de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Sexta-feira, 8 de Março de 2013
Aos pobres do campo (3 e 4)

(início)

3. RIQUEZA E MISÉRIA, PROPRIETÁRIOS E OPERÁRIOS NO CAMPO

Agora já sabemos o que querem os social-democratas. Querem lutar contra toda a classe rica para libertar o povo da miséria. E no nosso país, a miséria no campo não é menor, se não for mesmo maior do que nas cidades. Não vamos referir aqui quão grande é a miséria no campo: todos os operários que estiveram no campo e todos os camponeses conhecem muito bem a miséria, a fome, o frio e a ruína que impera no campo.

Mas o camponês ignora porque vive na miséria, porque passa fome e se arruína, ignora como pode libertar-se da miséria. Para saber isto, é preciso, antes de mais nada, compreender a origem de toda a miséria, de toda a necessidade, tanto na cidade como no campo. Já nos referimos a ela ao de leve, e vimos que os camponeses pobres e os operários rurais se devem unir com os operários da cidade. Mas isso não basta. Também é necessário saber quem serão aqueles que no campo apoiarão os ricos, os proprietários, e quem apoiará os operários e os social-democratas. É preciso saber se são muitos os camponeses que sabem, tão bem como os proprietários, acumular capital e viver do trabalho alheio. Se estas questões não forem completamente esclarecidas, nenhum discurso sobre a miséria surtirá efeito, e os pobres do campo não chegarão a compreender quem são no campo os que devem agrupar-se entre si e unir-se aos operários da cidade, nem o que devem fazer para conseguir uma aliança firme para que o camponês não seja engando, não só pelo proprietário, mas também pelos seus, pelo mujique rico.

Para tornarmos as coisas mais claras, vejamos agora qual é a força dos proprietários no campo e qual é a força dos camponeses ricos.

Comecemos pelos proprietários. Podemos julgar da sua força, antes de tudo, pela quantidade de terra que possuem como propriedade privada. O total das terras na Rússia Europeia, tanto os lotes comunais dos camponeses como as terras de propriedade privada, calculava-se em cerca de 240 milhões de desiatinas, sem contar com as terras do fisco, de que falaremos à parte[1]. Destes 240 milhões de desiatinas, há em poder dos camponeses, isto é, de mais de 10 000 000 de famílias, 131 milhões de desiatinas de terra correspondente aos lotes comunais, enquanto que em poder dos proprietários privados, isto é, de menos de meio milhão de famílias, há 109 milhões de desiatinas. Isto quer dizer que, calculando em números redondos, a uma família camponesa correspondem 13 desiatinas, enquanto que à família de um proprietário privado correspondem 218 desiatinas! Mas a desigualdade na distribuição da terra é ainda muito maior, como veremos adiante.

Dos 109 milhões de desiatinas em poder dos proprietários privados, sete milhões de desiatinas pertencem à coroa, isto é, são propriedade privada dos membros da família imperial. O czar, juntamente com a família, é o primeiro proprietário de terras, o maior proprietário da Rússia. Uma única família possui mais terra que meio milhão de famílias camponesas! Além disso, as igrejas e os mosteiros possuem cerca de seis milhões de desiatinas. Os nossos popes pregam aos camponeses o desinteresse e a moderação, ao mesmo tempo que, por seu lado, lançam mão de enormes superfícies de terra sem olhar a meios.

Além disso, cerca de dois milhões de desiatinas estão em poder das cidades e vilas, e outro tanto nas mãos de várias sociedades e companhias comerciais e industriais. Uns 92 milhões de desiatinas (o número exacto é de 91 605 845, mas para maior simplicidade, daremos números redondos) pertencem a menos de meio milhão (481 385) de famílias de proprietários privados. Metade destas famílias são proprietários muito pequenos: cada um possui menos de 10 desiatinas. No total, possuem menos de 1 milhão de desiatinas. Em contrapartida, dezasseis mil famílias possuem, cada uma, mais de mil desiatinas de terra; possuem, no total, sessenta e cinco milhões de desiatinas. Para demonstrar como é enorme a superfície de terra concentrada nas mãos de grandes proprietários, assinalaremos também que pouco menos de mil famílias (924) possuem cada uma, mais de dez mil desiatinas de terra, e todas juntas possuem vinte e sete milhões de desiatinas! Um milhar de famílias possui tanto como dois milhões de famílias camponesas.

Daí resulta que milhões e milhões de homens do povo têm que passar dificuldades e fome, e terão que as passar sempre, enquanto vários milhares de ricaços possuírem propriedades tão imensas. Daí resulta que, enquanto isso acontece, também o Poder de Estado, o próprio Governo (até o governo czarista) terá que dançar ao som da música desses grandes proprietários. Daí resulta que os pobres do campo não têm de quem nem donde esperar ajuda, enquanto não se unirem, não se agruparem estreitamente numa única classe, para lançar uma luta tenaz e desesperada contra a classe dos proprietários das terras.

Aqui torna-se necessário fazer notar que no nosso país há muita gente (até entre pessoas instruídas) que expressa uma ideia completamente errada acerca da força da classe dos proprietários de terras, quando diz que o «Estado» tem muito mais terras. «E agora – dizem estes maus conselheiros dos camponeses – uma grande parte do território (isto é, de toda a terra) da Rússia pertence ao Estado» (citamos palavras do periódico Revolutsionnaia Rossia, n.º 8, pág. 8) o erro destes homens deve-se ao seguinte: ouviram dizer que o Tesouro possui na Rússia Europeia 150 milhões de desiatinas, o que realmente é certo, mas esqueceram-se que estes 150 milhões de desiatinas são, na sua quase totalidade, terras ermas e bosques no Norte distante, nas províncias de Arjanguelsk, Vologda, Olonets, Vitka e Perm. De modo que o Tesouro só possui terras que até agora não serviram de nada para a exploração. Na realidade, as terras cultiváveis em poder do Tesouro são menos de quatro milhões de desiatinas, mas estas terras (por exemplo, na província de Samara, onde mais abundam) são arrendadas aos ricos a preços baratíssimos, por uma bagatela. Os ricaços tomam de aluguer dezenas de milhares de desiatinas destas terras, e seguidamente subalugam aos camponeses por uma renda triplicada.

Se bem que muitos dos maus conselheiros do campesinato lhe digam que o Tesouro possui muita terra, na realidade, os que possuem muitas terras são os grandes proprietários agrários (incluindo o czar), e são estes grandes senhores que têm nas suas mãos o próprio tesouro. E enquanto os camponeses pobres não se unirem e constituírem, graças à sua união, uma força temível, o «Estado» continuará sempre a ser criado obediente da classe dos senhores das terras. E tão pouco se deve esquecer que dantes os senhores das terras eram quase exclusivamente nobres. Ainda hoje, os nobres possuem muita terra (115 000 nobres possuíam, segundo dados de 1877 e 1878, 73 milhões de desiatinas). Mas agora, a força principal é o dinheiro, o capital. Os comerciantes e camponeses abastados compraram enormes superfícies de terras. Calcula-se que, em trinta anos, de 1863 a 1892, os pobres perderam terras (isto é venderam mais do que compraram) no valor de 600 milhões de rublos. Entretanto, os comerciantes e cidadãos importantes adquiriram terras no valor de 250 milhões de rublos. Os camponeses, os cossacos e os «demais vizinhos rurais» (é assim que o nosso governo classifica a gente simples, para a distinguir da «gente nobre» e «selecta») adquiriram terras no valor de 300 milhões de rublos. Isto quer dizer que em toda a Rússia, a médio prazo, os camponeses adquiriram terras em propriedade privada, no valor de 10 milhões de rublos.

Há duas classes de camponeses: uns vivem na miséria e passam fome; outros enriquecem. Aumenta cada vez mais o número de camponeses ricos cujos olhos estão postos nos senhores das terras, que se colocarão do lado dos ricos contra os operários.  E os pobres do campo, que querem unir-se aos operários da cidade, têm pois de reflectir bem sobre isto, têm que ver se esses camponeses ricos são muitos, qual é a sua força e de que espécie de união necessitamos para combater essa força. Acabamos de mencionar os maus conselheiros do campesinato. Estes maus conselheiros gostam de repetir: os camponeses já têm a sua união. Essa união é o «mir», a comunidade. O «mir» é uma grande força. A união do «mir» agrupa intimamente os camponeses; a organização (isto é, associação, união) dos camponeses no «mir» é colossal (isto é, enorme inabarcável).

Isso não é verdade; isso é uma fábula. Apesar de ter sido inventada por boa gente, nem por isso deixa de ser uma fábula. Se dermos ouvidos às fábulas, apenas prejudicaremos a nossa causa, a causa da aliança entre as classes pobres do campo e os operários da cidade. Pois bem, que cada homem do campo olhe atentamente à sua volta: será que a união no «mir», a comunidade camponesa, se assemelha em alguma coisa com a união dos pobres para lutar contra todos os ricaços, contra todos os que vivem à custa do trabalho alheio? Não, não se assemelha nem pode assemelhar-se. Em cada aldeia, em cada comunidade, há muitos trabalhadores braçais, muitos camponeses arruinados, assim como também há muitos ricos que têm trabalhadores braçais nas suas fazendas e adquirem terras «em propriedade perpétua». Estes ricaços são também membros da comunidade e aí põem e dispõem a seu bel-prazer, pois constituem uma força. Mas acaso necessitamos de uma união da qual façam parte ricaços, pondo e dispondo a seu bel-prazer? De nenhum modo. Necessitamos, sim, de uma união para lutar contra os ricaços. Por conseguinte, a união no «mir» não nos serve em absoluto.

Necessitamos, sim, de uma união voluntária, uma união constituída exclusivamente por aqueles que tiverem compreendido que se devem aliar aos operários da cidade. E a comunidade não é uma união voluntária mas sim uma união oficial. A comunidade não é formada por aqueles que trabalham para os ricaços, que desejam lutar, unidos contra os ricaços. A comunidade é formada por homens de todas as classes, e não é uma união voluntária; foram as autoridades que os ligaram à comunidade, porque os seus pais viveram naquelas terras e trabalharam para aquele senhor feudal. Os camponeses pobres não podem deixar voluntariamente a comunidade; nem tão pouco podem admitir livremente que uma pessoa estranha, isto é, registada pela polícia num outro distrito rural, possa fazer parte dela, o que só nos vem mostrar que a união é necessária. Sim, precisamos de uma união completamente distinta, a união voluntária dos operários agrícolas com os camponeses pobres, para lutar contra todos os que vivem do trabalho alheio.

Já lá vai o tempo em que o «mir» constituía uma força. E esse tempo não voltará mais. O «mir» era uma força quando quase não existiam, entre os camponeses, trabalhadores braçais e operários que andassem por toda a Rússia em busca de um salário, quando quase não existiam ricaços, e quase todos eram oprimidos, de igual maneira, pelo senhor feudal. Mas agora, a força principal é o dinheiro. Por dinheiro, até os membros de uma mesma comunidade lutam entre si como feras selvagens. Os mujiques endinheirados oprimem os membros da sua própria comunidade e exploram-nos com mais crueldade do que alguns senhores feudais. O que nós necessitamos agora não é a união no «mir», mas sim da união contra o poder do dinheiro, contra o poder do capital, da união entre todos os operários agrícolas e camponeses pobres das várias comunidades, a aliança de todos os pobres do campo com os operários da cidade, para combater, por igual, contra os senhores feudais e camponeses ricos.

Já vimos qual é a força dos senhores. Vejamos agora se os camponeses ricos são muitos e qual é a sua força. A grandeza das herdades, assim como a área das suas terras, dá-nos ideia da força dos senhores feudais. Estes senhores dispõem livremente das suas terras, compram-nas e vendem-nas com toda a liberdade. Por isso, pode-se julgar da sua força com toda a exactidão, tendo em conta a superfície das terras que possuem. Contrariamente, os camponeses do nosso país ainda hoje não gozam do direito de dispor livremente das suas terras; continuam a ser semi-servos, ligados à comunidade. Por isso, não se pode julgar a força dos camponeses ricos pela superfície dos lotes comunais de que dispõem. Os camponeses ricos não enriquecem graças aos seus lotes comunais, mas sim porque compram muita terra, tanto em propriedade «perpétua» (isto é, em propriedade privada), como «por anos» (isto é, tomada em arrendamento), e compram-na ou aos senhores feudais, ou a outros camponeses da mesma comunidade, que abandonam a terra ou a cedem por força das necessidades. Por isso, será mais correcto diferenciar os camponeses em ricos, médios ou pobres, segundo o número de cavalos que possuam. Um camponês que tem muitos cavalos é, quase sempre, um camponês rico; se tem muito gado de trabalho, é porque tem muitas sementeiras, muita terra, além do seu lote, assim como dinheiro disponível. Para além disso, temos a possibilidade de averiguar quantos camponeses, possuidores de muitos cavalos, existem em toda a Rússia (a Rússia Europeia, sem contar com a Sibéria nem o Cáucaso). Naturalmente, não nos podemos esquecer que só se pode falar de toda a Rússia em números redondos: entre os diferentes distritos e províncias há grandes diferenças. Assim, existem perto das cidades, alguns camponeses ricos que não possuem muitos cavalos, alguns dedicam-se ao negócio vantajoso da horticultura; outros têm poucos cavalos, mas muitas vacas e vendem leite. Há também em toda a Rússia camponeses que não enriquecem pela terra, mas pelo comércio; instalam fábricas de manteiga, moinhos e outras empresas. Todo aquele que vive no campo conhece muito bem os camponeses ricos da sua aldeia, e até do distrito. Mas o que nós devemos saber, é quantos deles existem em toda a Rússia, qual é a sua força, para que o campesinato pobre não actue ao acaso, de olhos fechados, mas possa saber exactamente quais são os seus amigos e quais os seus inimigos.

Pois bem, vejamos quantos são os camponeses ricos em cavalos, e quantos são os pobres. Já dissemos que em toda a Rússia existem cerca de dez milhões de famílias camponesas. O total de cavalos de que dispõem agora deve andar à volta de quinze milhões (até à cerca de 14 anos havia 17 milhões, mas agora há menos). Isto significa que, em números aproximados, a cada dez famílias correspondem quinze cavalos. Mas o caso é que alguns – muito poucos – possuem muitos cavalos, enquanto que outros – a grande maioria – carecem deles por completo ou têm poucos. Os camponeses sem cavalo não passam dos três milhões, e cerca de três milhões e meio de camponeses têm um só cavalo. São camponeses completamente arruinados ou camponeses pobres. Chamamos-lhes os pobres do campo. A eles correspondem seis milhões e meio de famílias, dos dez milhões anteriormente assinalados, isto é quase duas terças partes! A seguir vêm os camponeses médios, que possuem uma junta de gado de trabalho. A estes correspondem cerca de dois milhões de famílias, com uns quatro milhões de cavalos. Por fim, vêm os camponeses ricos, que possuem mais de um par de cavalos de trabalho. A esta categoria corresponde um milhão e meio de famílias, mas estas possuem sete milhões e meio de cavalos[2]. Portanto, uma sexta parte, aproximadamente, das famílias possui a metade dos cavalos.

Sabendo isto, podemos julgar com bastante exactidão acerca da força dos camponeses ricos. O seu número não é muito grande: em diversas comunidades, em diversos distritos rurais, há uns dez ou vinte por cada cem famílias. Mas estas poucas famílias são as mais ricas. Possuem, em quase toda a Rússia, quase a mesma quantidade de cavalos que todos os outros camponeses juntos. Isso significa que também têm quase a metade de todas as sementeiras do campo. Os camponeses ricos recolhem muito mais cereal que aquele de que necessitam para alimentar as suas famílias. Vendem muitas sementes. O cereal não só lhes serve para se alimentarem, mas também, na sua maior parte, para venda, para ganhar dinheiro. Estes camponeses podem acumular dinheiro. Depositam-no nas caixas de previdência e nos bancos e compram terras. Já nos referimos à grande quantidade de terra que os camponeses compram anualmente em todo o país. Quase toda essa terra cai nas mãos desse número reduzido de camponeses ricos. Os pobres do campo, longe de pensar na compra de terras, têm de pensar no modo de obter os meios para a sua subsistência. Muitas vezes não os conseguem para obter o pão, quanto mais para comprar terras! Esta é a razão pela qual todos os bancos em geral, e em particular o Banco Camponês, não ajudam todos os camponeses a adquirir terras (como asseguram algumas pessoas que enganam o mujique ou a gente simples), mas apenas a um número insignificante de camponeses, só aos camponeses ricos. Esta é também a razão pela qual os maus conselheiros do mujique de quem falámos mais atrás, mentem quando falam da compra de terras pelos camponeses, e afirmam que essas terras passam do capital ao trabalho.

A terra nunca pode passar para o trabalho, isto é, para o trabalhador sem posses, pois por ela tem que pagar dinheiro. E os pobres jamais terão dinheiro de sobra. A terra passa só para os camponeses que têm dinheiro, ao capital; só para aqueles contra quem os pobres do campo têm de lutar em união com os operários da cidade. Os camponeses ricos não só adquirem terras em regime de propriedade perpétua, mas também são quem mais toma as terras de aluguer «por anos». Arrebatam a terra aos camponeses pobres, alugando grandes quintas. Por exemplo, apenas num distrito da província de Poltava (distrito de Konstantinogrado), calculou-se qual a quantidade de terra que os camponeses ricos tomavam de aluguer. E qual foi o resultado? Os que alugavam mais de 30 desiatinas por família eram muito poucos: duas famílias para cada 15. Mas estes ricaços açambarcavam a metade do total da terra alugada, correspondendo a cada um deles 75 desiatinas de terra alugada. Na província da Taurida, calculou-se qual a quantidade de terra do tesouro alugada pelo «mir» (pela comunidade camponesa) que tinha sido açambarcada pelos ricaços. Verificou-se que estes – uma quinta parte das famílias – açambarcavam três quartos de todas as terras alugadas. Em toda a parte, a terra reparte-se segundo o dinheiro, e os que dispõem dele são apenas um pequeno número de ricaços.

Além disso, os próprios camponeses dão hoje muita terra para alugar. Abandonam os seus lotes comunitários, pois falta-lhes o gado, as sementes, não têm recursos para continuar a sustentar as suas herdades. Hoje em dia, sem dinheiro não se pode fazer nada, ainda que se possua terra. Assim, no distrito de Novouzensk, província de Samara, uma e às vezes duas famílias, por cada três famílias de camponeses ricos, tomam de aluguer lotes comunitários na sua própria comunidade, ou em comunidades vizinhas. E os que cedem terras para aluguer são camponeses sem cavalos ou com um único cavalo. Na província de Taurida, uma terça parte das famílias camponesas cede os seus lotes para aluguer. Uma quarta parte do total dos lotes comunitários dos camponeses, 250 000 desiatinas, são cedidos para aluguer. Destas 250 000 desiatinas, cento e cinquenta mil (três quintas partes) caem nas mãos dos camponeses ricos. Vemos uma vez mais se a união no «mir» (na comunidade) serve ou não serve aos pobres. Na comunidade rural, quem possui dinheiro detém a força. Mas nós necessitamos da união dos pobres de todas as comunidades.

Do mesmo modo como se engana o camponês com a questão da compra da terra, também ele é engando quando se lhe fala da aquisição, a preços módicos, de arados, segadoras e outros instrumentos de trabalho aperfeiçoados. Organizam-se armazéns municipais e oficinas, e diz-se: os instrumentos aperfeiçoados melhoram a situação dos camponeses. Isto é uma pura mentira. Todos os bons instrumentos vão parar apenas às mãos dos ricaços; os pobres quase não os vêem. Os pobres não estão para arados e segadoras! Têm bastante que faze! Toda esta «ajuda ao camponês» é uma ajuda aos ricaços, e nada mais. E não se pode ajudar a massa de camponeses pobres, sem terra, sem gado, sem reservas, vendendo-lhes a preços reduzidos os melhores instrumentos de trabalho. Por exemplo, no distrito da província de Samara, contaram-se todos os instrumentos aperfeiçoados em poder dos camponeses ricos e dos camponeses pobres. Verificou-se que uma quinta parte das famílias, isto é, as mais abastadas, têm em seu poder quase as três quartas partes de todos os instrumentos aperfeiçoados, enquanto que os pobres – metade das famílias – possuem apenas uma trigésima parte. Nesse distrito existem 28 000 famílias, das quais 10 000 não têm cavalo ou têm apenas um: estas 10 000 famílias possuem apenas sete das 5724 alfaias aperfeiçoadas com que contam todas as explorações camponesas do distrito. Sete alfaias agrícolas das 5724 existentes: é esta a proporção em que os camponeses pobres beneficiam dos aperfeiçoamentos da economia camponesa, da difusão de arados e segadoras, que serve, segundo se afirma, «todos os camponeses». É isto o que os camponeses pobres podem esperar de quem lhes fala em «melhorar a fazenda dos camponeses»!

Finalmente, uma das principais características dos camponeses ricos, é o contrato de trabalhadores braçais e jornaleiros. Tal como os senhores feudais, os camponeses ricos vivem também do trabalho alheio. Tal como os senhores feudais, enriquecem à custa da miséria e da ruína das massas camponesas. Tal como os senhores feudais, exigem a maior quantidade possível do trabalho dos seus trabalhadores braçais, pagando-lhes o menos possível. Se milhões de camponeses não caíssem por completo na ruína, se não se vissem obrigados a procurar trabalho nas fazendas alheias, a converter-se em assalariados, vendendo a sua força de trabalho, os camponeses ricos não poderiam existir, não poderiam explorar as suas quintas. Então não poderiam arrecadar lotes «abandonados», não poderiam encontrar operários. Em toda a Rússia, um milhão e meio de camponeses ricos contratam, provavelmente, nada menos que um milhão de trabalhadores braçais e jornaleiros. Naturalmente que, na grande luta entre a classe dos proprietários e a classe dos pobres, entre os patrões e os operários, entre a burguesia e o proletariado, os camponeses ricos pôr-se-ão do lado dos proprietários, contra a classe operária.

Conhecemos já a situação e a força dos camponeses ricos. Vejamos agora como vivem os pobres do campo.

Já dissemos que as camadas pobres do campo constituem a grande maioria, quase dois terços de todas as famílias camponesas de toda a Rússia. Numa primeira fase, o número de famílias camponesas sem cavalos é, pelo menos, de três milhões; hoje, são provavelmente mais, cerca de três milhões e meio. Cada ano de fome, cada má colheita leva à ruína dezenas de milhares de famílias. A população aumenta, vive-se cada vez mais miseravelmente, enquanto a melhor terra vai sendo açambarcada pelos senhores feudais e camponeses ricos. Pois bem, de ano para ano mais camponeses se arruínam, vão para as cidades, transformam-se em trabalhadores braçais, em serviçais. Um camponês sem cavalo é um camponês completamente desapossado. É um proletário. Vive (porque respira, mas é mais exacto dizer que está a sofrer) não da terra, não da sua fazenda, mas sim do trabalho assalariado. É um irmão de carne do operário da cidade. Nem tão pouco necessita de terra: metade das famílias sem cavalos cede para aluguer os lotes comunitários, e algumas vezes, até os entrega à comunidade gratuitamente (e alguns até pagam alguma coisa para cobrir as contribuições) pois não está em condições de os cultivar. O camponês sem cavalo semeia uma desiatina ou, quando muito, duas. Tem sempre que comprar pão (se é que tem dinheiro para isso), porque o seu nunca lhe chega. Os camponeses que possuem um cavalo, que em toda a Rússia constituem cerca de três milhões e meio de famílias, têm muito poucas vantagens sobre ele. Naturalmente, é costume haver excepções, e já dissemos que, em algumas regiões, há camponeses com um único cavalo que vivem medianamente e inclusivamente são ricos. Mas não falamos das excepções nem de alguns lugares isolados, mas de toda a Rússia. Se considerarmos toda a massa de camponeses com um só cavalo, não há dúvida que esta massa se compõe de pobres, de indigentes. O camponês com um só cavalo, inclusivamente nas províncias agrícolas, semeia no máximo três ou quatro desiatinas, e muito raramente cinco; e tão pouco consegue o seu próprio pão. Não se alimenta melhor que o camponês sem cavalo, nem sequer nos anos de boa colheita; por isso, nunca chega a comer o suficiente, constantemente passa fome. A sua fazenda está em completa decadência, o seu gado é mau e mal alimentado, e não está em condições de fazer devidamente o trabalho no campo. O camponês com um só cavalo – por exemplo, na província de Voronezk – pode gastar em toda a fazenda (para além da foragem para o gado) no máximo vinte rublos por ano! (Um camponês rico gasta o décuplo). Vinte rublos por ano para pagar o aluguer da terra, para compra de gado, para a reparação do arado e outros instrumentos de trabalho, para o pastor e para tudo o mais! Acaso isso se pode chamar fazenda? Isso é o abismo, trabalho forçado, um eterno tormento. Compreende-se, pois, que entre os camponeses com um só cavalo haja muitos que também cedem para aluguer os lotes comunitários. O indigente só pode tirar pouco proveito da terra. Não tem dinheiro, e da terra não pode tirar nada, nem o necessário para o seu sustento, quanto mais dinheiro! O dinheiro faz falta para tudo: para a comida, roupa, para a exploração da terra, para pagar os impostos. Na província de Voronezk, cada camponês com um só cavalo tem de pagar anualmente, apenas em impostos, uns dezoito rublos, enquanto que, para todos os gastos, apenas se pode conseguir pouco mais de 75 rublos por ano. Neste caso, só como burla se pode falar de compra de terras, de instrumentos aperfeiçoados, de bancos rurais: nada disso foi idealizado para os pobres.

Onde, então ir buscar o dinheiro? Procurando alguma «receita». O camponês com um só cavalo, assim como os que não têm nenhum, pode continuar a subsistir com muito sacrifício, unicamente à base de alguma «receita». E o que significa procurar uma «receita»? Significa procurar trabalho em fazendas alheias, trabalho assalariado. Significa que o camponês com um só cavalo já não é um proprietário médio, tendo-se convertido em assalariado, em proletário. Por isso, chama-se a esses camponeses semi-proletários. São também irmãos de carne do operário da cidade, pois também são desapossados pelos patrões. E também não têm outra saída, outra salvação que não seja unir-se com os social-democratas para lutar conjuntamente contra todos os ricaços, contra todos os proprietários. Quem trabalha na construção do caminho-de-ferro? A quem roubam os empreiteiros? Quem vai ao bosque rachar lenha e quem transporta a madeira pelos rios? Quem são os trabalhadores braçais? Quem trabalha como jornaleiro? Quem faz os trabalhos mais duros nas cidades e nos cais? São os pobres do campo. São os camponeses que não possuem cavalos ou que possuem um só cavalo. São os proletários e semi-proletários do campo. E quantos há em toda a Rússia! Segundo os cálculos elaborados, solicitam-se anualmente em toda a Rússia (fora o Cáucaso e a Sibéria) oito a nove milhões de passaportes. Todos eles são para trabalhadores que saem das suas aldeias em busca de um salário. São camponeses de nome mas, na realidade, trata-se de assalariados de operários. Todos eles devem unir-se numa única associação com os operários da cidade, e cada raio de luz e de saber que chegue ao campo fortalecerá e consolidará esta associação.

Há outra coisa que não devemos esquecer, no que diz respeito às «receitas». Funcionários de toda a espécie, assim como gente que raciocina à maneira dos funcionários, costumam dizer que o camponês, o mujique, «necessita» de duas coisas: terra (mas não muita, já que não há de onde tirá-la, porque os ricos a açambarcaram) e alguma «receita». De modo que, segundo esta gente, para ajudar o povo, haveria que desenvolver as indústrias no campo, haveria que «proporcionar» mais «receita». Tudo isso não é mais do que pura hipocrisia. Para o camponês pobre não há outras receitas senão as que o trabalho assalariado proporciona. «Proporcionar receitas» ao camponês, quer dizer transformá-lo em operário assalariado. Uma ajuda excelente, irrepreensível! Para os camponeses ricos há outra espécie de «receitas» que requerem capital: por exemplo, a instalação de moinhos ou qualquer outra máquina, a compra da debulhadora, o comércio, etc.. Confundir estas receitas da classe endinheirada com o trabalho assalariado dos camponeses pobres, significa enganar estes últimos. Aos ricos, naturalmente convém-lhes este engano, convém-lhes apresentar as coisas como se todas as «receitas» estivessem ao alcance de todos os camponeses. Mas o que realmente deseja o bem dos camponeses pobres, diz-lhes toda a verdade, e nada mais que a verdade. Agora, falta-nos falar do camponês médio. Já vimos que, geralmente, se pode considerar como camponês médio, em toda a Rússia, aquele que possui uma junta de animais de trabalho, e que entre os dez milhões de famílias camponesas haverá cerca de dois milhões de famílias de camponeses médios. O camponês médio encontra-se entre o camponês rico e o proletário e, precisamente por isso chama-se camponês médio. A sua vida também é mediana: nos anos bons consegue subsistir com o que lhe dá a fazenda, mas a miséria espreita-o continuamente. Não possui economias e, se as tem, são bem poucas. Por isso, a situação da sua fazenda é precária. O camponês medio luta com grandes dificuldades para conseguir dinheiro. Poucas vezes consegue obter, da sua própria fazenda, o dinheiro de que necessita, e se o obtém, é muito à justa. E se tem necessidade de um salário, tem de abandonar a fazenda, e esta ressente-se. Não obstante, muitos camponeses médios não podem passar sem receitas complementares e têm que trabalhar como trabalhadores braçais; a necessidade obriga-os a submeter-se à exploração dos senhores feudais, a contrair dívidas. E o camponês médio quase não consegue saldar as suas dívidas, pois lhe faltam receitas seguras como as que possuem os camponeses ricos. Por isso, uma vez endividado, é como se tivesse lançado uma corda ao pescoço. Nunca se consegue livrar das dívidas e acaba por se arruinar por completo. O camponês médio é quem mais se deixa explorar pelo senhor feudal, pois este necessita para certos trabalhos de empreitada, de um camponês não arruinado, que tenha uma junta de cavalos e todos os instrumentos de trabalho necessários. Para o camponês médio torna-se difícil trabalhar longe do local onde habita, e por isso cai na dependência do senhor feudal, quer por causa do cereal, quer pelo apascentar do gado, o arrendamento de lotes ou o dinheiro que pede empestado no Inverno. Para além do senhor feudal e do kulak, o camponês médio é também oprimido pelo vizinho rico, que nunca perde ocasião de usufruir da terra e de o oprimir por todos os meios ao seu alcance. Assim vive o camponês médio, que não é nem um caso nem outro. Não pode ser nem um verdadeiro lavrador abastado, nem um operário. Todos os camponeses médios têm os olhos postos nos camponeses abastados, querem ser proprietários, mas são poucos queles que o conseguem. Poucos chegam a contratar trabalhadores braçais e jornaleiros, desejosos de enriquecer à custa do trabalho alheio, de se elevarem à custa dos outros para virem a ser camponeses ricos. A maior parte dos camponeses médios não carece de recursos para contratar trabalhadores braçais ou jornaleiros, como também se vêm obrigados a trabalhar por um salário.

Em toda a parte onde começa a luta entre os ricos e os pobres, entre proprietários e operários, o camponês médio encontra-se no meio, sem saber que partido tomar. Os ricos chamam-no para seu lado e dizem-lhe: tu também és um senhor, um proprietário, não tens motivos para andar com os operários andrajosos. E os operários dizem-lhe: os ricos burlaram-te e roubaram-te, não tens outro remédio senão ajudar-nos na luta contra todos os ricos. Esta luta pelo camponês médio desenrola-se em toda a parte, em todos os países em que os operários social-democratas lutam pela emancipação do povo trabalhador. Na Rússia esta luta começa precisamente agora. Esta é a razão pela qual devemos estudar atentamente este problema e compreender claramente de que meios enganosos se servem os ricos para atrair a si os camponeses médios; compreender claramente o que devemos fazer para denunciar esses meios enganosos, e como devemos ajudar o camponês médio a encontrar os seus verdadeiros amigos. Se os operários social-democratas russos tomarem em seguida um caminho acertado, conseguiremos organizar muito mais rapidamente que os camaradas operários alemães, uma sólida aliança dos trabalhadores do campo com os operários da cidade e obter em pouco tempo a vitória sobre todos os inimigos dos trabalhadores.

4. COM QUEM DEVE ALINHAR O CAMPONÊS MÉDIO? COM OS PROPRIETÁRIOS E RICOS OU COM OS OPERÁRIOS E OS POBRES?

Todos os proprietários, toda a burguesia procura atrair a si o camponês médio, prometendo-lhe os mais diversos meios de melhora a sua propriedade (arados baratos, bancos agrícolas, sementeiras para pastos, venda de gado barato e abonos, etc.) e fazendo-os participar em toda a espécie de associações agrícolas (cooperativas, como lhes chamam nos livros), de associações de lavradores para melhorar as propriedades. Aproveitando-se disso, a burguesia esforça-se por desviar o camponês médio da aliança com os operários, e inclusivamente faz por atrair o pequeno camponês e o semi-proletário para o lado dos ricos, da burguesia, na luta desta classe contra os operários, contra o proletariado.

Os operários social-democratas contestam isto: melhorar as propriedades é uma coisa excelente. Não há nada de mal em comprar os arados mais baratos; hoje em dia, todo o comerciante perspicaz trata de vender barato, para atrair os clientes. Mas quando se diz ao camponês médio e ao pobre que o melhoramento da sua herdade e o preço mais barato dos arados os hão-de ajudar a sair da miséria, a levantar cabeça, sem molestar os ricos, isto já é uma mentira. De todos estes melhoramentos, preços mais baratos e cooperativas (associações para a venda e compra de mercadorias), são os ricos os mais beneficiados. Os ricos vão ganhando mais poder, ao mesmo tempo que os camponeses pobres e médios vão sendo cada vez mais oprimidos por eles. Enquanto os ricos continuarem a ser ricos, enquanto tiverem em seu poder a maior parte das terras, do gado, dos instrumentos de trabalho e do dinheiro, não só os camponeses pobres, mas também os camponeses médios, jamais conseguirão sair da miséria. Ainda que um ou outro camponês médio consiga chegar, à custa de grandes sacrifícios e com a ajuda destes melhoramentos e cooperativas, ao nível dos camponeses ricos, no entanto o povo e todos os camponeses médios afundar-se-ão cada vez mais na miséria. Para que todos os camponeses médios se tornem ricos, é preciso acabar com os ricos, coisa que só a aliança dos operários da cidade com os pobres do campo pode conseguir.

A burguesia diz ao camponês médio (e até ao pequeno camponês): vender-te-emos terra barata, arados baratos, mas tens de nos vender a tua alma, tens de renunciar à luta contra todos os ricos.

O operário social-democrata diz: se realmente vendem barato, por que razão não se há-de comprar, tendo dinheiro? É um negócio. Mas nunca ninguém deve vender a sua alma; renunciar à luta, em conjunto com os operários da cidade, contra toda a burguesia, significa continuar eternamente na miséria. O preço mais barato das mercadorias só irá beneficiar ainda mais o rico, enriquecê-lo cada vez mais. Todo aquele que não tem dinheiro, não terá protecção, a não ser pela luta, pela expropriação do dinheiro de que a burguesia se apropriou.

Vejamos um exemplo. Os defensores da burguesia carecem de palavras para abalizar com cuidado todo o género de cooperativas (associações para comprar barato e vender com lucro). Há inclusivamente algumas pessoas, os chamados «socialistas revolucionários» que, seguindo a burguesia, asseguram em altos brados que as cooperativas são aquilo que o camponês mais necessita. Na Rússia também se começa a desenvolvê-las, mas ainda são muito poucas e continuarão a sê-lo, enquanto não houver liberdade política. Mas na Alemanha há muitas cooperativas, de toda a espécie, entre os camponeses. Vejamos quem mais proveito tira delas. Em toda a Alemanha há 140 000 proprietários agrícolas que participam nas cooperativas para venda de leite e seus derivados. Estes 140 000 proprietários (uma vez mais apresentamos números aproximados, para que se torne mais simples), possuem 1 100 000 vacas. Calcula-se que existem, em toda a Alemanha, quatro milhões de camponeses pobres, dos quais só 40 000 participam nestas cooperativas, o que quer dizer que, de cada cem camponeses pobres, apenas um utiliza estas cooperativas. Estes 40 000 camponeses pobres só possuem 100 000 vacas. Além disso, o número de proprietários médios, de camponeses médios, é de um milhão; de entre eles, 50 000 participam nas cooperativas (isto é, cinco em cada cem), e possuem 200 000 vacas. Por último, o número de proprietários ricos (isto é, senhores feudais e camponeses ricos) é de um terço de milhão, dos quais participam nas cooperativas 50 000 (ou seja, dezassete em cada 100!), e possuem 800 000 vacas!

Aí tendes a quem beneficiam, antes de tudo e sobretudo, as cooperativas! É assim que o mujique é enganado pelas pessoas que falam em salvar o camponês mésio por meio de todos os tipos de associações, para comprar barato e vender com lucro. É muito barato o preço que a burguesia quer pagar para «arrancar» o mujique da influência dos social-democratas, que chamam os camponeses pobres e médios para lutarem a seu lado!

Também no nosso país se começam a organizar várias associações para o fabrico de queijos e para vender o leite. Também no nosso país há muita gente que grita: associações, a união no «mir», cooperativas, é disso que o mujique necessita! Mas, vejamos a quem beneficiam essas associações, essas cooperativas, esses arrendamentos comunitários. No nosso país, em cada cem famílias camponesas, vinte, pelo menos, não possuem vacas; trinta têm uma vaca cada uma, e vêem-se obrigadas a vender o leite, enquanto os filhos vivem sem leite, passam fome e morem como moscas. Contrariamente, os mujiques ricos têm três, quatro e mais vacas, em suma, metade das vacas dos camponeses. A quem, pois, beneficiam as associações para o fabrico de queijos? Está claro que, em primeiro lugar, aos senhores feudais e à burguesia rural. Está claro que lhes convém que os camponeses médios e os pobres tenham os olhos postos neles, que não considerem a luta de todos os operários contra toda a burguesia como o único meio de se libertarem da miséria, mas que considerem, sim, a aspiração de alguns pequenos proprietários de se libertarem da sua situação e se passarem para o lado dos ricaços.

Todos os defensores da burguesia apoiam e estimulam, por todos os meios, esta aspiração fingindo-se defensores e amigos do pequeno camponês. E há muita gente ingénua que não reconhece o lobo com pele de cordeiro e repete as mentiras da burguesia, acreditando que beneficia o camponês pobre e médio. Dizem, por exemplo, nos seus livros e discursos, que a pequena propriedade é a mais lucrativa, a mais rentável, que a pequena propriedade prospera; por isso, segundo eles, há tantos pequenos proprietários agrícolas em toda a parte, e estão tão agarrados à terra (e não porque as melhores terras tenham sido açambarcadas pela burguesia, não porque esta tenha também em seu poder todo o dinheiro, enquanto os camponeses pobres têm de sofrer toda a vida miséria e atribulações no seu pequeno quinhão de terra!). O pequeno camponês não necessita de muito dinheiro, diz essa gente melíflua; o pequeno camponês e o camponês médio são mais poupados e mais trabalhadores do que o camponês rico, e para além disso, sabem viver mais singelamente: em lugar de comprar feno para o gado, remedeia com palha; em lugar de comprar uma máquina cara, levanta-se mais cedo, trabalha mais e substitui a máquina; em lugar de gastar o dinheiro pagando por cada reparação, repara-a ele próprio nos dias festivos, faz toda a espécie de trabalhos de carpintaria e sai-lhe muito mais barato que ao grande proprietário; em lugar de manter um cavalo caro ou um boi, tem uma vaca para lavrar a terra; na Alemanha, todos os camponeses pobres trabalham a terra com vacas, e no nosso país o povo está arruinado, que não só as vacas, como também as pessoas se submetem ao arado. Além do mais, é tão vantajoso, tão barato! Que digno de elogio é o pequeno camponês e o camponês médio, tão diligente, tão trabalhador, que vive tão frugalmente, que não nega nada, que não pensa no socialismo, mas apenas na sua propriedade! Não, eles não tomam o partido dos operários, que declaram greves contra a burguesia, mas seguem o partido dos ricos, querem chegar a ser gente abastada! Oh, se todo o mundo fosse tão trabalhador, tão diligente, vivesse com tanta simplicidade, não se embebedasse, poupasse mais dinheiro, gastasse menos em ninharias, tivesse menos filhos! Oh, então, todo o mundo viveria muito bem e não haveria nem miséria nem penúria!

A burguesia dirige estas charlatanices adocicadas ao camponês médio, e há, todavia, simplórios que se fiam nestas cantilenas e as repetem[3]. Na realidade essas expressões artificiais não passam de uma mentira, um escárnio pelo camponês. Esta gente melíflua chama propriedade barata e lucrativa à miséria, à amarga necessidade, que obriga o pequeno camponês e o camponês médio a trabalhar de sol a sol, a poupar cada migalha de pão, a evitar qualquer gasto, por mínimo que seja. Evidentemente, nada pode ser mais «barato» e «lucrativo» do que passar três anos com as mesmas calças, andar no Verão sem botas, atar o arado de madeira com uma corda e alimentar a vaca com palha podre tirada do tecto! Vivesse qualquer burguês ou camponês rico nesta propriedade «barata» e «lucrativa», e logo esqueceria rapidamente as suas charlatanices adocicadas!

As pessoas que se desfazem em elogios à pequena propriedade querem por vezes favorecer o camponês mas, na realidade, apenas o prejudicam. Enganam com essas palavras melífluas o mujique, como enganam o povo com a lotaria. Explicarei o que quero dizer com isso. Suponhamos que tenho uma vaca que custa, por exemplo, 50 rublos. Quero rifá-la e ofereço a toda a gente bilhetes no valor de um rublo. Por um só rublo ganha-se uma vaca! As pessoas acorrem ao chamariz, e os rublos chovem. Uma vez reunidos cem rublos, vem o sorteio: quem tiver o bilhete premiado receberá a vaca por um só rublo, mas as restantes pessoas não receberão nada. Será que a vaca saiu «barata» a toda a gente? Não, muito cara, porque se pagou o dobro do que ela custa, porque duas pessoas (a que organizou a lotaria e a que recebeu a vaca) lucraram sem fazer nenhum trabalho, à custa das noventa e nove pessoas que perderam o seu dinheiro. Assim, quem diz que as lotarias são lucrativas para o povo, não faz mais do que enganá-lo. Do mesmo modo, engana o camponês aquele que promete libertá-lo da miséria e da necessidade mediante cooperativas de toda a espécie (associações para vender lucrativamente e comprar barato), mediante todo o género de aperfeiçoamentos agrícolas, bancos, etc.. Assim como na lotaria apenas uma pessoa acaba por ganhar, enquanto as demais acabam por perder, aqui sucede o mesmo: um camponês médio poderia chegar ao nível dos camponeses ricos, enquanto noventa e nove dos seus companheiros passarão a vida a ser explorados, sem conseguir sair da miséria, e afundando-se cada vez mais na ruína. Que cada camponês se capacite bem do que se passa na sua comunidade e em todo o distrito: são muitos os camponeses médios que conseguem chegar a ricos e fugir à miséria? E quantos são os que em toda a sua vida não se conseguem libertar da miséria? E quantos aqueles que se arruínam e abandonam a aldeia? Em toda a Rússia, tal como vimos, o número das propriedades camponesas médias se calcula em não mais de dois milhões. Suponhamos que o número de associações de toda a espécie para comprar barato e vender lucrativamente decuplica em comparação com as que existem agora. O que aconteceria? No melhor dos casos, uns cem mil camponeses médios poderiam chegar à categoria dos ricos. E o que significa isto? Que em cada cem camponeses médios, cinco tornar-se-iam ricos. Mas, e os noventa e cinco restantes? Viveriam com as mesmas dificuldades do que anteriormente. E os camponeses pobres arruinar-se-iam ainda mais!

Naturalmente, a burguesia quer que o maior número possível de camponeses médios e pequenos se ponha do lado dos ricos, acredite na possibilidade de se libertar da miséria sem lutar contra a burguesia, confie na sua capacidade de trabalho, na sua capacidade de economizar e de enriquecer, e não na sua aliança com os operários do campo e da cidade. A burguesia trata de alimentar, por todos os meios, esta fé enganadora, esta esperança no mujique, trata de enganá-lo com toda a espécie de palavras adocicadas.

Para pormos a nu as mentiras desta gente melíflua, basta fazer-lhes três perguntas:

Primeira pergunta:

— Pode o povo trabalhador libertar-se da penúria e da miséria, enquanto dos duzentos e quarenta milhões de desiatinas de terra cultivável que existem na Rússia, cem milhões continuarem a pertencer a proprietários privados? Enquanto dezasseis mil senhores feudais poderosos tiverem em seu poder sessenta e cinco milhões de desiatinas?

Segunda pergunta:

— Pode o povo trabalhador libertar-se da penúria e da miséria, enquanto um milhão e meio de famílias camponesas ricas (sob um total de dez milhões) açambarcarem metade das sementeiras, dos cavalos, do gado dos camponeses, e muito mais de metade de todas as reservas e economias dos camponeses? Enquanto essa burguesia rural continuar a enriquecer mais e mais, oprimindo os camponeses pobres e médios, acumulando fortunas com o trabalho dos assalariados e jornaleiros? Enquanto seis milhões e meio de famílias continuarem arruinadas, esfomeadas, e ganhando uma mísera migalha de pão à custa de toda a espécie de trabalhos assalariados?

Terceira pergunta:

— Pode o povo trabalhador libertar-se da penúria e da miséria, quando o dinheiro é agora a força principal, quando se pode comprar por dinheiro todas as coisas: uma fábrica, terras, e até homens como operários assalariados, como escravos assalariados; quando sem dinheiro não se pode viver, nem fazer com que a propriedade produza; quando o pequeno proprietário, o pobre, tem que lutar contra o grande proprietário para conseguir dinheiro; quando vários milhares de senhores feudais, comerciantes, fabricantes e banqueiros açambarcam centenas de milhares de rublos e dispõem, além disso, de todos os bancos, onde se concentram milhares de milhões de rublos?

Ninguém se pode furtar a estas perguntas com palavras melífluas sobre as vantagens da pequena propriedade ou das cooperativas. Estas perguntas têm apenas uma resposta: a verdadeira «cooperação», capaz de libertar o povo trabalhador, é a aliança dos pobres do campo com os operários social-democratas da cidade para lutar contra toda a burguesia. Quanto mais rapidamente se ampliar e efectivar esta aliança, mais rapidamente compreenderá o camponês médio toda a falsidade das promessas burguesas, mais rapidamente se porá do nosso lado.

A burguesia sabe disso e, por essa razão, para além das palavras melosas, espalha mentiras sobre mentiras acerca dos social-democratas. Diz-se que os social-democratas querem suprimir a propriedade do camponês médio e do pequeno camponês. Isso é mentira. Os social-democratas querem suprimir apenas a grande propriedade, mas só a daqueles que vivem do trabalho alheio. Os social-democratas nunca suprimirão a propriedade dos pequenos e médios proprietários, que não empregam operários assalariados. Os social-democratas defendem os interesses de todo o povo trabalhador, não só os operários da cidade – os mais conscientes e os mais unidos –, mas também os operários agrícolas e pequenos artesãos e dos camponeses, sempre que não tenham operários assalariados nem estejam ao lado dos ricos, nem se passem para o lado da burguesia. Os social-democratas lutam por todas as melhorias na vida dos operários e camponeses, que possam ser aplicadas já, até que não destruamos o domínio da burguesia, e facilitem a luta contra a burguesia. Mas os social-democratas não enganam o camponês, dizem-lhe toda a verdade, dizem-lhe de antemão e com toda a franqueza que nenhuma melhoria pode libertar o povo da penúria e da miséria enquanto a burguesia continuar a dominar. Para que todo o povo saiba quem são os social-democratas e o que pretendem, os social-democratas organizaram o seu programa. Um programa quer dizer uma exposição breve, clara e precisa de tudo o que o partido procura obter e daquilo por que luta. O Partido Social-Democrata é o único partido que expõe um programa claro e preciso, para que todo o povo o veja e o conheça, para que no partido não possam militar senão os que efectivamente desejam lutar pela emancipação de todo o povo trabalhador do jugo da burguesia e tenham, além disso, uma noção clara e correcta de quem deve unir-se para esta luta, e como deve ser ela conduzida. Para além disso, os social-democratas pensam que há que explicar no programa, clara, aberta e concretamente, as causas da penúria e da miséria do povo trabalhador, e por que é que a união dos operários se amplia e fortalece. Dizer que se vive mal e incitar à revolta é pouco; qualquer charlatão o pode fazer, mas o proveito é bem pouco. É preciso que o povo trabalhador compreenda claramente qual a causa da sua indigência e saiba com quem tem de unir-se para lutar, para se libertar da miséria.

Já dissemos o que querem os social-democratas; já dissemos quais as causas da penúria e da miséria do povo trabalhador, dissemos contra quem os camponeses pobres têm de lutar e com quem se têm de unir para levar a cabo esta luta.

Agora diremos quais são as melhorias que poderemos conquistar imediatamente com a nossa luta, melhorias na vida dos operários e na vida dos camponeses.

(a seguir)



[1] Estão já muito desactualizados todos estes cálculos, assim como os seguintes, sobre a quantidade de terra, visto que datam dos anos 1877 e 1878. Mas não existem dados mais recentes. O governo russo só pode manter-se na obscuridade, razão pela qual tão raramente se coligem no nosso país dados completos e verídicos sobre a vida do povo em todo o Estado.

[2] Repetimos uma vez mais que os nossos cálculos foram feitos em números redondos, em cifras aproximadas. Pode dar-se o caso dos camponeses ricos não serem exactamente um milhão e meio, mas um milhão e um quarto, um milhão e três quartos, ou inclusivamente dois milhões. A diferença não é muito grande. Não é nosso objectivo calcular cada milhar ou cada centena de milhar, mas sim compreender claramente qual é a força dos camponeses ricos, qual a sua situação, para saber distinguir os inimigos dos amigos, para não nos iludirmos com toda a espécie de histórias e charlatanices, para conhecer com exactidão tanto a situação dos pobres, como também e especialmente, a dos ricos.

Que cada trabalhador rural pense bem no seu distrito e nos distritos vizinhos. Verá que o nosso cálculo é exacto, que, em números aproximados, o mesmo acontece em toda a parte: para cada cem famílias, dez ou até vinte, correspondem aos camponeses ricos; umas vinte, aos camponeses médios; as restantes, aos camponeses pobres.

[3] Na Rússia, esses simplórios que querem o bem do mujique, e que não obstante, por vezes fazem caso destas expressões artificiais, chamam-se «populistas», ou então «partidários da pequena propriedade». Seguem-se os «socialistas revolucionários». Entre os alemães também não há pouca gente melíflua. Um deles, Eduardo David, escreveu há pouco tempo um livro volumoso, no qual afirma que a pequena propriedade é incalculavelmente mais lucrativa do que a grande, pois que o pequeno camponês não faz gastos supérfluos, não possui cavalos para lavrar a terra, e trabalha-a com a mesma vaca que lhe dá o leite.


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