de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Sábado, 29 de Junho de 2013
A situação militar em França

Ontem chamávamos a atenção para o facto de que a seguir à capitulação de Sedan, as perspectivas da França tinham melhorado sensivelmente. A própria que da de Metz que liberta cerca de 150 000 soldados alemães actualmente já não é a fulminante catástrofe que parecia ser a princípio. Se voltamos hoje a abordar esta questão, é para melhor demonstrar através de alguns detalhes de ordem militar a justeza deste ponto de vista.

A deslocação dos exércitos alemães em 24 de Novembro, tanto quanto é possível estabelecê-la, apresentava-se assim:

Investida de Paris: 3.º exército (os 2.º, 5.º, 6.º corpos do exército, o 2.º corpo bávaro, a 21.ª divisão, uma divisão de Wurtemberg e uma divisão da guarda da Landwehr) e 4.º exército (os 4.º e 12.º corpos, mais um corpo da guarda), no total 17 divisões.

Exército de observação cobrindo a investida: ao Norte, primeiro exército (1.º e 8.º corpos); a Oeste e Sudoeste, o exército do duque de Mecklemburgo (17.ª e 22.ª divisões e 1.º corpo bávaro); no Sul o 2.º exército (os 3.º, 9.º e 19.º corpos e uma divisão da Landwehr, uma parte da qual foi cruelmente maltratada por Ricciotti Garibaldi em Châtillon); no total 15 divisões.

Forças com destino especial: no Sueste da França, o 14.º corpo (Werder, composto por duas divisões e meia) e o 15.º corpo; em Metz e em Thionville, 7.º corpo; na linha de comunicação, pelo menos uma divisão e meia da Landwehr; ao todo, 8 divisões pelo menos.

Sobre estas 40 divisões de infantaria, as 17 primeiras estão presentemente diante de Paris. Da imobilidade das 8 últimas divisões pode-se concluir que elas chegam exactamente para a missão que lhes foi confiada. Apenas sobram para as missões militares 15 divisões formando 3 exércitos de observação e não representando com a cavalaria e a artilharia senão uma força global de cerca de 200 000 combatentes no máximo.

Ora, até 9 de novembro, parecia que não existiam obstáculos tão sérios que pudessem impedir esta massa de homens de invadir a maior parte das regiões centrais e mesmo o Sul da França. E se presentemente o exército do Loire nos inspira mais respeito do que, confessamos, anteriormente, isso não é devido apenas ao facto de d’Aurelle se ter mostrado capaz de comandar bem as suas tropas. São sobretudo as medidas enérgicas, tomadas por Moltke contra a marcha antecipada do exército do Loire sobre Paris, que fazem com que este exército apareça sob um aspecto absolutamente diferente. Moltke não só julgou necessário concentrar prestes a agir contra ele, mesmo arriscando-se a levantar de facto o cerco a Paris, uma grande parte das forças mantendo o cerco ao Sul da capital, mas também alterou bruscamente a direcção do movimento dos dois exércitos vindos de Metz, de maneira a aproximá-los mais de Paris e a concentrar todas as tropas alemãs em redor desta cidade. Presentemente soubemos que foram tomadas medidas para cercar de barreiras defensivas o depósito de armamentos. Seja qual for a opinião de algumas pessoas, Moltke vê manifestamente o exército do Loire não como um amontoado de pessoas armadas, mas como um verdadeiro exército sério e temível.

A incerteza que anteriormente reinava em relação ao carácter deste exército era devida em grande parte às comunicações dos correspondentes ingleses presentes em Tours. Não havia manifestamente entre eles nenhum homem de guerra capaz de se aperceber dos traços característicos que distinguem um exército de uma multidão de pessoas armadas. Todos os dias se recebiam as mais contraditórias informações em relação à disciplina, aos progressos da instrução, aos efectivos, ao armamento, ao equipamento, à artilharia, ao transporte, em poucas palavras em relação a todos os dados essenciais susceptíveis de servir de base para se formar uma opinião. Conhecemos todas as enormes dificuldades que foi preciso ultrapassar para formar este novo exército: a falta de oficiais, de armamentos, de cavalos, de material de toda a espécie e sobretudo a falta de tempo. As informações que nos chegavam diziam respeito a maior parte a estas dificuldades e era assim que o exército do Loire era geralmente subestimado pelas pessoas cujas simpatias não ofuscam o julgamento.

Presentemente estes correspondentes são unânimes em elogiar este exército. Eles acham que ele possui melhores oficiais, que está mais bem disciplinado do que aqueles que pereceram em Sedan e em Metz. Sem dúvida, isso é verdade até certo ponto. O moral que anima este exército é manifestamente superior em muito ao que foi constatado nos exércitos bonapartistas. Sente-se a resolução em cumprir o seu dever para com a pátria, em agir de acordo, em se submeter às ordens dadas acerca deste ponto. Em seguida este exército voltou a aprender algumas coisas muito importantes que o exército de Luís Napoleão tinha esquecido por completo: o serviço de guarda, a arte de cobrir os flancos e a retaguarda contra os ataques imprevistos, de operara o reconhecimento do inimigo, de surpreender inesperadamente os seus destacamentos, de obter informações e de fazer prisioneiros. O correspondente do Times junto do duque de Mecklembourg dá provas disto. Presentemente são os prussianos que já não chegam a saber onde se encontra o inimigo e devem agir por cálculo: anteriormente acontecia precisamente o contrário. O exército que aprendeu isto, aprendeu muito. Todavia não devemos esquecer que o exército do Loire, do mesmo modo que os seus irmãos, os exércitos do Norte e do Oeste, deve ainda mostrar a sua bravura numa grande batalha contra um exército igual em número. Mas no fim de contas ele permite ter esperança, e algumas circunstâncias levam a crer que seria menos seriamente afectado por uma grave derrota do que os jovens exércitos colocados neste caso.

É um facto que as ferocidades e as crueldades dos prussianos, em vez de esmagar a resistência do povo, redobraram-na de energia, ao ponto dos próprios prussianos, ao que parece, terem compreendido o seu erro: presentemente já não ouvimos falar de aldeias incendiadas, nem de massacres de camponeses. Mas esta conduta feroz já produziu o seu efeito e a guerrilha toma cada dia uma extensão maior. Quando lemos no Times uma informação sobre o avanço do duque de Mecklembourg em direcção a Le Mans, de onde ressalta que o inimigo não se vê, que nenhum exército regular opõe resistência, que apenas as alas estão expostas aos ataques de cavaleiros e de franco-atiradores, que as informações são deficientes acerca da disposição das tropas francesas e que as tropas prussianas marcham compactas, por meio de grandes destacamentos, recordamo-nos involuntariamente das expedições de Napoleão em Espanha ou das tropas de Bazaine no México. Desde que o espírito da resistência popular desperte, não se vai longe mesmo com exércitos de 200 000 homens quando se trata de ocupar um país inimigo. Eles atingem bem depressa o limite para além do qual os seus destacamentos se tornam mais fracos do que as forças defensivas. É da energia da resistência do povo que depende a rapidez com a qual este limite será atingido. Assim, mesmo um exército batido encontrará rapidamente um seguro refúgio contra a perseguição do inimigo, conquanto a população deste país se levante, o que pode acontecer actualmente em França. E se a população das regiões ocupadas pelo inimigo se levantar ou se apenas as linhas de comunicação do inimigo forem ininterruptamente interceptadas, o limite para além do qual a invasão se torna impotente, então será ainda mais rapidamente atingido. Não nos admiraríamos absolutamente nada, por exemplo, que o duque de Mecklembourg se reconhecesse demasiado avançado, a menos que não receba uma poderosa ajuda do príncipe Frederico Carlos. Actualmente tudo depende, evidentemente, de Paris. Se Paris dispuser ainda de um mês (e as informações acerca do estado das provisões no interior da cidade não excluem de modo nenhum esta possibilidade), a França poderá ainda criar um exército combatente bastante forte para, com a ajuda da resistência popular, fazer levantar o cerco por meio de um ataque vitorioso contra as linhas de comunicação dos prussianos. Aparentemente, o mecanismo da organização do exército funciona bastante bem em França neste momento. Existem mais homens que o necessário; graças aos recursos da indústria contemporânea e à rapidez dos modernos meios de comunicação, os armamentos chegam em quantidades inesperadas; só da América foram recebidas 400 000 espingardas; os materiais de artilharia são fabricados em França com uma rapidez nunca vista até hoje. Encontram-se mesmo oficiais ou formam-se de uma maneira ou de outra. Em suma, o esforço sem precedentes feito pela França a seguir a Sedan para reorganizar a sua defesa nacional, para garantir a vitória não necessita senão de uma coisa – o tempo. Se Pais aguentar ainda, nem que seja um mês, isso contribuirá grandemente para o sucesso. Se, pelo contrário Paris não dispuser de provisões para este período de tempo Trochu poderia tentar penetrara na linha da ofensiva com as forças que se encontrarão apropriadas para esta operação. Ora actualmente seria demasiado ousado afirmar que ele não pudesse triunfar. Em caso de o seu empreendimento ser coroado de sucesso, os alemães necessitariam ainda, para garantir a tranquilidade em Paris, de uma guarnição completa de pelo menos 3 corpos do exército prussiano, se bem que Trochu tivesse libertado um maior número de franceses do que a rendição de Paris alemães. O que os franceses fizeram defendendo Paris, os alemães jamais o poderiam ter feito tomando esta fortaleza e defendendo-a contra sitiantes franceses. Seriam necessários tantos homens para abafar a resistência popular no seio da cidade, quantos para ocupar as muralhas a repelir os ataques do exterior. Por consequência a queda de Paris, pode, mas não deve necessariamente acarretar a derrota da França.

O momento não é nada propício para levantar hipóteses acerca da probabilidade desta ou daquela eventualidade militar. Conhecemos apenas superficialmente um único facto: os efectivos dos exércitos prussianos. Quanto aos efectivos e à capacidade combativa real das tropas francesas não temos a este respeito senão escassas informações. Ainda mais, existem actualmente em acção factores morais que escapam a qualquer cálculo e de que podemos apenas dizer que são todos favoráveis à França e desfavoráveis à Alemanha. Uma coisa parece incontestável: hoje mais do que nunca a seguir à queda de Sedan as forças em luta tendem a equilibrar-se, e um reforço relativamente fraco dos franceses em tropas instruídas poderia assegurar definitivamente este equilíbrio.

Publicado no Pall Mall Gazette, n.º 1806, Sábado, 26 de Novembro de 1870


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