de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Domingo, 6 de Maio de 2007
Que fazer? I - Dogmatismo e "liberdade de crítica"

Prefácio

a) O que significa a "liberdade de crítica"

"Liberdade de crítica" é, sem dúvida alguma, a palavra de ordem mais em voga actualmente, aquela que aparece com mais frequência nas discussões entre socialistas e democratas de todos os países. À primeira vista, nada parece mais estranho do que ver um dos contraditores exigir solenemente a liberdade de crítica. Será que nos partidos avançados alguém se ergueu contra a lei constitucional que, na maioria dos países europeus, garante a liberdade da ciência e da investigação científica? "Há algo escondido" dirá necessariamente qualquer homem imparcial que tenha ouvido essa palavra de ordem em moda, repetida em todos os cantos, e que ainda não tenha apreendido o sentido do desacordo. "Essa palavra de ordem é, evidentemente, uma daquelas pequenas palavras convencionais que, como os apelidos, são consagradas pelo uso e tornam-se quase nomes comuns".

De facto, não constitui mistério para ninguém que, na actual social-democracia internacional[1], se tenham formado duas tendências, cuja luta ora "se anima e se inflama, ora se extingue sob as cinzas de grandiosas resoluções de tréguas". No que consiste a "nova” tendência que "critica" o "velho" marxismo "dogmático"? Disse-o Bernstein e explicou-o Millerand com suficiente clareza: a social-democracia deve transformar-se de partido da revolução social em partido democrático de reformas sociais. 

Bernstein apoiou esta reivindicação política com toda uma bateria de "novos" argumentos e considerações harmoniosamente orquestrados. Foi negada a possibilidade de provar cientificamente o socialismo e de demonstrar, segundo a concepção materialista da história, a sua inevitabilidade; foi negado o facto da miséria crescente, da proletarização e da exacerbação das contradições capitalistas; foi declarado inconsistente o próprio conceito de "objectivo final" e rechaçada em absoluto a ideia da ditadura do proletariado; foi negada a oposição de princípio entre o socialismo e o liberalismo; foi negada a teoria da luta de classes, dizendo-se que não é aplicável a uma sociedade estritamente democrática, governada conforme a vontade da maioria, etc.. Assim, a exigência de uma mudança decisiva – da social-democracia revolucionária para o reformismo social burguês – foi acompanhada de uma reviravolta não menos decisiva em direcção à crítica burguesa de todas as ideias fundamentais do marxismo. E como essa crítica, desde há muito, era dirigida contra o marxismo do alto da tribuna política e da cátedra universitária, numa quantidade de publicações e numa série de tratados científicos; como, há dezenas de anos, era inculcada sistematicamente à jovem geração das classes instruídas, não é de se surpreender que a "nova" tendência "crítica" na social-democracia tenha surgido repentinamente sob a sua forma definitiva, tal como Minerva surgiu na cabeça de Júpiter. No seu conteúdo, essa tendência não teve de se desenvolver e de se formar: foi transplantada directamente da literatura burguesa para a literatura socialista.

 Prossigamos. Se a crítica teórica de Bernstein e as suas ambições políticas permaneciam ainda obscuras para alguns, os franceses tiveram o cuidado de fazer uma demonstração prática do "novo método". Ainda desta vez a França justificou a sua velha reputação de "país em cuja história a luta de classes, mais do que em qualquer outro, foi resolutamente conduzida até o fim" (Engels, trecho do prefácio a "O 18 de Brumário" de Marx). Ao invés de teorizar, os socialistas franceses agiram deliberadamente: as condições políticas em França, mais desenvolvidas no sentido democrático, permitiram-lhes passar imediatamente ao "bernsteinismo prático" com todas as suas consequências. Millerand deu um exemplo brilhante desse bernsteinismo prático; também, com que empenho Bernstein e Volimar se apressaram em defender e louvar Millerand! De facto, se a social-democracia não constitui, no fundo, senão um partido de reformas e deve ter a coragem de reconhecê-lo abertamente, o socialismo não só tem o direito de entrar num ministério burguês, como também deve mesmo aspirar sempre a isso. Se a democracia significa, no fundo, a supressão da dominação de classe, por que é que um ministro socialista não seduziria o mundo burguês com discursos sobre a colaboração das classes? Por que não conservaria ele a sua pasta, mesmo após assassínios de operários por polícias terem demonstrado pela centésima e pela milésima vez o verdadeiro carácter da colaboração democrática das classes? Por que não facilitaria pessoalmente o czar, a quem os socialistas franceses não chamavam senão de knouteur, pendeur et déportateur? E para contrabalançar este interminável aviltamento e auto-flagelação do socialismo perante o mundo inteiro, esta perversão da consciência socialista das massas operárias – única base que nos pode assegurar a vitória –, são-nos oferecidos os projectos grandiloquentes de reformas insignificantes, insignificantes ao ponto de se poder ter obtido mais dos governos burgueses!

Aqueles que não fecham os olhos deliberadamente, não podem deixar de ver que a nova tendência "crítica" no socialismo nada mais é que uma nova variedade do oportunismo. E se tais pessoas forem julgadas, não a partir do brilhante uniforme que vestiram, nem sequer do título pomposo que atribuíram a si próprios, mas a partir da sua maneira de agir e das ideias que realmente divulgam, tornar-se-á claro que "a liberdade de crítica" é a liberdade da tendência oportunista na social-democracia, a liberdade de transformar esta num partido democrático de reformas, a liberdade de implantar no socialismo as ideias burguesas e os elementos burgueses.

A liberdade é uma grande palavra, mas foi sob a bandeira da liberdade da indústria que foram empreendidas as piores guerras de pilhagem e é sob a bandeira da liberdade do trabalho que os trabalhadores são espoliados. A expressão "liberdade de crítica", tal como se emprega hoje, encerra a mesma falsidade. As pessoas verdadeiramente convencidas de terem feito progredir a ciência não reclamariam, para as novas concepções, a liberdade de existirem ao lado das antigas, mas a substituição destas por aquelas. Portanto, os gritos actuais de "Viva a liberdade de crítica!" lembram muito a fábula do tonel vazio.

Em pequeno grupo compacto, seguimos por uma estrada escarpada e difícil, segurando-nos fortemente pela mão uns aos outros. De todos os lados, estamos cercados de inimigos, e é preciso marchar quase constantemente debaixo de fogo. Estamos unidos por uma decisão livremente tomada, precisamente a fim de combater o inimigo e não cair no pântano ao lado, cujos habitantes desde o início nos culpam de termos formado um grupo à parte e preferido o caminho da luta ao caminho da conciliação. Alguns dos nossos gritam: vamos para o pântano! E quando lhes mostramos a vergonha de tal acto, replicam: como vocês são atrasados! Não se envergonham de nos negar a liberdade de convidar-vos a seguir um caminho melhor? Sim, senhores, são livres não somente para nos convidar, mas também de ir para onde bem lhes aprouver, até para o pântano; achamos, inclusive, que o vosso verdadeiro lugar é precisamente no pântano e, na medida das nossas forças, estamos prontos a ajudar-vos a transportar para lá os vossos lares. Porém, nesse caso, larguem-nos a mão, não nos agarrem e não manchem a grande palavra liberdade, porque também nós somos "livres" de ir aonde nos aprouver, livres para combater não só o pântano, como também aqueles que para lá se dirigem!

b) Os novos defensores da "liberdade de crítica"

É esta palavra de ordem ("liberdade de crítica") que o Rabótcheie Dielo (n.º 10), órgão da "União dos Social-Democratas Russos" no estrangeiro, formulou solenemente nesses últimos tempos, não como postulado teórico, mas como reivindicação política em resposta à questão: "É possível a união das organizações social-democratas funcionando no estrangeiro?" – "Para uma união sólida, a liberdade de crítica é indispensável" (p. 36).

Daqui, duas conclusões, bastante precisas, são extraídas: 1.ª o Rabótcheie Dielo assume a defesa da tendência oportunista na social-democracia internacional em geral; 2.ª o Rabótcheie Dielo reclama a liberdade do oportunismo na social-democracia russa. Examinemos estas conclusões.

O que desagrada "acima de tudo" ao Rabótcheie Dielo, é a "tendência que têm o Iskra e a Zaria de prognosticar a ruptura entre a Montanha e a Gironda da social-democracia internacional".[2]

"Falar de uma Montanha e de uma Gironda nos escalões da social-democracia, escreve o editor do Rabótcheie Dielo, B. Kritchévski, parece-nos uma analogia histórica superficial, singular na pena de um marxista: a Montanha e a Gironda não representavam temperamentos ou correntes intelectuais diversas como poderá parecer aos historiadores ideólogos, mas classes ou camadas diversas: de um lado, a média burguesia, de outro, a pequena-burguesia e o proletariado. Ora, no movimento socialista contemporâneo, não existe coligação de interesses entre classes; em todas (ênfase de Kritchévski) as suas variedades, aí compreendidos os bernsteinianos mais declarados, o movimento coloca-se inteiramente no campo dos interesses da classe do proletariado, da luta de classe do proletariado para a sua emancipação política e económica" (p. 32-33).

Afirmação ousada! Ignora B. Kritchévski o facto, há muito observado, de que foi precisamente a grande participação da camada de "académicos", no movimento socialista dos últimos anos, que assegurou a rápida difusão do bernsteinismo? E, ainda mais, em que fundamenta o autor a opinião para afirmar que os "bernsteinianos mais declarados" se colocam, também eles, no campo da luta de classe para a emancipação política e económica do proletariado? Não é possível dizê-lo. Esta defesa resoluta dos bernsteinianos mais declarados não encontra nenhum argumento, nenhuma razão para apoiá-la. Mas, o que de mais "superficial" pode haver do que esta maneira de julgar toda uma tendência, a partir das próprias convicções daqueles que a representam? O que há de mais superficial do que a moral que acompanha esses dois tipos ou caminhos diferentes, e mesmo diametralmente opostos, do desenvolvimento do Partido (p. 34-35 do Rabótcheie Dielo)? Observem que os social-democratas alemães admitem a completa liberdade de crítica; os franceses, ao contrário, não o fazem, e é o seu exemplo que demonstra todo o "mal da intolerância".

Respondemos que é precisamente o exemplo de B. Kritchévski aquele que mostra haver pessoas que, intitulando-se por vezes marxistas, consideram a história exactamente "à maneira de Ilováiski". Para explicar a unidade do partido alemão e a dispersão do partido socialista francês, não há nenhuma necessidade de se buscar as particularidades da história de um ou de outro país, de se fazer comparações entre as condições do semi-absolutismo militar e do parlamentarismo republicano, de se examinar as consequências da Comuna e da lei de excepção contra os socialistas, de se comparar a situação e o desenvolvimento económicos, de se levar em conta o facto de que o "crescimento ímpar da social-democracia alemã" foi acompanhado de uma luta, de vigor sem precedentes na história do socialismo, não somente contra os erros teóricos (Mühlberger, Dühring,[3] os socialistas da cátedra), mas também contra os erros tácticos (Lassalle) etc. etc. Tudo isto é supérfluo! Os franceses discutem entre si, porque são intolerantes; os alemães são unidos, porque são bons rapazes.

E, note-se bem, através dessa incomparável profundidade de pensamento, "recusa-se" um facto que arruína completamente a defesa dos bernsteinianos. Colocam-se estes últimos no campo da luta de classe do proletariado? Tal questão não pode ser definitivamente resolvida, e sem se voltar atrás, senão pela experiência histórica. Por conseguinte, o mais importante aqui é o exemplo da França, o único país onde os bernsteinianos tentaram voar com as suas próprias asas, com a calorosa aprovação dos seus colegas alemães (e em parte, dos oportunistas russos: cf. Rab. Dielo, n.º 2-3, p., 83-84). Alegar a "intransigência" dos franceses, além do valor "histórico" de tal alegação (à maneira de Nozdrev) é simplesmente dissimular, sob palavras amarguradas, factos extremamente desagradáveis.

Aliás, não temos nenhuma intenção de abandonar os alemães a B. Kritchévski e a outros inúmeros defensores da "liberdade de crítica". Se os "bernsteinianos mais declarados" ainda são tolerados no partido alemão, é unicamente na medida em que se submetem à resolução de Hannover, que rejeita deliberadamente as "emendas" de Bernstein, e à de Lübeck, a qual (apesar de toda a diplomacia) contém uma advertência formal dirigida a Bernstein. Do ponto de vista dos interesses do partido alemão, pode-se discutir a oportunidade desta diplomacia e perguntar se, neste caso, um mau acordo vale mais do que uma boa discussão; numa palavra, pode-se discordar sobre este ou aquele meio de rejeitar o bernsteinismo, mas não é possível ignorar o facto de o partido alemão o ter repudiado por duas vezes, portanto, aceitar que o exemplo dos alemães confirma a tese de que "os bernsteinianos mais declarados se colocam no campo da luta de classe do proletariado pela sua emancipação económica e política", significa que não se compreendeu absolutamente nada do que se passa sob o olhar de todos.[4]

E ainda mais. O Rabótcheie Dielo, como já mostrámos, apresenta à social-democracia russa a reivindicação da "liberdade de crítica" e defende o bernsteinismo. Aparentemente, deve ter-se convencido de que os nossos "críticos" e os nossos bernsteinianos eram injustamente maltratados. Mas, quais? Por quem, onde e quando? Porquê injustamente? A esse respeito, o Rabótcheie Dielo cala-se; nem uma só vez menciona um crítico ou um bernsteiniano russo! Só nos resta escolher entre as duas hipóteses possíveis. Ou a parte injustamente ofendida não é mais do que o próprio Rabótcheie Dielo (o que é confirmado pelo facto de os dois artigos do n.º 10 só falarem das ofensas infligidas pela Zaria e pelo Iskra ao Rabótcheie Dielo). Mas, daí, como explicar o estranho facto de o Rabótcheie Dielo, que sempre negou obstinadamente qualquer solidariedade com o bernsteinismo, não ter podido defender-se senão pondo-se a favor dos "bernsteinianos mais declarados" e da liberdade de crítica? Ou, então, foram terceiros os injustamente ofendidos. Neste caso, quais seriam, pois, os motivos para esses terceiros não serem mencionados?

 Assim, vemos que o Rabótcheie Dielo continua a jogar às escondidas, como tem feito (como demonstraremos mais adiante) desde que existe. Ademais, note-se esta primeira aplicação prática da famosa "liberdade de crítica". De facto, esta liberdade reconduziu não só para a ausência de qualquer crítica, mas também para a ausência, em geral, de qualquer julgamento independente. O mesmo Rabótcheie Dielo que oculta, como uma doença secreta (segundo a feliz expressão de Satrover), a existência de um bernsteinismo russo, propõe para curar essa doença copiar pura e simplesmente a última receita alemã para o tratamento da forma alemã de tal doença! Ao invés de liberdade de crítica, imitação servil... pior ainda: simiesca! As manifestações do actual oportunismo internacional, em toda a parte idêntico no seu conteúdo social e político, variam segundo as particularidades nacionais. Num país, os oportunistas há muito que se agrupam sob uma bandeira distinta; noutro, desdenhando a teoria, seguem praticamente a política dos socialistas radicais; num terceiro, alguns membros do partido revolucionário, que se passaram para o campo do oportunismo, desejam atingir os seus fins, não através de luta aberta por princípios e tácticas novas, mas através de corrupção gradual, imperceptível e, se é que se pode dizer, não passível de punição pelo seu partido; enfim, noutro lugar, esses desertores empregam os mesmos procedimentos nas trevas da escravatura política, onde a relação entre a actividade "legal" e a actividade "ilegal" etc., é completamente original. Fazer da liberdade de crítica e da liberdade do bernsteinismo a condição da união dos social-democratas russos, sem uma análise das manifestações concretas e dos resultados particulares do bernsteinismo russo, é falar sem nada dizer.

Portanto, tentemos nós próprios dizer, ao menos em poucas palavras, o que não quis dizer (ou talvez não tenha sabido compreender) o Rabótcheie Dielo.

c) A crítica na Rússia

No que concerne à nossa análise, a particularidade essencial da Rússia consiste em que o próprio começo do movimento operário espontâneo, por um lado, e a evolução da opinião pública avançada em direcção ao marxismo, por outro, foram marcados pela combinação de elementos notoriamente heterogéneos sob uma mesma bandeira na luta contra o inimigo comum (contra uma filosofia política e social obsoletas). Referimo-nos à lua-de-mel do "marxismo legal", um fenómeno de extrema originalidade, em cuja possibilidade ninguém teria acreditado na década de 1880 ou no início da década de 1890. Num país autocrático, onde a imprensa é completamente subjugada, numa época de terrível reacção política que reprimia as menores manifestações de descontentamento e de protesto político, a teoria do marxismo revolucionário abre repentinamente caminho numa literatura submissa à censura, e esta teoria foi exposta na linguagem de Esopo, mas compreensível a todos "aqueles que se interessavam". O governo tinha-se habituado a não considerar como perigosa senão a teoria da "Norodnaia Volia" (revolucionária); e não notava, como é normal, a evolução interna regozijando-se com qualquer crítica dirigida contra ela. Antes do governo se aperceber, antes do pesado exército de censores e polícias descobrir o novo inimigo e atirar-se sobre ele, muito tempo se passou (muito tempo para nós, russos). Ora, durante esse tempo, as obras marxistas foram editadas sucessivamente, foram fundados jornais e revistas marxistas; literalmente todo o mundo se tornou marxista; os marxistas eram elogiados, adulados, os editores estavam entusiasmados com a venda extremamente rápida das obras marxistas. É compreensível que entre os marxistas principiantes, mergulhados na embriaguez do sucesso, tenha havido mais do que um "escritor envaidecido"...

Hoje, pode-se falar desse período tranquilamente, como se fala do passado. Ninguém ignora que a efémera emergência do marxismo à superfície da nossa literatura provém da aliança com elementos bastante moderados. No fundo, estes últimos eram democratas burgueses, e esta conclusão (evidenciada pela sua evolução "crítica" ulterior) já se impunha a alguns de nós na época em que a "aliança" ainda estava intacta.[5]

Mas, assim sendo, a quem pertence a maior responsabilidade pelo "problema" ulterior, senão aos social-democratas revolucionários que concluíram esta aliança com os futuros "críticos"? Esta é a questão, seguida de uma resposta afirmativa, que se ouve, por vezes, das pessoas que vêem as coisas de maneira demasiado linear. Tais pessoas, porém, não têm razão alguma. Só podem temer as alianças temporárias, mesmo com elementos inseguros, os que não possuem confiança em si próprios. Nenhum partido político poderia existir sem essas alianças. Ora, a união com os marxistas legais foi, de qualquer modo, a primeira aliança política verdadeira realizada pela social-democracia russa. Esta aliança permitiu alcançar uma vitória surpreendentemente rápida sobre o populismo, e assegurou a prodigiosa difusão das ideias marxistas (é verdade que vulgarizadas). Além disso, esta aliança não foi concluída completamente sem "condições". Testemunha-o a compilação marxista, "Documentos Sobre o Desenvolvimento Económico da Rússia", queimada em 1895 pela censura. Se se pode comparar o acordo literário com os marxistas legais a uma aliança política, pode-se comparar tal obra a um contrato político.

Evidentemente, a ruptura não se deve ao facto de os "aliados" se terem declarado de­mocratas burgueses. Ao contrário, os representantes dessa última tendência consti­tuem, para a social-democracia, aliados naturais e desejáveis, sempre que se trate de tarefas democráticas que a situação actual da Rússia coloca em primeiro plano. Mas, a condição necessária para tal aliança, é que os socialistas tenham a plena possibilidade de revelar à classe operária a oposição hostil entre os seus interesses e os da burgue­sia. Ora, o bernsteinismo e a tendência "crítica" a que aderiram, no geral, os marxistas legais na sua maioria, removiam essa possibilidade e pervertiam a consciência socia­lista, aviltando o marxismo, pregando a teoria da atenuação dos antagonismos sociais, proclamando absurdas as ideias da revolução social e da ditadura do proletariado, recondu­zindo o movimento operário e a luta de classes a um sindicalismo estreito e à luta "realista" por reformas pequenas e graduais. Isso equivalia perfeitamente à nega­ção, para a democracia burguesa, do direito do socialismo à independência e, por conse­guinte, do seu direito à existência; e, na prática, tendia a transformar o movi­mento operário, então nos seus primórdios, em apêndice do movimento liberal.

É evidente que, nessas condições, impunha-se a ruptura. Porém, pela particularidade original da Rússia, essa ruptura, de novidade, apenas consistiu em simplesmente eliminar os social-democratas da literatura "legal", a mais acessível ao público e a mais amplamente difundida. Os "ex-marxistas", que se agruparam "sob o signo da crítica" e obtiveram quase o monopólio da "execução" do marxismo, aí se entrincheiraram. Os slogans, "contra a ortodoxia" e "viva a liberdade de crítica" (retomados agora pelo Rabótcheie Dielo) tornaram-se imediatamente palavras em moda. Nem mesmo os censores e a polícia puderam resistir a essa moda, como o mostram as três edições russas do livro famoso (famoso à maneira de Heróstrato) de Bernstein, ou a recomendação de Zoubatov das obras de Bernstein, de M. Prokopovitch etc. (Iskra n.º 10). Aos social-democratas impunha-se, então, a tarefa já em si difícil, e ainda mais incrivelmente dificultada pelos obstáculos puramente exteriores, de combater a nova corrente. Ora, tal corrente não se limitava à literatura. A evolução em direcção à "crítica" encontrou-se com o entusiasmo dos social-democratas práticos pelo "economismo".

O nascimento e o desenvolvimento da ligação e da dependência recíproca, entre a crítica legal e o "economismo" ilegal, constituem questão interessante, que poderia servir de objecto a um artigo especial. Aqui, basta-nos assinalar a existência incontestável dessa ligação. O famoso Credo adquiriu tão merecida celebridade por ter formulado abertamente essa ligação, e divulgado incidentalmente a tendência política fundamental do "economismo": para os operários, a luta económica (ou, mais exactamente, a luta sindical, que abrange também a política especificamente operária); para os intelectuais marxistas, a fusão com os liberais para a "luta" política. A actividade sindical "no povo" foi a realização da primeira metade da tarefa; a crítica legal, da segunda. Essa declaração era uma arma tão preciosa contra o "economismo" que se o Credo não tivesse existido, teria sido necessário inventá-lo.

O Credo não foi inventado, mas publicado sem o consentimento e talvez mesmo contra a vontade dos seus autores. Em todo o caso, o autor destas linhas, que contribuiu para trazer à luz o novo "programa"[6], teve ocasião de ouvir lamentações e censuras pelo facto de o resumo dos pontos de vista dos oradores, por eles esboçado, ter sido divulgado em cópias, rotulado com o nome de Credo, e mesmo publicado na imprensa com o protesto! Se recordamos esse episódio, é porque ele revela um traço muito curioso de nosso "economismo": o temor à publicidade. Este é um traço do "economismo" em geral, e não somente dos autores do Credo: manifesta-se na Rabótchaia Mysl o mais franco e honesto adepto do "economismo", e no Rabótcheie Dielo (que se ergueu contra a publicação de documentos "economistas" no vade mecum, e no Comité de Kiev, há cerca de dois anos, não querendo autorizar que se publicasse a sua Profession de Foi[7] ao lado da sua refutação[8]; e manifesta-se, também em muitos outros representantes do "economismo".

Esse temor da crítica que demonstram os adeptos da liberdade de crítica, não poderia ser explicado unicamente pela astúcia (ainda que a astúcia, por vezes, desempenhe o seu papel: não é vantajoso expor ao ataque do adversário as tentativas ainda frágeis de uma nova tendência!). Não, a maioria dos "economistas" com uma sinceridade absoluta, vê (e pela própria essência do "economismo" tem de fazê-lo) sem benevolência todas as discussões teóricas, divergências de facção, grandes problemas políticos, projectos de organização dos revolucionários etc.. "Seria melhor deixar tudo isto aos estrangeiros" disse-me um dia um dos "economistas" bastante consequente, exprimindo, assim, esta opinião extremamente difundida (puramente sindical, mais uma vez), de que a nossa incumbência é o movimento operário, as organizações operárias internas do nosso país, e que tudo o resto é invenção dos doutrinários, uma "sobrestimação da ideologia", segundo a expressão dos autores da carta publicada no número 12 do Iskra, em uníssono com o número 10 do Rabótcheie Dielo.

Agora, a questão que se coloca é: dadas essas particularidades da "crítica" e do bernsteinismo russos, qual devia ser a tarefa daqueles que, realmente e não apenas em palavras, desejam ser adversários do oportunismo? Em primeiro lugar, era necessário retomar o trabalho teórico que, apenas começado à época do marxismo legal, voltara então a recair sobre os militantes ilegais: sem esse trabalho, o crescimento normal do movimento seria impossível. Em seguida, era necessário empreender uma luta activa contra a "crítica" legal que corrompia profundamente os espíritos. Enfim, era preciso combater vigorosamente a dispersão e as flutuações do movimento prático, denunciando e refutando toda a tentativa de rebaixar, consciente ou inconscientemente, o nosso programa e a nossa táctica.

Sabe-se que o Rabótcheie Dielo não cumpriu nenhuma dessas tarefas e, mais adiante, analisaremos detalhadamente essa verdade bem conhecida, sob os mais diversos ângulos. No movimento, desejamos simplesmente mostrar a contradição flagrante que existe entre a reivindicação da "liberdade de crítica" e as particularidades da nossa crítica nacional e o "economismo" russo. Olhem a resolução pela qual a "União dos Social-Democratas Russos no Estrangeiro" confirmou o ponto de vista do Rabótcheie Dielo:

"No interesse do desenvolvimento ideológico ulterior da social-democracia, reconhecemos que a liberdade de criticar a teoria social-democrata é absolutamente necessária na literatura do partido, na medida em que esta crítica não contradiga o carácter de classe e o carácter revolucionário desta teoria." (Dois Congressos, p. 10).

E os motivos que se apresentam são: a resolução "na sua primeira parte, coincide com a resolução do congresso do Partido em Lübeck", "a propósito de Bernstein"... Na sua simplicidade, "os (membros) da União" nem sequer notam o testimonium paupertatis (certificado de indigência) que passam a si próprios!... "mas..., na sua segunda parte, restringe a liberdade de crítica de forma mais estrita do que no congresso de Lübeck".

Assim, a resolução da "União" será dirigida contra os bernsteinianos russos? Se não, seria completamente absurdo referir-se a Lübeck!. Mas, é falso que restrinja "de forma mais estrita a liberdade de crítica". Pela sua resolução de Hannover, os alemães rejeitaram, ponto por ponto, exactamente as emendas de Bernstein, e na resolução de Lübeck, endereçaram uma advertência pessoal a Bernstein ao mencioná-lo na resolu­ção. Entretanto, nossos imitadores "livres" não fazem a menor alusão a uma única das manifestações da "crítica" e do "economismo" especificamente russos. Dada esta reticên­cia, a alusão pura e simples ao carácter de classe e ao carácter revolucionário da teoria deixa muito mais margem a falsas interpretações, sobretudo se a "União" se recusa a classificar de oportunista a "tendência dita economista" (Dois Congressos, p. 8 § 1). Mas, dizemos isto de passagem. O importante é que as posições dos oportunis­tas, em relação aos social-democratas revolucionários, são diametralmente opostas na Alemanha e na Rússia. Na Alemanha, os social-democratas revolucionários, como se sabe, são favoráveis à manutenção do que existe: ao antigo programa e à antiga tác­tica conhecidos de todos e explicados em todos os seus detalhes pela experiência de dezenas e dezenas de anos. Ora, os "críticos" desejam fazer modificações mas estão em ínfima minoria e as suas tendências revisionistas são demasiado tímidas, compre­ende-se os motivos pelos quais a maioria se limita a rejeitar friamente a sua "inovação". Na Rússia, ao contrário, críticos e "economistas" são favoráveis à manutenção do que existe: os "críticos" desejam que se continue a considerá-los marxistas e que se lhes asse­gure a "liberdade de crítica", da qual beneficiam sob todos os aspectos (pois, no fundo, nunca reconheceram qualquer coesão dentro do Partido[9]; além disso, não temos tido um órgão do Partido universalmente reconhecido e capaz de "limitar" a liberdade de crítica, nem sequer por aconselhamento); os "economistas" desejam que os revolucioná­rios reconheçam "os plenos direitos do movimento no momento actual" (Rab. Dielo n.º 10, p. 25), isto é, a "legitimidade" da existência do que existe; que os "ideólo­gos não procurem desviar o movimento do caminho "determinado pela interac­ção recíproca dos elementos materiais e do meio material" ("carta" do número 12 do Iskra); que se reconheça como desejável a luta, "a mesma luta que os operários podem conduzir nas circunstâncias actuais", e como possível aquela "que eles conduzem, na realidade, no momento presente" ("Suplemento especial da Rabótchaia Mysl", p. 14). Porém, para nós, social-democratas revolucionários, este culto do espontâneo, isto é, do que existe "no momento presente", não nos diz nada. Exigimos que seja modificada a táctica que tem prevalecido nestes últimos anos; declaramos que "antes de nos unir­mos, e para nos unirmos, devemos começar por nos demarcar nítida e resolutamente" (anúncio da publicação do Iskra). Numa palavra, os alemães aceitam o estado actual das coisas e rejeitam as modificações; quanto a nós, rejeitando a submissão e a resigna­ção ao estado actual das coisas, exigimos a modificação.

É esta a "pequena" diferença que os nossos "livres" copiadores das resoluções alemãs não notaram!

d) Engels e a importância da luta teórica

"O dogmatismo, o doutrinarismo", “a fossilização do Partido, castigo inevitável do estrangulamento forçado do pensamento", tais são os inimigos contra os quais entram na arena os campeões da "liberdade de crítica" do Rabótcheie Dielo. Apreciamos que esta questão tenha sido colocada na ordem do dia; apenas proporíamos completá-la com esta outra questão:

Mas, quem são os juízes?

Temos diante de nós dois prospectos em edições literárias. O primeiro é o "programa do Rabótcheie Dielo, órgão periódico da 'União dos Social-Democratas Russos'" (separata do número 1 do Rab. Dielo). O segundo é o "anúncio da retomada das edições do grupo 'Libertação do Trabalho'". Os dois são datados de 1899, época em que a "crise do marxismo" estava, há muito, na ordem do dia. Em vão procurámos, na primeira obra, indicações sobre esta questão e uma exposição precisa da posição que pensa tomar, a esse respeito, esse novo órgão. Quanto ao trabalho teórico e às tarefas essenciais para a hora presente, nem nesse programa nem nos complementos adoptados pelo Terceiro Congresso da "União" (em 1901) é feita menção (Dois Congressos, p. 15-18). Durante todo esse tempo, a redacção do Rabótcheie Dielo deixou de lado as questões de teoria, apesar de estas preocuparem os social-democratas do mundo inteiro.

O outro prospecto, ao contrário, assinala logo de início o descuro do interesse pela teoria, no decurso desses últimos anos; reclama, insistentemente, "uma atenção vigilante para o aspecto teórico do movimento revolucionário do proletariado", e exorta a uma "crítica implacável das tendências anti-revolucionárias, bernsteinianas, e outras", no nosso movimento. Os números publicados da Zaria mostram como este programa foi aplicado.

Vê-se assim, portanto, que as grandes frases contra a fossilização do pensamento etc. dissimulam o desinteresse e a impotência para fazer progredir o pensamento teórico. O exemplo dos social-democratas russos ilustra, de uma forma particularmente notável, esse fenómeno comum à Europa (e de há muito assinalado pelos marxistas alemães), de que a famosa liberdade de crítica significa a substituição de uma teoria por outra, não a liberdade a respeito do sistema coerente e reflectida; significa o eclectismo e a ausência de princípios. Quem conhece, por pouco que seja, a situação real do nosso movimento não pode deixar de ver que a grande difusão do marxismo foi acompanhada de um certo abaixamento do nível teórico. Muitas pessoas, cuja preparação era ínfima ou nula, aderiram ao movimento pelos seus sucessos práticos e importância efectiva. Pode-se ajuizar da falta de tacto demonstrada pelo Rabótcheie Dielo pela forma como lançou, de forma triunfante, a fórmula de Marx: "Cada passo em frente, cada progresso real valem mais que uma dúzia de programas". Repetir tais palavras nessa época de dissensão teórica equivale a dizer à vista de um cortejo fúnebre: "Tomara que tenham sempre algo para levar!" Além disso, essas palavras são extraídas da carta sobre o programa de Gotha, na qual Marx condena categoricamente o eclectismo no enunciado dos princípios. Se a união é verdadeiramente necessária, escrevia Marx aos dirigentes do partido, façam acordos para realizar os objectivos práticos do movimento, mas não cheguem, ao ponto de fazer comércio dos princípios, nem façam "concessões" teóricas. Tal era o pensamento de Marx, e eis que há entre nós pessoas que, em seu nome, procuram diminuir a importância da teoria! Sem teoria revolucionária, não há movimento revolucionário. Não seria demasiado insistir sobre essa ideia numa época, onde o entusiasmo pelas formas mais limitadas da acção prática aparece acompanhado pela propaganda em voga do oportunismo. Para a social-democracia russa em particular, a teoria assume importância ainda maior por três razões esquecidas com muita frequência, a saber: primeiro, o nosso partido apenas agora começou a constituir-se, a elaborar a sua fisionomia, e está longe de ter acabado com as outras tendências do pensamento revolucionário que ameaçam desviar o movimento do caminho certo. Ao contrário, assistimos justamente nestes últimos tempos (como Axelrod já há muito havia predito aos "economistas") ao recrudescimento das tendências revolucionárias não social-democratas. Nessas condições, um erro "sem importância" à primeira vista pode acarretar as mais deploráveis consequências, e é preciso ser míope para considerar inoportunas ou supérfluas as controvérsias de facção e a estrita delimitação dos matizes. Da consolidação deste ou daquele matiz pode depender o futuro da social-democracia russa por muitos e longos anos.

Segundo, o movimento social-democrata é, pela sua própria essência, internacional. Isso não significa somente que devemos combater o chauvinismo nacional. Significa, também que um movimento iniciado num país jovem só pode ter êxito se assimilar a experiência dos outros países. Ora, para tanto não é suficiente apenas conhecer essa experiência, ou limitar-se a copiar as últimas resoluções. É preciso saber proceder à análise crítica dessa experiência e controlá-la por si próprio. Somente quando se constata o quanto se desenvolveu e se ramificou o movimento operário contemporâneo, pode compreender-se a reserva de forças teóricas e de experiência política (e revolucionária) necessária para se realizar essa tarefa.

 Terceiro, a social-democracia russa tem tarefas nacionais como nenhum outro partido socialista do mundo jamais teve. Mais adiante, falaremos das obrigações políticas e da organização que nos impõe essa tarefa: libertar todo um povo do jugo da autocracia. No momento, apenas indicaremos que só um partido guiado por uma teoria de vanguarda é capaz de preencher o papel de combatente de vanguarda. E para se fazer uma ideia mais concreta do que isso significa, lembre-se o leitor dos predecessores da social-democracia russa, tais como Herzen, Bielínski, Tchernichévski e a brilhante plêiade de revolucionários de 1870-1880; pense na importância mundial de que a literatura russa actualmente se reveste; e, basta!

Citaremos as observações, feitas por Engels em 1874, sobre a importância da teoria no movimento social-democrata. Engels reconhecia na grande luta da social-democracia não apenas duas formas (política e económica) – como se faz entre nós – mas três, colocando a luta teórica no mesmo plano. As suas recomendações ao movimento operário alemão, já vigoroso, prática e politicamente, são tão instrutivas do ponto de vista dos problemas e discussões actuais, que o leitor, esperamo-lo, não se importará que transcrevamos o longo trecho do prefácio ao livro "Der deutsche Bauernkrieg"[10], que há muito já se tornou uma raridade bibliográfica:

"Os operários alemães apresentam duas vantagens essenciais sobre os demais operários da Europa. Primeiramente pertencem ao povo mais teórico da Europa; além disso, conservaram o senso teórico já quase completamente desaparecido nas classes, por assim dizer, "cultivadas" da Alemanha. Sem a filosofia alemã que o precedeu, notadamente a de Hegel, o socialismo alemão – o único socialismo científico que já existiu – não teria sido estabelecido. Sem o sentido teórico dos operários, estes não teriam jamais assimilado esse socialismo científico, como o fizeram. E o que prova esta imensa vantagem é, de um lado, a indiferença com respeito a toda teoria, uma das causas principais do pouco progresso do movimento operário inglês, apesar da excelente organização dos diferentes ofícios, e, de outro lado, a perturbação e a confusão provocadas pelo proudhonismo, na sua forma inicial, entre os franceses e os belgas, e, na forma caricaturada, que lhe deu Bakunin, entre os espanhóis e os italianos.

A segunda vantagem é que os alemães integraram tardiamente o movimento operário, tendo sido quase os últimos. Do mesmo modo que o socialismo alemão jamais se esquecerá de que foi erigido sobre os ombros de Saint-Simon, de Fourier, de Owen, três homens que, apesar de toda a fantasia e a utopia de suas doutrinas, se encontram entre os maiores cérebros de todos os tempos e se anteciparam genialmente a inumeráveis ideias, cuja exactidão presentemente demonstramos de maneira científica, também o movimento operário prático alemão jamais deve esquecer-se que se desenvolveu sobre os ombros dos movimentos inglês e francês, que pôde beneficiar das experiências adquiridas penosamente por esses movimentos e evitar, no presente, os erros, na maioria inevitáveis, na época em que foram cometidos. Sem o passado dos sindicatos ingleses e das lutas políticas dos franceses, sem o impulso gigantesco dado especialmente pela Comuna de Paris, onde estaríamos nós, hoje?

É preciso reconhecer que os operários alemães souberam aproveitar as vantagens da sua situação com rara inteligência. Pela primeira vez, desde que existe um movimento operário, a luta é conduzida nas suas três direcções – teórica, política e económico-prática (resistência contra os capitalistas) – com tanto método e coesão. É neste ataque concêntrico, por assim dizer, que reside a força invencível do movimento alemão.

Por um lado, na sequência da sua posição vantajosa; por outro, na decorrência das particularidades insulares do movimento inglês e da violenta repressão do movimento francês, os operários alemães, no momento, colocam-se na vanguarda da luta proletária. Não é possível prever durante quanto tempo os acontecimentos, lhes permitirão ocupar esse posto de honra. Mas, enquanto o ocuparem, é de se esperar que cumprirão o seu dever, como convém. Para tanto, deverão redobrar os esforços, em todos os domínios da luta e da agitação. Os dirigentes, em particular, deverão instruir-se cada vez mais sobre todas as questões teóricas, libertar-se cada vez mais da influência das frases tradicionais, pertencentes às concepções obsoletas do mundo, e jamais se esquecer que o socialismo, desde que se tornou uma ciência, exige ser tratado, isto é, estudado, como uma ciência. A tarefa consistirá, a seguir, em difundir com um zelo cada vez maior entre as classes operárias, as concepções sempre mais claras, assim adquiridas, e em consolidar de forma cada vez mais poderosa a organização do partido e dos sindicatos...

... Se os operários alemães continuarem a agir assim, não digo que marcharão à frente do movimento – não é de interesse do movimento que os operários de uma única nação, em particular, marchem à frente –, mas ocuparão um lugar de honra na linha de combate; e estarão armados e prontos se provas, difíceis e inesperadas, ou ainda grandes acontecimentos exigirem deles maior coragem, decisão e acção".

As palavras de Engels revelaram-se proféticas. Alguns anos mais tarde, os operários alemães foram inesperadamente submetidos à dura provação da lei de excepção contra os socialistas. E os operários alemães encontram-se de facto suficientemente preparados para sair vitoriosos.

O proletariado russo terá de sofrer provas ainda infinitamente mais duras, terá de combater um monstro perto do qual o monstro da lei de excepção num país constitucional parece um pigmeu. A história atribui-nos, agora, uma tarefa imediata, a mais revolucionária de todas as tarefas imediatas do proletariado de qualquer país. A realização dessa tarefa, a destruição do baluarte mais poderoso, não só da reacção europeia, mas também (podemos agora dizê-lo) da reacção asiática, fará do proletariado russo a vanguarda do proletariado revolucionário internacional. E temos o direito de esperar que obteremos este título honorário, merecido já pelos nossos predecessores, os revolucionários de 1870-1880, se soubermos animar, com o mesmo espírito de decisão e a mesma energia irredutível, o nosso movimento mil vezes mais amplo e mais profundo.



[1] Incidentalmente, na história do socialismo moderno é um fenómeno, talvez único, mas muito consolador: pela primeira vez uma luta entre várias tendências dentro do movimento socialista ultrapassa o quadro nacional tornando-se internacional. Até recentemente, as disputas entre lassallianos e Eisenachers, entre Guesdists e possibilistas, entre fabianos e social-democratas, e entre narodovoltsy e social-democratas, permaneceram confinadas dentro de estruturas puramente nacionais, reflectindo características puramente nacionais, e procedendo assim em diferentes planos. No presente momento (como é agora evidente), os fabianos ingleses, os ministeriáveis franceses, os bernsteinianos alemães, e os críticos russos – todos pertencendo à mesma família, todos exaltando-se uns aos outros, aprendendo uns com os outros e, juntos, pegando em armas contra o marxismo "dogmático". Será que nesta primeira batalha realmente internacional com o oportunismo socialista, a social-democracia revolucionária internacional se vai tornar suficientemente forte para pôr fim à reacção política que grassa na Europa por um longo tempo? – Lenine.
[2] A comparação entre as duas tendências do proletariado revolucionário (a tendência revolucionária e a tendência oportunista) e as duas tendências da burguesia revolucionária do século XVIII (a tendência jacobina – a "Montanha" – e a tendência girondina) foi feita no editorial do n.º 2 do Iskra (Fevereiro de 1901). Plekhanov é o autor desse artigo. Falar do "jacobinismo" na social-democracia russa é ainda hoje o tema favorito dos "cadetes", dos "bezzaglavtsy" e dos mencheviques. Mas a forma como Plekhanov utilizou, pela primeira vez, essa noção contra a ala direita da social-democracia prefere-se, hoje em dia, esquecê-la ou silenciá-la. – Lenine
[3] Quando Engels atacou Dühring, para quem se inclinavam muitos representantes da social-democracia alemã, as acusações de violência, de intolerância, de falta de camaradagem na polémica ergueram-se contra ele, até mesmo em público, no congresso do partido. Most e os seus apoiantes propuseram, no congresso de 1877, não publicar mais no Vorwärts os artigos de Engels por "não apresentarem interesse para a esmagadora maioria dos leitores"; Vahlteich declarou que a inclusão desses artigos prejudicara muito o Partido, que Dühring também prestara serviços à social-democracia: "Devemos utilizar todos no interesse do Partido, mas se os professores discutem, o Vowärts não é arena para tais disputas". (Vorwärts n.º. 65, 6 de Junho de 1877). Aqui temos mais um exemplo de defesa da "liberdade de crítica", e os nossos críticos legais e oportunistas ilegais, que tanto gostam de citar o exemplo dos alemães exemplo, fariam bem em reflectir sobre isto! - Lenine
[4] É preciso notar que, sobre a questão do bernsteinismo no Partido alemão, o Rabótcheie Dielo sempre se contentou em relatar pura e simplesmente os factos, "abstendo-se" totalmente de expressar uma opinião própria. Ver, por exemplo, o n.º 2-3, p. 66, sobre o congresso de Estugarda: todas as divergências são reduzidas a "tácticas" e apenas se constata que a grande maioria permanece fiel à táctica revolucionária anterior. Ou o n.º 4-5, p. 25 e seguintes, onde não temos nada senão a transcrição dos discursos no congresso de Hanôver, com uma reedição da resolução de Bebel. Uma exposição e uma crítica dos pontos de vista de Bernstein são novamente remetidas para um "artigo especial". O curioso é que na página 33 do n.º 4-5, se lê: "... As acepções expostas por Bebel contam com o apoio da grande maioria do congresso", e um pouco mais adiante: "... David defendia as concepções de Bernstein... Em primeiro lugar, procurou mostrar que... Bernstein e os seus amigos colocavam-se, apesar de tudo (sic) no campo da luta de classes"... Isto foi escrito em Dezembro de 1899, e, em Setembro de 1901,o Rabótcheie Dielo, aparentemente já não acreditando que Bebel estava certo, retoma o ponto de vista de David como o seu próprio! – Lenine
[5] Alusão ao artigo de K. Touline contra Struve, artigo redigido com base num ensaio intitulado: Influência do Marxismo Sobre a Literatura Burguesa.
[6] Trata-se do Protesto dos 17 contra o Credo. O autor participou da redacção desse protesto (fins de 1899). O protesto e o Credo foram impressos no exterior, na Primavera de 1900. Sabe-se, agora, por um artigo da Senhora Kuskova (publicado na Byloie, creio eu) que foi ela a autora do Credo e que o Sr. Prokopovich era muito proeminente entre os “economistas” no exterior na época. – Lenine
[7] Profissão de Fé. – Lenine
[8] Pelo que sabemos, a composição do Comité de Kiev foi modificada posteriormente. – Lenine
[9] Esta ausência de coesão pública e de tradições de partido constitui, por si só, uma diferença fundamental entre a Rússia e a Alemanha, que deveria ter posto qualquer socialista de espírito sensato em guarda contra qualquer imitação cega. Aqui está uma amostra daquilo a que chegou a "liberdade de crítica" na Rússia. O crítico russo, M. Bulgákov, faz esta repreensão ao crítico austríaco, Hertz: "Apesar da independência das suas conclusões, Hertz, quanto a esse ponto [a cooperação], permanece aparentemente bastante ligado à opinião do seu partido e, embora em desacordo quanto aos detalhes, não se revolve a abandonar o princípio geral" (0 Capitalismo e a Agricultura. t. II, p. 287). Um súbdito de um Estado politicamente escravizado, no qual 999/1000 da população estão corrompidos até a medula pelo servilismo político e não têm qualquer ideia sobre a honra e a coesão do partido, repreende altivamente um cidadão de um Estado constitucional, por estar demasiado "ligado à opinião do partido"! Nada mais resta às nossas organizações ilegais do que pôr-se a redigir resoluções sobre a liberdade de crítica... . – Lenine
[10] Dritter abdruck, Leipzig, 1875, Verlag der Genossenschaftsbuchdruckerei. (A guerra dos camponeses na Alemanha, Terceira impressão, Cooperativa de Editores, Leipzig, 1875) – Lenine

 

II Parte


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