continuam a luta. Dizem eles: Não nos assustam as perseguições, nem a cadeia, nem o desterro, nem os trabalhos forçados, nem mesmo a morte. A nossa causa é uma causa justa. Lutamos pela liberdade e a felicidade de todos os que trabalham. Lutamos para libertar da violência, da opressão e da miséria dezenas e dezenas de milhões de homens do povo. Os operários estão cada vez mais conscientes. O número de social-democratas aumenta rapidamente em todos os países. Triunfaremos apesar de todas as perseguições.

Os camponeses pobres têm que compreender claramente quem são os social-democratas, o que querem e como devem trabalhar no campo, com o objectivo de os ajudar a conquistar a felicidade para o povo.

 

 2. O QUE QUEREM OS SOCIAL-DEMOCRATAS?

Os social-democratas russos tentam conseguir, antes de mais nada, a liberdade política. Necessitam dessa liberdade para agrupar ampla e abertamente todos os operários russos na luta por uma sociedade nova e melhor, por uma sociedade socialista.

O que é a liberdade política?

Para compreender bem, o camponês tem que comparar primeiro a sua actual liberdade com o regime de servidão. Sob esse regime, o camponês não podia casar-se sem a autorização do dono da terra. Agora, para se casar não necessita de nenhuma autorização. Sob o regime de servidão, o camponês devia trabalhar obrigatoriamente para o senhor, nos dias marcados pelo «starosta» (administrador). Agora, é livre de escolher o patrão, os dias de trabalho, e o salário que receberá deste. Sob o regime de servidão, o camponês não podia abandonar a aldeia sem autorização do senhor. Agora, é livre de ir para onde quer, se o «mir» lho permitir, se não tiver dívidas atrasadas, se conseguir o salvo-conduto, e se o governador ou chefe da polícia do distrito não lhe proibirem a mudança. De tal forma que, mesmo agora, o camponês não pode mudar-se livremente para onde ele quer; continua sendo um semi-escravo.

Mais adiante explicaremos devidamente por que é que o camponês russo continua a ser um semi-servo, e como poderá sair desta situação.

Sob o regime de servidão, o camponês não podia adquirir bens, nem comprar terras sem a autorização do senhor. Agora, é livre de comprar toda a espécie de bens (se bem que não tenha plena liberdade para abandonar o «mir», nem de dispor das suas terras como melhor lhe aprouver). Sob o regime de servidão, o camponês podia ser submetido a castigos corporais por ordem do senhor da terra. Agora, não pode ser castigado pelo seu senhor, se bem que não se tenha libertado ainda totalmente dos castigos corporais.

Pois bem, esta liberdade é chamada a liberdade civil: a liberdade nos assuntos familiares, nos assuntos pessoais, e nos assuntos relacionados com os bens. O camponês e o operário são livres (se bem que não totalmente) de organizar a sua vida familiar, os seus assuntos pessoais, de dispor do seu trabalho (escolher o patrão), de dispor dos seus bens.

Mas nem os operários russos, nem todo o povo russo, disfrutam, até agora, da liberdade de dispor dos seus assuntos nacionais. Todo o povo, em massa, continua a ser tão servo dos funcionários, como os camponeses o eram dos senhores das terras. O povo russo não tem o direito de eleger nem funcionários nem representantes que decretem leis para todo o Estado. O povo russo nem sequer tem o direito de organizar assembleias para deliberar sobre os assuntos do Estado. Sem a autorização dos funcionários, que têm sido investidos de autoridade sobre nós, sem o nosso consentimento – tal como se passava nos velhos tempos, em que o senhor nomeava o «starosta» sem o consentimento dos camponeses – não podemos sequer publicar periódicos nem livros, nem falar perante todos e para todos dos assuntos do Estado.

Dantes, os camponeses eram escravos dos senhores das terras; da mesma maneira, o povo russo continua sendo até agora escravo dos funcionários. Sob o regime de servidão, os camponeses careciam das liberdades civis; da mesma maneira, o povo russo carece ainda hoje da liberdade política. Liberdade política quer dizer liberdade do povo dispor dos seus assuntos nacionais, dos assuntos do Estado. Liberdade política quer dizer direito do povo eleger os seus representantes (deputados) à Duma de Estado (parlamento). Todas as leis devem ser discutidas e promulgadas por esta Duma de Estado, eleita pelo povo e a única com capacidade para cobrar todos os impostos e tributos. Liberdade política quer dizer o direito de ser o próprio povo a eleger todos os funcionários, a organizar todas as assembleias para deliberar sobre os assuntos do Estado, e a publicar, sem necessidade de autorização alguma, toda a espécie de livros e periódicos.

Todos os outros povos da Europa já conquistaram há muito a sua liberdade política. Apenas na Turquia e na Rússia o povo continua a ser submetido à escravidão política do governo do sultão e do governo absolutista do czar. Autocracia czarista significa poder ilimitado do czar. O povo não participa de maneira nenhuma na organização de administração do Estado. O czar, com o seu poder individual, ilimitado e absoluto, é o único a promulgar leis e a nomear todos os funcionários. Mas, naturalmente, o czar não pode conhecer todas as leis russas, nem todos os funcionários russos. O czar nem sequer pode estar inteirado do que se passa no Estado. O czar não faz mais do que sancionar a vontade de alguns dos seus funcionários mais importantes e proeminentes. Por muito que lhe pese, uma pessoa só não pode governar um Estado tão vasto como a Rússia. Quem governa a Rússia não é o czar, mas um punhado de funcionários dos mais ricos e de maior preponderância. O absolutismo duma pessoa não passa de uma expressão. O czar só se inteira do que esses funcionários entendem por bem comunicar-lhe. O czar não tem qualquer possibilidade de contrariar a vontade desses nobres. O próprio czar é um senhor feudal e um nobre; desde pequeno que só viveu entre essa gente de alta linhagem; e foram eles que o educaram e instruíram; o czar só sabe do povo russo o que sabe essa estirpe de nobres, o que sabem os ricos senhores feudais, e os poucos comerciantes abastados que têm acesso à Corte.

Em todas as aldeias podeis ver afixado o seguinte quadro: o czar Alexandre III (pai do actual) pronuncia um discurso dirigido aos regedores do campo que assistem ao acto da sua coroação. O czar ordena: «Obedecei aos chefes locais da nobreza!». E o czar actual, Nicolau II, repetiu as mesmas palavras. Quer dizer isto que até os próprios czares reconhecem que não podem governar o Estado senão com a ajuda dos nobres, por intermédio deles. É preciso ter bem presente estes discursos do czar sobre a obediência que os camponeses devem aos nobres. Há que compreender claramente como enganam o povo aqueles que se esforçam por apresentar o governo dos czares como o melhor. Noutros países, diz-se, existe um governo representativo; neles são eleitos os ricos, mas os ricos governam arbitrariamente e oprimem os povos; ao contrário, na Rússia não existe um governo representativo; é o czar absoluto que governa tudo. O czar está acima de todos, tanto dos ricos como dos pobres. O czar é justo para todos, tanto para os pobres como para os ricos.

Estes discursos não passam de pura hipocrisia. Todos os russos sabem qual é a justiça do nosso governo. Todos sabem que no nosso país, um simples operário ou assalariado rural não pode fazer parte do Conselho de Estado. Ao mesmo tempo, nos outros países da Europa têm sido eleitos operários e assalariados rurais para o parlamento, donde têm falado para todo o povo, descrevendo a vida de miséria dos trabalhadores, exortando-os a unir-se e lutar por uma vida melhor. E ninguém se atreveu a interromper esses deputados do povo, e nenhum polícia ousou tocar-lhes com um dedo sequer.

Na Rússia não existe um governo representativo; os ricos e os aristocratas, e entre eles os piores, são quem governa. Governam os que se insinuam pela intriga na corte czarista, os que melhor se servem de artimanhas, os que mais mentem e caluniam, os que se distinguem perante o czar pelas suas adulações e lisonjas. Governam em segredo; o povo não conhece nem se pode inteirar das leis que se preparam, nem das guerras que se projectam, nem dos novos impostos que se vão lançar, nem por que méritos ou culpas são promovidos ou destituídos funcionários. Em nenhum país há tantos funcionários como na Rússia. E estes funcionários erguem-se ante o povo amordaçado como um bosque cerrado; um simples operário nunca conseguirá abrir caminho através desse bosque, nunca conseguirá justiça. Não se dá seguimento a nenhuma das reclamações dos operários contra a desonestidade, roubos e violências dos funcionários: a interminável burocracia oficial afoga todas as reclamações. A voz isolada duma pessoa nunca chega ao povo, pois perde-se nesta selva cerrada, ou é estrangulada nas masmorras policiais. O exército de funcionários, em cuja eleição o povo não participou, e que nem sequer é obrigado a prestar-lhe contas, tece uma espessa teia de aranha onde os homens se debatem como moscas.

O absolutismo czarista é o absolutismo dos funcionários. O absolutismo czarista é a submissão feudal do povo aos funcionários, e sobretudo, à polícia. O absolutismo czarista é o absolutismo da polícia.

Por isso, os operários manifestam-se na rua, e escrevem nas suas bandeiras: «Abaixo o absolutismo», «Viva a liberdade política». Por isso milhões e milhões de camponeses pobres têm de apoiar e fazer seu este grito de guerra dos operários da cidade. Do mesmo modo, os operários do campo e os camponeses pobres, sem se deixarem assustar com estas perseguições, sem temer as ameaças e violências do inimigo, sem hesitar perante os primeiros revezes, devem empreender a luta decidida pela liberdade de todo o povo russo e reclamar, primeiro que tudo, a convocação de uma assembleia representativa do povo. Que o próprio povo eleja em toda a Rússia os seus deputados! Que estes representantes do povo constituam uma Assembleia Suprema que estabeleça o Governo Representativo na Rússia, liberte o povo da submissão feudal, dos funcionários e da polícia, e lhe assegure a liberdade de reunião, a liberdade de expressão, e a liberdade de imprensa.

Este é o primeiro objectivo dos social-democratas. Este é o resultado da sua primeira reivindicação: a liberdade política.

Nós sabemos que a liberdade política, a liberdade de eleger representantes para a Duma do Estado (parlamento), a liberdade de reunião e a liberdade de imprensa não libertarão de uma vez para sempre o povo trabalhador da miséria e opressão. Não existe no mundo nenhum meio de libertar de imediato os pobres da cidade e do campo, da necessidade de trabalhar para os ricos; o povo trabalhador só pode confiar em si mesmo, não pode contar com mais nada do que consigo mesmo: ninguém, senão ele próprio, o libertará da miséria. E para se libertarem, os operários devem unir-se em todo o país, em toda a Rússia, numa grande associação, num partido. Mas os milhões de operários não podem unir-se, enquanto o governo policial absolutista proibir todas as reuniões, todos os jornais operários, todas as eleições de deputados operários. Para se unirem, é necessário obter o direito de organizar toda a espécie de associações, gozar da liberdade de associação, gozar da liberdade política.

A liberdade política não libertará imediatamente os trabalhadores da miséria; mas facultar-lhes-á armas para lutar contra ela. Não existe nem poderá existir outro meio para lutar contra a miséria, senão a união dos próprios operários. Não há possibilidade para a união de milhões de homens, enquanto não houver liberdade política.

Há já muito tempo que os operários começaram a unir-se nos países europeus em que o povo conquistou a liberdade política. Em toda a Europa, chamam-se proletários aos operários que não possuem terras nem oficinas, e que trabalham toda a vida como assalariados por conta de outrem. Há mais de 50 anos, soou o apelo à união do povo trabalhador. «Proletários de todo o mundo uni-vos». Estas palavras percorreram o mundo inteiro, nestes últimos cinquenta anos; estas palavras repetem-se por milhares e milhares de assembleias operárias; podeis ler estas palavras publicadas em todos os idiomas, em milhões de folhetos e periódicos social-democratas.

Naturalmente, unir milhões de trabalhadores numa associação, num partido, é uma obra extremamente árdua, que requer tempo, perseverança, tenacidade e valor. Os operários estão curvados pelo peso da necessidade e da miséria, embrutecidos pelos trabalhos forçados eternos em serviço dos capitalistas e senhores feudais. Frequentemente, os operários têm falta de tempo para pensar na causa da sua eterna miséria, e na maneira de se libertarem dela. Impedem-nos por todos os meios de se unirem; e isso faz-se, utilizando a violência directamente com toda a ferocidade, o que acontece em países como a Rússia, onde não existe a liberdade política; ou negando o trabalho aos operários que difundem a doutrina socialista, ou ainda, valendo-se, por último, da mentira do suborno. Mas não há violência nem perseguição que possam deter os operários proletários que lutam por essa grande causa, que é a libertação de todo o povo da miséria e da opressão. Aumenta sem cessar o número de operários social-democratas. Assim, no país vizinho, na Alemanha, existe um governo representativo. Dantes, na Alemanha, era também o rei que governava de forma absoluta e com poderes ilimitados. Desde há tempos, porém, – mais de cinquenta anos – o povo alemão liquidou o absolutismo e conquistou, pela força, a liberdade política. Na Alemanha, as leis não são forjadas por um punhado de funcionários, como acontece na Rússia, mas sim por uma assembleia de deputados do povo, pelo Parlamento, ou Dieta Imperial, como lhe chamam os alemães. Os deputados a esta Dieta são eleitos por todos os homens que tenham alcançado a maioridade. Por aí se pode calcular o número de votos emitidos a favor dos social-democratas. Em 1887, uma décima parte do total de votos foi a favor dos social-democratas. Em 1898 (durante as últimas eleições à Dieta Imperial Alemã), o número de votos obtidos pelos social-democratas quase triplicou. Mais da quarta parte de todos os votos era já favorável aos social-democratas. Mais de dois milhões de homens adultos elegeram deputados social-democratas para o Parlamento. Na Alemanha, entre os operários do campo, o socialismo está ainda pouco difundido, mas agora progride com rapidez. E quando amanhã os trabalhadores braçais, jornaleiros e camponeses pobres e empobrecidos se unirem aos seus irmãos da cidade, os operários alemães vencerão e estabelecerão um regime em que não haverá miséria nem opressão dos trabalhadores.

Pois bem, por que meios querem os operários social-democratas libertar o povo da miséria?

Para sabermos, há que compreender claramente a causa da miséria das grandes massas populares no sistema social dos nossos dias. Crescem cidades de grande luxo, constroem-se lojas e casas sumptuosas, montam-se vias férreas, introduz-se toda a espécie de máquinas e aperfeiçoamentos na indústria e na agricultura e, por outro lado, milhões de homens do povo não conseguem sair da miséria e continuam a trabalhar toda a vida para conseguir manter as famílias com grande sacrifício. Mas isto não é tudo. Aumenta sem cessar o número de desempregados. Há cada vez mais gente, no campo e na cidade, sem conseguir nenhum trabalho. Nas aldeias morre-se de fome. Nas cidades, engrossam os exércitos de vagabundos e meliantes, vive-se nos arrabaldes aos montes, como animais em pocilgas, ou em sótãos e tugúrios horríveis, como no mercado de Jitrov, em Moscovo.

Há cada vez mais riqueza e luxo, enquanto milhões e milhões de homens que, com o seu trabalho, produzem todas as riquezas, continuam submetidos à pobreza e à miséria. Os camponeses morrem de fome, os operários vagueiam sem arranjar trabalho, e enquanto isso, os comerciantes russos exportam para o estrangeiro milhões de alqueires de trigo, as fábricas estão paradas, porque não há possibilidade de colocar as mercadorias, e vendê-las. Porque acontece tudo isto?

Isto sucede, antes de mais nada, porque a grande maioria das terras, assim como das fábricas, oficinas, máquinas, edifícios e barcos são propriedade de um reduzido número de ricaços. Nessas terras, fábricas e oficinas trabalham dezenas de milhões de homens, enquanto os donos de tudo isso são apenas uns milhares ou dezenas de milhares de ricos, proprietários fundiários, comerciantes e fabricantes. O povo trabalha para eles a troco de um salário, de um pedaço de pão. Tudo o que se produz para além da miserável quantidade necessária para a sobrevivência dos operários, embolsam-no os patrões. Esses são os seus lucros, os seus benefícios. Todas as vantagens proporcionadas pelas máquinas e aperfeiçoamentos introduzidos no trabalho, beneficiam os donos da terra e os capitalistas; eles são os que acumulam milhões e milhões, enquanto os trabalhadores só recebem de todas essas riquezas umas miseráveis migalhas. Os trabalhadores reúnem-se para o trabalho nas grandes quintas e fábricas, onde trabalham várias centenas, e às vezes até vários milhares de operários. Este trabalho conjunto, com a utilização das mais variadas máquinas, faz com que o trabalho seja mais eficaz, pois um só operário rende agora muito mais do que rendiam antigamente dezenas de operários, que trabalhavam individualmente e sem nenhuma espécie de máquinas. Mas os que se aproveitam do fruto desta eficácia, deste maior rendimento de trabalho, não são os trabalhadores, mas apenas um número insignificante de poderosos senhores de terras, comerciantes e fabricantes.

Ouve-se dizer frequentemente que os senhores das terras e comerciantes «dão trabalho ao povo», «dão» de comer à gente pobre. Diz-se, por exemplo, que os camponeses da região «são mantidos» pela fábrica ou pela quinta vizinha. Mas, na realidade, são os operários que, com o seu trabalho, se mantêm a si próprios, e mantêm também todos aqueles que não trabalham. Mas, a troco da autorização para trabalhar nas terras do senhor, na fábrica ou no caminho-de-ferro, o operário cede gratuitamente ao proprietário tudo o que produz, recebendo unicamente o necessário para levar uma mísera existência. Isto quer dizer que, na realidade, não são os donos da terra nem os comerciantes que dão trabalho aos operários, mas sim estes que sustentam a todos com o seu trabalho, entregando gratuitamente a maior parte do seu trabalho.

Continuemos. A miséria do povo provém, em todos as Estados modernos, do facto de os trabalhadores produzirem toda a espécie de objectos para venda, para o mercado. O fabricante e o artesão, o dono da terra e o camponês acomodado produzem artigos diferentes, criam gado, semeiam e recolhem cereais para venda, para obter dinheiro. O dinheiro é hoje, em todo o lado, a força suprema. Com dinheiro se trocam todos os produtos do trabalho humano. Com dinheiro se pode obter tudo quanto se quer. Com dinheiro pode-se inclusivamente comprar um homem, ou seja, obrigar um homem pobre a trabalhar para aquele que tem dinheiro. Dantes, a força principal era a terra. Assim acontecia no sistema de servidão. O que possuía terra era forte e poderoso. Mas agora, a força principal é o dinheiro, o capital. Com dinheiro, pode-se adquirir toda a terra que se quiser. Sem dinheiro, pouco se pode fazer, ainda que dispondo de terra; não se pode comprar gado, roupa nem outros artigos que se vendem na cidade, sem falar já do pagamento das contribuições. Para conseguir dinheiro, quase todos os donos das terras hipotecam as suas quintas aos bancos. Para conseguir dinheiro, o governo pede emprestado aos ricos e aos banqueiros de todo o mundo e paga em juros, milhões de rublos por ano.

Por dinheiro, todos lutam agora uns contra os outros. Cada um empenha-se em comprar mais barato e vender mais caro; cada um trata de adiantar-se aos demais, de vender a maior quantidade possível de mercadorias, de fazer baixar os preços, e ocultar dos outros os lugares onde se pode vender com mais vantagem ou conseguir uma provisão lucrativa. A gente modesta, o pequeno artesão e o pequeno camponês, são os que saem mais maltratados desta luta geral por dinheiro: estão sempre sob a alçada do comerciante e do camponês ricos. Nunca têm reservas, vivem o dia a dia, e em todas as situações difíceis ou calamitosas, têm de hipotecar os seus últimos haveres ou vender ao desbarato o gado de trabalho. E, uma vez caídos nas garras de algum kulak[1] ou usurário, são raríssimos os casos dos que se conseguem libertar da sua pata; na maioria das vezes, acabam por arruinar por completo. Todos os anos, centenas de milhares de pequenos camponeses e artesãos fecham as portas e janelas das casas, trespassam gratuitamente os seus lotes à comunidade, transformando-se em operários assalariados, trabalhadores braçais, criados e proletários. Entretanto, os ricos amontoam cada vez maiores fortunas nesta luta pelo dinheiro. Os ricos acumulam milhões, centenas de milhões de rublos nos bancos, e não só lucram com o seu próprio dinheiro, como também com o dinheiro alheio depositado nos bancos. As dezenas ou centenas de rublos depositados nos bancos ou nas caixas de depósitos pelas pessoas modestas, proporcionam 3 ou 4 copeques de lucro por cada rublo, enquanto que os ricos acumulam milhões com essas dezenas de rublos, multiplicam as operações e obtêm de dez a vinte copeques por cada rublo.

Por isso os operários social-democratas dizem que o único meio de acabar com a miséria do povo é transformar de alto a baixo a ordem actual das coisas em todo o Estado, e instaurar a ordem socialista, ou seja, retirar aos grandes senhores todas as suas terras, aos fabricantes as suas fábricas, aos banqueiros os seus capitais em dinheiro efectivo, abolir a sua propriedade privada, entrega-la ao povo trabalhador e a todo o Estado. Então, não serão os ricos, os que vivem do trabalho alheio, a dispor do trabalho dos operários, mas os próprios operários e seus representantes. Então, os frutos do trabalho de todos e as vantagens de todos os aperfeiçoamentos e das máquinas serão de todos os operários. Então, a riqueza aumentará com maior rapidez, pois os operários trabalharão para si próprios melhor que para os capitalistas. O dia de trabalho será mais curto. Os operários alimentar-se-ão e vestirão melhor, e a sua vida mudará por completo. Mas é uma tarefa sumamente difícil transformar toda a ordem das coisas em todo o Estado. Para isso, é preciso uma luta ampla e tenaz, porque todos os ricos, todos os proprietários, toda a burguesia[2] defenderá a sua riqueza com unhas e dentes. Para proteger toda a classe abastada, os funcionários e o exército levantar-se-ão, pois que o próprio governo se encontra nas mãos das classes abastadas. Os operários têm que unir-se e lutar juntos, como um só homem, contra todos os que vivem do trabalho alheio; os operários têm que se unir a si próprios, e unir todos os desapossados numa só classe trabalhadora, numa só classe do proletariado. A luta será difícil para a classe operária, mas terminará necessariamente com o triunfo dos operários, porque a burguesia, a gente que vive do trabalho alheio, constitui uma ínfima parte do povo, enquanto que a classe operária representa a enorme maioria do povo. Operários contra proprietários, quer dizer milhões contra milhares.

Os operários da Rússia já começaram a unir-se para esta grande luta, num partido operário social-democrata. A união fortalece-se e alarga-se, apesar da dificuldade de se associarem clandestinamente, escondendo-se da polícia. E quando o povo russo conquistar a liberdade política, a causa da união da classe operária, a causa do socialismo, avançará com uma rapidez muito maior, com mais rapidez ainda do que avança actualmente entre os operários alemães.


(a seguir)



[1] Kulaks: «Camponeses ricos que exploram o trabalho alheio, quer contratando trabalhadores braçais, quer emprestando dinheiro a crédito, etc.» (Lenine).

[2] Burguês quer dizer proprietário; burguesia quer dizer conjunto dos proprietários. Um grande burguês é um grande proprietário. O termo «burguesia» e «proletariado» querem dizer o mesmo que proprietários e operários, ricos e pobres, gente que vive do trabalho alheio e gente que trabalha para outrem, em troca de um salário.


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