de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Terça-feira, 11 de Setembro de 2007
Que fazer? III-2- Política sindical e política social-democrata

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III Parte - 1

e) A classe operária como combatente de vanguarda pela democracia

Vimos que a agitação política mais ampla e, por conseguinte, a organização de grandes campanhas de denúncia política constituem uma tarefa absolutamente necessária, a tarefa mais imperiosamente necessária à actividade, se esta actividade for verdadeiramente social-democrata. Mas, chegámos a esta conclusão partindo unicamente da necessidade mais premente da classe operária, a necessidade de conhecimentos políticos e de educação política. Ora, esta forma de colocar a questão, em si mesma, é demasiado restrita, pois não tem em conta as tarefas democráticas de toda a social-democracia em geral, e da social-democracia russa actual em particular. Para esclarecer esta tese, da maneira mais concreta que é possível, tentaremos abordar a questão do ponto de vista mais "familiar" aos "economistas", do ponto de vista prático. Todos estamos de acordo que é preciso desenvolver a consciência política da classe operária. A questão está em saber como fazê-lo e o que é preciso para isso. A luta económica "incita" os operários "a pensar" unicamente na atitude do governo em relação à classe operária, por isso, quaisquer que sejam os esforços que façamos para "conferir à própria luta económica um carácter político", jamais poderemos, dentro desse objectivo, desenvolver a consciência política dos operários (até ao nível da consciência política social-democrata), pois, os próprios limites desse objectivo são demasiado estreitos. A fórmula de Martynov é-nos preciosa, não como ilustração do talento confuso do seu autor, mas porque traduz de forma relevante o erro capital de todos os "economistas", a saber: a convicção de que se pode desenvolver a consciência política de classe dos operários, por assim dizer, a partir do interior da sua luta económica, isto é, partindo unicamente (ou, pelo menos, principalmente) dessa luta, baseando-se unicamente (ou, pelo menos, principalmente) nessa luta. Essa perspectiva é radicalmente falsa, justamente porque os "economistas", extenuados pela nossa polémica contra eles, não querem reflectir seriamente sobre a origem das nossas divergências, e sobre o que resultou disso: literalmente não nos compreendemos, e falamos línguas diferentes.

A consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior, isto é, do exterior da luta económica, do exterior da esfera das relações entre operários e patrões. O único domínio de onde se poderá extrair esses conhecimentos é o das relações de todas as classes e categorias da população com o Estado e o governo, o domínio das relações de todas as classes entre si. Por isso, à questão: que fazer para levar aos operários conhecimentos políticos? – não se pode simplesmente dar a resposta com a qual se contentam, na maioria dos casos, os práticos, sem falar daqueles de entre eles que se inclinam para o "economismo", ou seja, não se pode simplesmente responder  "ir até aos operários". Para levar aos operários os conhecimentos políticos, os sociais-democratas devem ir a todas as classes da população, devem enviar em todas as direcções os destacamentos do seu exército.

Se escolhemos esta fórmula rude, se a nossa linguagem é cortante, deliberadamente simplificada, não é absolutamente pelo prazer de enunciar paradoxos, mas para "incitar" os "economistas" a pensar nas tarefas que desdenham de maneira tão imperdoável, na diferença existente entre a política sindical e a política social-democrata, que não querem compreender. Por isso, pedimos ao leitor para não se impacientar e seguir-nos atentamente até ao fim.

Consideremos o tipo de círculo social-democrata mais difundido nestes últimos anos e vejamos a sua actividade. Tem "contactos com os operários" e atém-se a isso, editando "folhas volantes" onde condena os abusos nas fábricas, o partido que o governo toma em favor dos capitalistas e as violências da polícia. Nas reuniões com os operários, é sobre tais assuntos que se desenrola ordinariamente a conversa, sem quase sair disso; as conferências e debates sobre a história do movimento revolucionário, sobre a política interna e externa do nosso governo, sobre a evolução económica da Rússia e da Europa, sobre a situação destas ou daquelas classes na sociedade contemporânea etc., constituem excepções extremas, e ninguém pensa em estabelecer e desenvolver sistematicamente relações no seio das outras classes da sociedade. Para dizer a verdade, o ideal do militante, para os membros de tal círculo, aproxima-se na maioria dos casos muito mais ao de secretário de sindicato do que ao de dirigente político socialista. De facto, o secretário de um sindicato inglês, por exemplo, ajuda constantemente os operários a conduzir a luta económica, organiza revelações sobre a vida na fábrica, explica a injustiça das leis e disposições que entravam a liberdade de greve, a liberdade dos piquetes (para prevenir todos que há greve numa determinada fábrica); mostra qual o partido que tomam os juízes que pertencem às classes burguesas etc. etc. Numa palavra, todo o secretário de sindicato conduz e ajuda a conduzir a "luta económica contra os patrões e o governo". E não seria demais insistir que isto ainda não é "social-democratismo"; que o social-democrata não deve ter por ideal o de secretário do sindicato, mas o de tribuno popular, que sabe reagir contra toda manifestação de arbitrariedade e de opressão, onde quer que se produza, qualquer que seja a classe ou camada social atingida, que sabe generalizar todos os factos para compor um quadro completo da violência policial e da exploração capitalista, que sabe aproveitar a menor ocasião para expor diante de todos as suas convicções socialistas e as suas reivindicações democratas, para explicar a todos e a cada um o alcance histórico da luta emancipadora do proletariado. Comparemos, por exemplo, os militantes como Robert Knight (o secretário e líder bem conhecido da "União dos Caldeireiros", um dos sindicatos mais poderosos da Inglaterra) e Wilhelm Liebknecht, e tentemos aplicar-lhes as teses opostas às quais Martynov reduz as suas divergências com o Iskra. Veremos – começo a folhear o artigo de Martynov – que R. Knight "conclamou" muito mais "as massas a determinadas acções concretas”, e que W. Liebknecht se ocupou principalmente em "apresentar-se como revolucionário de todo o regime actual ou das suas manifestações parciais" (38-39); que R. Knight "formulou as reivindicações imediatas do proletariado e indicou os meios de atingi-las", e que W. Liebknecht, ocupando-se igualmente dessa tarefa, não se recusou a "dirigir ao mesmo tempo a acção das diferentes camadas e a oposição", a "ditar-lhes um programa de acção positiva"; que R. Knight se dedicou precisamente a "conferir, tanto quanto possível, à própria luta económica um carácter político",  e soube perfeitamente "colocar ao governo reivindicações concretas fazendo entrever resultados tangíveis", enquanto W. Liebknecht se ocupou muito mais de revelações "num sentido único"; que R. Knight deu muito mais importância "à marcha progressiva da obscura luta quotidiana", e W. Liebknecht à "propaganda de ideias brilhantes e acabadas"; que W. Liebknecht fez do jornal que dirigia exactamente "o órgão da oposição revolucionária que denuncia o nosso regime, e principalmente o regime político, aquele que vai de encontro aos interesses das diversas camadas da população", enquanto R. Knight "trabalhou pela causa operária em estreita ligação orgânica com a luta proletária" – se entendermos a "estreita ligação orgânica" no sentido do culto da espontaneidade que estudámos anteriormente a propósito de Kritchévski e de Martynov, – e "restringiu a esfera da sua influência" naturalmente persuadido, como Martynov, que "acentuava" essa influência através disso mesmo. Numa palavra, veremos que, de facto, Martynov rebaixa a social-democracia ao nível do sindicalismo, certamente não por deixar de querer o bem da social-democracia mas, simplesmente, porque se apressou um pouco demais em aprofundar Plekhanov em lugar de se dar ao trabalho de compreendê-lo.

Mas voltemos à nossa exposição. Como dissemos, se o social-democrata é adepto do desenvolvimento integral da consciência política do proletário não só em palavras, então deve "ir a todas as classes da população". A questão que se coloca é: como fazê-lo? Temos forças suficientes para isso? Existe um campo para tal trabalho em todas as outras classes? Isto não será ou não levará a um retrocesso do ponto de vista de classe? Vamos deter-nos nestas questões.

Devemos "ir a todas as classes da população" como teóricos, como propagandistas, como agitadores e como organizadores. Ninguém duvida que o trabalho teórico dos sociais-democratas deva orientar-se para o estudo de todas as particularidades da situação social e política das diferentes classes. Mas, a esse respeito fazemos muito pouco, muito pouco em comparação com o estudo das particularidades da vida na fábrica. Nos comités e nos círculos, encontramos pessoas que se especializam até no estudo de um ramo da produção siderúrgica, mas não encontramos quase exemplos de membros de organizações que (obrigados, como ocorre frequentemente, a deixar a acção prática por alguma razão) se ocupem especialmente em colectar documentos sobre uma questão da actualidade na nossa vida social e política, podendo fornecer à social-democracia a ocasião de trabalhar nas outras categorias da população. Quando se fala da precária preparação da maioria dos dirigentes actuais do movimento operário, não é possível deixar de lembrar, igualmente, a fraca preparação nesse sentido, pois também ela é devida à compreensão "economista" da "estreita ligação orgânica com a luta proletária". Mas o principal, evidentemente, é a propaganda e a agitação em todas as camadas do povo. Para o social-democrata do Ocidente, essa tarefa é facilitada pelas reuniões e assembleias populares assistidas por todos aqueles que o desejam, pela existência de Parlamento, onde fala diante dos deputados de todas as classes. Não temos Parlamento, nem liberdade de reunião, mas, contudo, sabemos organizar reuniões com os operários que desejam ouvir um social-democrata. Pois não é social-democrata aquele que, na prática, esquece que os "comunistas apoiam todo o movimento revolucionário", que, por conseguinte, temos o dever de expor e de assinalar as tarefas democráticas gerais diante de todo o povo, sem dissimular, um instante sequer, as nossas convicções socialistas. Não é social-democrata aquele que, na prática, esquece que o seu dever é ser o primeiro a colocar, a despertar e a resolver toda e qualquer questão democrática de ordem geral.

"Mas todos, sem excepção, estão de acordo com isso!", interromperá o leitor impaciente – e a nova instrução à redacção do Rabótcheie Dielo, adoptada no último congresso da União, declara claramente: "Devem ser utilizados para a propaganda e a agitação política todos os fenómenos e acontecimentos da vida social e política que afectem o proletariado, seja directamente como classe à parte, seja como vanguarda de todas as forças revolucionárias em luta pela liberdade " (Dois Congressos, p. 17, grifado por nós). De facto, estas são palavras notáveis e precisas, e dar-nos-íamos por inteiramente satisfeitos se o Rabótcheie Dielo as compreendesse e não colocasse, ao mesmo tempo, outras que as contradizem. Pois, não basta dizer-se "vanguarda", destacamento avançado, – é preciso proceder de forma a que todos os outros destacamentos se dêem conta e sejam obrigados a reconhecer que somos nós que marchamos à frente. Portanto, perguntamos ao leitor: os representantes dos outros "destacamentos" seriam, pois, imbecis a ponto de acreditar que somos "vanguarda" só porque o dizemos? Imaginem apenas este quadro concreto: um social-democrata apresenta-se no "destacamento" dos radicais russos ou dos constitucionalistas liberais, e diz: somos a vanguarda; "agora uma tarefa nos é colocada: como conferir, tanto quanto possível, à própria luta económica um carácter político". Um radical ou um constitucionalista, por pouco inteligente que seja (e há muitos homens inteligentes entre os radicais e os constitucionalistas russos), apenas sorrirá ao ouvir isso, e dirá (para si, bem entendido, pois na maioria dos casos é um diplomata experimentado): "essa vanguarda é muito ingénua! Não compreende sequer que é tarefa nossa – a tarefa dos representantes avançados da democracia burguesa – conferir à própria luta económica um carácter político. Porque também nós, como todos os burgueses do Ocidente, desejamos integrar os operários à política, mas apenas à política sindical, e não à social-democrata. A política sindical da classe operária é precisamente a política burguesa da classe operária. E essa "vanguarda", formulando a sua tarefa, formula precisamente uma política sindical! Embora repitam inúmeras vezes, tantas quantas lhes apetece, que são sociais-democratas. Não sou uma criança para me importar com rótulos! Mas, que não se deixem levar por esses dogmáticos ortodoxos nocivos; que permitam "a liberdade de crítica" para aqueles arrastarem inconscientemente a social-democracia na esteira do sindicalismo!"

O ligeiro sorriso de ironia do nosso constitucionalista muda-se em gargalhada homérica, quando percebe que os sociais-democratas que falam de vanguarda da social-democracia, neste período de dominação quase completa da espontaneidade no nosso movimento, temem acima de tudo ver "minimizar o elemento espontâneo", ver "diminuir o papel da marcha progressiva dessa obscura luta quotidiana em relação à propaganda das brilhantes ideias acabadas" etc. etc.! O destacamento "avançado" que teme ver a consciência ganhar à espontaneidade, que teme formular um "plano" ousado que force o reconhecimento geral, mesmo entre os que pensam diferentemente! Será que confundem, por acaso, a palavra vanguarda com a palavra retaguarda?

Examinem com atenção o seguinte raciocínio de Martynov. Declara ele que a táctica acusadora do Iskra é unilateral; que "qualquer que seja a espécie de desconfiança e de ódio que semearmos contra o governo, não alcançaremos o nosso objectivo enquanto não desenvolvermos uma energia social suficientemente activa para o seu derrube". Eis, diga-se entre parênteses, a preocupação – que já conhecemos – de intensificar a actividade das massas e de querer restringir a sua própria. Mas, agora não é esta a questão. Martynov fala aqui de energia revolucionária ("para o derrube"). Porém, a que conclusão chega? Como em tempos normais, as diferentes camadas sociais actuam inevitavelmente cada uma no seu lado, "é claro, por conseguinte, que nós, sociais-democratas, não podemos simultaneamente dirigir a actividade intensa das diversas camadas da oposição, não podemos ditar-lhes um programa de acção positiva, não podemos indicar-lhes os meios de lutar, dia após dia, pelos seus interesses... As camadas liberais ocupar-se-ão, elas próprias, dessa luta activa pelos seus interesses imediatos, o que as colocará face a face com nosso regime político". Assim, portanto, após ter falado de energia revolucionária, de luta activa para o derrube da autocracia, Martynov desvia-se logo para a energia profissional, para a luta activa pelos interesses imediatos! Disso se conclui que não podemos dirigir a luta dos estudantes, dos liberais etc., pelos seus "interesses imediatos"; mas não era disso que se tratava, respeitável "economista"! Tratava-se da participação possível e necessária das diferentes camadas sociais no derrube da autocracia; ora, não apenas podemos, mas devemos dirigir, de qualquer forma, essa "actividade intensa das diferentes camadas da oposição" se quisermos ser a "vanguarda". Quanto a colocar os nossos estudantes, os nossos liberais etc., "face a face com nosso regime político", não serão os únicos a preocuparem-se com isso, pois disso se encarregarão sobretudo a polícia e os funcionários da autocracia. Mas, "nós", se quisermos ser democratas avançados, devemos ter a preocupação de incitar a pensar, exactamente aqueles que só estão descontentes com o regime universitário ou apenas com o regime dos zemstvos etc., que todo o regime político nada vale. Nós devemos assumir a organização de uma ampla luta política sob a direcção do nosso partido, a fim de que todas as camadas da oposição, quaisquer que sejam, possam prestar e prestem efectivamente a essa luta, assim como ao nosso partido, a ajuda de que são capazes. Dos práticos sociais-democratas, nós devemos formar os dirigentes políticos que saibam dirigir todas as manifestações dessa luta nos mais variados aspectos, que saibam no momento necessário "ditar um programa de acção positiva aos estudantes em agitação, aos zemstvos descontentes, aos membros de seitas indignados, aos professores lesados etc. etc. Por isso, Martynov está completamente errado quando afirma que "em relação a eles, não podemos desempenhar senão um papel negativo de denunciadores do regime... Não podemos senão dissipar as suas esperanças nas diferentes comissões governamentais". (o grifo é nosso). Dizendo isso, Martynov mostra que não compreende nada sobre o verdadeiro papel da "vanguarda" revolucionária. E se o leitor tornar isso em consideração, compreenderá o verdadeiro sentido da seguinte conclusão de Martynov: "O Iskra é o órgão da oposição revolucionária, que denuncia o nosso regime, e principalmente o nosso regime político, quando vai ao encontro dos interesses das diferentes camadas da população. Quanto a nós, trabalhamos e trabalharemos pela causa operária em estreita ligação orgânica com a luta proletária: "restringindo a esfera da nossa influência, acentuamos esta influência em si mesma". O verdadeiro sentido desta conclusão é: o Iskra deseja elevar a política sindical da classe operária (política à qual, entre nós, por mal-entendido, despreparo ou convicção, frequentemente se limitam os nossos práticos) ao nível da política social-democrata. Ora, o Rabótcheie Dielo deseja baixar a política social-democrata ao nível da política sindical. E ainda garante que são "posições perfeitamente compatíveis com a obra comum". Oh sancta símplicitas!

Prossigamos. Temos forças suficientes para levar a nossa propaganda e a nossa agitação a todas as classes da população? Certamente que sim. Os nossos "economistas", que frequentemente se inclinam a negá-lo, esquecem-se do gigantesco progresso realizado pelo nosso movimento de 1894 (mais ou menos) a 1901. Verdadeiros "seguidistas", vivem frequentemente com ideias do período do começo do nosso movimento, há muito já terminado. De facto, éramos espantosamente fracos, a nossa resolução de nos dedicarmos inteiramente ao trabalho entre os operários e de condenar severamente todo o desvio dessa linha era natural e legítima, pois tratava-se então unicamente de nos consolidarmos no seio da classe operária. Agora, uma prodigiosa massa de forças está incorporada no movimento; vemos chegar até nós os melhores representantes da jovem geração das classes instruídas; por toda a parte, são obrigadas a residir nas províncias pessoas que já participam ou querem participar no movimento, e que tendem para a social-democracia (enquanto que, em 1894, podia-se contar pelos dedos os sociais-democratas russos). Um dos mais graves defeitos do nosso movimento – em política e em matéria de organização – é que não sabemos empregar todas essas forças, atribuir-lhes o trabalho que lhes convém (voltaremos a isto no capítulo seguinte). A imensa maioria dessas forças encontra-se na impossibilidade absoluta "de ir até aos operários", por isso não se coloca a questão do perigo de desviar as forças do nosso movimento essencial. E para fornecer aos operários uma verdadeira iniciação política, múltipla e prática, é preciso que tenhamos "os nossos homens do nosso lado", sociais-democratas, sempre e em toda a parte, em todas as camadas sociais, em todas as posições que permitam conhecer as forças internas do mecanismo do nosso Estado. E precisamos desses homens, não apenas para a propaganda e a agitação mas, ainda e sobretudo, para a organização.

Existe um campo para a acção em todas as classes da população? Os que não vêem isso, mostram que a sua consciência está atrasada relativamente ao impulso espontâneo das massas. Entre uns, o movimento operário suscitou e continua a suscitar o descontentamento; entre outros, desperta a esperança quanto ao apoio da oposição; para outros, enfim, dá a consciência da inviabilidade do regime autocrático, da sua falência evidente. Não seríamos "políticos" e sociais-democratas senão em palavras (como, na realidade, acontece frequentemente), se não compreendêssemos que a nossa tarefa é utilizar todas as manifestações de descontentamento, quaisquer que sejam, de reunir e elaborar até os menores elementos de um protesto, por embrionários que sejam. Sem contar que milhões e milhões de camponeses, trabalhadores, pequenos artesãos etc., escutam sempre avidamente a propaganda de um social-democrata, mesmo quando este é pouco hábil. Mas, existirá uma só classe da população onde não haja homens, círculos e grupos descontentes com o jugo e a arbitrariedade e, portanto, acessíveis à propaganda do social-democrata, intérprete das mais prementes aspirações democráticas? Para quem quiser ter uma ideia concreta dessa agitação política do social-democrata em todas as classes e categorias da população, indicaremos as revelações políticas, no sentido amplo da palavra, como principal meio dessa agitação (porém não o único, bem entendido).

"Devemos" – escrevia no meu artigo "Por Onde Começar?" (Iskra, n.º4, Maio de 1901) de que falaremos mais adiante em detalhe – "despertar em todos os elementos minimamente conscientes da população, a paixão pelas revelações políticas. Não nos inquietemos se, na política, as vozes acusadoras são ainda tão débeis, tão raras, tão tímidas. A causa não consiste, de modo algum, numa resignação geral à arbitrariedade policial. A causa é que os homens capazes de acusar e dispostos a fazê-lo não têm uma tribuna do alto da qual possam falar, não têm um auditório que escute avidamente, encorajando os oradores, e não vêem em parte alguma do povo uma força para a qual valha a pena dirigir as suas queixas contra o governo "todo-poderoso"... Temos hoje os meios e o dever de oferecer a todo o povo uma tribuna para denunciar o governo czarista: essa tribuna deve ser um jornal social-democrata".

Esse auditório ideal para as revelações políticas é precisamente a classe operária, que tem necessidade, antes e sobretudo, de conhecimentos políticos amplos e vivos, e que é a mais capaz de aproveitar esses conhecimentos para empreender uma luta activa, mesmo que não prometa qualquer "resultado tangível". Ora, a tribuna para essas revelações diante de todo o povo, só pode ser um jornal para toda a Rússia. "Sem um órgão político, não seria possível conceber na Europa actual um movimento merecendo o nome de movimento político". E a Rússia, inegavelmente, também está incluída na Europa actual, em relação a esse facto. Desde há muito que a imprensa se tornou uma força entre nós; se não o governo não despenderia dezenas de milhares de rublos para comprar e subvencionar todas as espécies de Katkovs e de Mechtcherskis. E não é novo o facto de, na Rússia autocrática, a imprensa ilegal romper as barreiras da censura e obrigar os órgãos legais e conservadores a falar dela abertamente. Assim aconteceu entre 1870 e 1880, e mesmo entre 1850 e 1880. Ora, hoje são mais amplas e profundas as camadas populares que poderiam ler, voluntariamente, a imprensa ilegal para aí aprender "a viver e a morrer", para empregar a expressão de um operário, autor de uma carta endereçada ao Iskra (n.º7). As revelações políticas constituem uma declaração de guerra ao governo, da mesma forma que as revelações económicas constituem uma declaração de guerra aos fabricantes. E essa declaração de guerra tem um significado moral tanto maior quanto mais vasta e vigorosa for a campanha de denúncias, quanto mais decidida e numerosa for a classe social que declara a guerra para começar a guerra. Por isso, as revelações políticas constituem, por si próprias, um meio poderoso para desagregar o regime contrário, separar o inimigo dos seus aliados fortuitos ou temporários, semear a hostilidade e a desconfiança entre os participantes permanentes do poder autocrático.

Apenas o partido que organize verdadeiramente as revelações visando o povo inteiro poderá tornar-se, nos nosso dias, a vanguarda das forças revolucionárias. Ora, tais palavras – "visando o povo inteiro" – têm um conteúdo muito amplo. A imensa maioria dos reveladores, que não pertencem à classe operária (pois para ser vanguarda é preciso justamente integrar outras classes), são políticos lúcidos e homens de sangue-frio e senso prático. Sabem perfeitamente como é perigoso "queixar-se" mesmo de um pequeno funcionário, quanto mais do "omnipotente" governo russo. E não nos dirigirão as suas queixas, a não ser quando virem que realmente estas podem ter efeito, e que nós somos uma força política. Para que nos tornemos aos olhos do público uma força política não basta colar o rótulo "vanguarda" sobre uma teoria e uma prática de "retaguarda": é preciso trabalhar muito e com firmeza para elevar a nossa consciência, o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia.

Porém, o partidário cioso da "estreita ligação orgânica com a luta proletária" perguntar-nos-á, e já nos pergunta: se nos devemos encarregar de organizar contra o governo as revelações que verdadeiramente visam o povo inteiro, em que, pois, se manifestará o carácter de classe do nosso movimento? – Ora, justamente no facto de que a organização dessas revelações constituirá uma obra nossa, de sociais-democratas; de que todos os problemas levantados pelo trabalho de agitação serão esclarecidos dentro de um espírito social-democrata constante e sem a menor tolerância para com as deformações, voluntárias ou não, do marxismo, de que essa ampla agitação política será conduzida por um partido unindo num todo coerente a ofensiva contra o governo, em nome de todo o povo, da educação revolucionária do proletariado, salvaguardando, ao mesmo tempo, a sua independência política, a direcção da luta económica da classe operária, a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores, conflitos que levantam e conduzem sem cessar, para o nosso campo, novas camadas do Proletariado!

Mas, um dos traços mais característicos do "economismo" é exactamente não compreender essa ligação, melhor ainda, essa coincidência da necessidade mais urgente do proletariado (educação política sob todas as suas formas, por meio das denúncias e da agitação política) com as necessidades do movimento democrático como um todo. Essa incompreensão aparece não apenas nas frases "à Martynov", mas também nas diferentes passagens de significação absolutamente idêntica, onde os "economistas" se referem a um pretenso ponto de vista de classe. Eis, por exemplo, como se exprimem os autores da carta "economista" publicada no n.º12 do Iskra: "Este mesmo defeito essencial do Iskra (sobrestimação da ideologia) é a causa da sua inconsequência na questão da social-democracia com as diversas classes e tendências sociais. Tendo decidido, por meio de cálculos teóricos"... (e não em decorrência do "crescimento das tarefas do Partido que aumentam ao mesmo tempo que ele"...) "o problema da deflagração imediata da luta contra o absolutismo é sentindo, provavelmente, toda a dificuldade dessa tarefa para os operários, no estado actual das coisas"... (não somente sentindo, mas sabendo muito bem que esta tarefa parece menos difícil aos operários do que aos intelectuais "economistas" – que os tratam como crianças pequenas – pois os operários estão prontos a lutarem de facto pelas reivindicações que não prometem, para falar a língua do inolvidável Martynov, qualquer "resultado tangível")... "mas não tendo a paciência de esperar a acumulação de forças necessárias para essa luta, o Iskra começa a procurar os aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais"...

Sim, sim, de facto perdemos toda a "paciência" para "esperar" os dias felizes que nos prometem de há muito os "conciliadores"' de toda espécie, onde os nossos "economistas" deixarão de lançar a culpa de seu próprio atraso sobre os operários, de justificar a sua própria falta de energia pela pretensa insuficiência de forças entre os operários. Em que deve consistir a "acumulação de forças pelos operários em vista dessa luta"? perguntaremos aos nossos "economistas". Não é evidente que consiste na educação política dos operários, na denúncia, diante deles, de todos os aspectos da nossa odiosa autocracia? E não está claro que, justamente para esse trabalho, precisamos de "aliados nas fileiras dos liberais e dos intelectuais", "aliados" prontos a trazer-nos as suas denúncias sobre a campanha política conduzida contra os elementos activos dos zemstvos, dos professores, dos estatísticos, dos estudantes etc.? É assim tão difícil compreender esta "mecânica erudita"? P. Axelrod não lhes repete, desde 1897, que "a conquista pelos sociais-democratas russos de partidários e aliados directos ou indirectos entre as classes não proletárias é determinada, antes de tudo e principalmente, pelo carácter que a propaganda assume entre o próprio proletariado?" Ora, Martynov e os outros "economistas" ainda acham, agora, que primeiro os operários devem acumular forças "através da luta económica contra os patrões e o governo" (para a política sindical) e, em seguida, apenas "passar" – sem dúvida da "educação" sindical da "actividade", à actividade social-democrata!

"... Nas suas pesquisas, continuam os "economistas", o Iskra abandona com demasiada frequência o ponto de vista de classe, encobre os antagonismos de classe e coloca em primeiro plano o descontentamento comum contra o governo, apesar das causas e do grau deste descontentamento serem muito diferentes entre os "aliados". Essas são, por exemplo, as relações do Iskra com os zemstvos"... O Iskra pretensamente "promete aos nobres descontentes com as esmolas governamentais, o apoio da classe operária, sem dizer uma palavra sobre o antagonismo de classe que separa essas duas categorias da população". Que o leitor se reporte aos artigos "A Autocracia e os Zemtvos" (n.ºs 2 e 4 do Iskra) aos quais, parece, os autores dessa carta fazem alusão, e verá que esses artigos são dedicados à atitude do governo em relação "à agitação inofensiva do zemstvo burocrático censitário", em relação "à iniciativa das próprias classes proprietárias". Nesse artigo diz-se que o operário não poderia permanecer indiferente à atitude do governo contra o zemstvo, e os elementos activos dos zemstvos são convidados a deixar de lado os seus discursos inofensivos e a pronunciar palavras firmes e categóricas, quando a social-democracia revolucionária se levantar com toda a força diante do governo. Com o que não estão de acordo os autores da carta? Não seria possível dizê-lo. Pensam que o operário "não compreenderá" as palavras "classes possuidoras" e "zemstvo burocrático censitário"? que o facto de pressionar os elementos activos dos zemstvos a abandonar os discursos inofensivos pelas palavras firmes seja uma "sobrestimação da ideologia"? Imaginam que os operários podem "acumular forças" para a luta contra o absolutismo, se não conhecem a atitude do absolutismo também em relação ao zemstvo? Mais uma vez, não seria possível dizê-lo. Uma coisa está clara: os autores têm apenas uma ideia muito vaga das tarefas políticas da social-democracia. Isso sobressai ainda com maior clareza na frase seguinte: "Essa é igualmente (isto é, "encobrindo também os antagonismos de classe") a atitude do Iskra em relação ao movimento dos estudantes". Em lugar de exortar os operários a afirmar através de uma manifestação pública que o verdadeiro foco de violências, de arbitrariedade e de delírio não é a juventude universitária, mas o governo russo (Iskra, nº2), deveríamos, ao que parece, publicar as análises inspiradas da Rabótchaia Mysl! E são essas as opiniões expressas pelos sociais-democratas no Outono de 1901, após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, nas vésperas de um novo impulso do movimento estudantil, impulso que mostra bem que, também nesse aspecto, o protesto "espontâneo" contra a autocracia ultrapassa a direcção consciente do movimento pela social-democracia. O impulso instintivo, que leva os operários a interceder em favor dos estudantes espancados pela polícia e pelos cossacos, ultrapassa a actividade consciente da organização social-democrata!

"Entretanto, noutros artigos", continuam os autores da carta, "o Iskra condena severamente todo o compromisso e toma a defesa, por exemplo, do comportamento intolerável dos guesdistas". Aconselhamos àqueles que sustentam comummente, com tanta presunção e ligeireza, que as divergências de ponto de vista entre os sociais-democratas de hoje, não são, parece, essenciais e não justificam uma cisão, que meditem seriamente nessas palavras. As pessoas que afirmam que o esforço que empreendemos ainda é ridiculamente insuficiente para mostrar a hostilidade da autocracia em relação às mais diferentes classes, para revelar aos operários a oposição das mais diferentes categorias da população à autocracia, podem trabalhar eficazmente, numa mesma organização, com pessoas que vêem nessa tarefa "um compromisso", evidentemente um compromisso com a teoria da "luta económica contra os patrões e o governo"?

No quadragésimo aniversário da emancipação dos camponeses, falámos da necessidade de introduzir a luta de classes nos campos (n.º3) e, a propósito do relatório secreto de Witte, da incompatibilidade que existe entre a autonomia administrativa e a autocracia (n.º4); combatemos, a propósito da nova lei, o feudalismo dos proprietários de terras e do governo que os serve (n.º8), e saudámos o congresso ilegal dos zemstvos, encorajando os elementos dos zemstvos a abandonar os procedimentos humilhantes para passar à luta (n.º8); encorajámos os estudantes que começavam a compreender a necessidade da luta política e a empreenderam (n.º3) e, ao mesmo tempo, fustigámos a "inteligência extremada" dos partidários do movimento "exclusivamente estudantil", que exortavam os estudantes a não participar das manifestações de rua (nº3, a propósito da mensagem do Comité executivo dos estudantes de Moscovo, de 25 de Fevereiro); denunciámos os "sonhos insensatos", a "mentira e a hipocrisia" dos velhacos liberais do jornal Rossia (n.º5), e ao mesmo tempo assinalámos a fúria do governo de carcereiros que "ajustavam contas com pacíficos literatos, velhos professores e cientistas, conhecidos liberais dos zemstvos" (n.º5: "Um Ataque da Polícia Contra a Literatura"); revelámos o verdadeiro sentido do programa "de assistência do Estado para a melhoria das condições de vida dos operários", e saudámos o "consentimento precioso": "mais vale prevenir com reformas do alto as reivindicações de baixo, do que esperar por estas" (n.º6); – encorajámos os estatísticos no seu protesto (n.º7) e condenámos os estatísticos furadores da greve (n.º7). Ver nesta táctica um obscurecimento da consciência de classe do proletariado e um compromisso com o liberalismo é mostrar que não se compreende absolutamente nada do verdadeiro programa do Credo, e é aplicar, de facto, precisamente esse programa, por mais que seja repudiado! Realmente, por isso mesmo, arrasta-se a democracia à "luta económica entre os patrões e o governo", e inclina-se a bandeira diante do liberalismo, renunciando-se a intervir activamente e a definir a própria atitude, a atitude social-democrata, em cada questão "liberal".

f) Mais uma vez caluniadores, mais uma vez "mistificadores".

Como o leitor se lembra, essas amabilidades foram ditas pelo Rabótcheie Dielo, que assim responde à nossa acusação de "preparar indirectamente o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa". Na simplicidade do seu coração, o Rabótcheie Dielo decidiu que essa acusação constituía apenas um elemento de polémica. Esses desagradáveis dogmáticos, parece ter pensado, resolveram dizer-nos todas as espécies de coisas desagradáveis; ora, o que pode haver de mais desagradável do que ser o instrumento da democracia burguesa? E de imprimir, em grandes caracteres, um "desmentido": "calúnia não dissimulada" (Dois Congressos, p. 30), "mistificação" (31), "palhaçada" (33). Como Júpiter (embora se pareça pouco com ele), o Rabótcheie Dielo ofende-se precisamente porque não tem razão, e através das suas injúrias irreflectidas, prova que é incapaz de apreender o fio do pensamento dos seus adversários. E, entretanto, não é necessário reflectir muito para compreender a razão por que todo o culto da espontaneidade do movimento de massa, todo o rebaixamento da política social-democrata ao nível da política sindical se resume exactamente em preparar o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa. O movimento operário espontâneo, por si mesmo, só pode engendrar (e infalivelmente o fará) o sindicalismo, ora, a política sindical da classe operária é precisamente a política burguesa da classe operária. A participação da classe operária na luta política, e mesmo na revolução política, não faz de maneira alguma da sua política uma política social-democrata. O Rabótcheie Dielo poderá negar isso? Poderá, finalmente, expor diante de todos, abertamente e sem dissimulações, a sua concepção dos problemas angustiantes da social-democracia internacional e russa? – Não, nunca o fará, pois atém-se firmemente ao procedimento "de se fazer de desentendido". Não me toquem, não tenho nada com isso. Não somos "economistas", a Rabótchaia Mysl não é o "economismo", o "economismo" em geral não existe na Rússia. Este é um procedimento muito hábil e "político", que tem apenas um pequeno inconveniente, o de se ter o hábito de dar aos órgãos da imprensa que o praticam o apelido de "às suas ordens".

Para o Rabótcheie Dielo, a democracia burguesa em geral constitui na Rússia apenas um "fantasma" (Dois Congressos, p. 32). Que homens felizes! Como o avestruz, escondem a cabeça sob a asa e, imaginam que tudo o que os cerca desapareceu. Publicistas liberais que, todos os meses, anunciam triunfalmente que o marxismo se desagregou, ou mesmo desapareceu; jornais liberais (Sankt-Petersburgskie Védomosti, Russkia Védomosti e muitos outros) que encorajam os liberais que levam aos operários a concepção brenstaniana da luta de classes e a concepção sindical da política; a plêiade de críticos do marxismo, críticos cujas tendências verdadeiras foram tão bem reveladas no Credo, e cuja mercadoria literária é a única que circula pela Rússia sem impostos nem taxas; a reanimação das tendências revolucionárias não sociais-democratas, sobretudo após os acontecimentos de Fevereiro e de Março, tudo isso será talvez um fantasma? Tudo isso não tem absolutamente qualquer ligação com a democracia burguesa! 

O Rabótcheie Dielo, tal como os autores do canto economista, no número 12 do Iskra, deveriam "perguntar-se por que os acontecimentos da primavera provocaram uma tal reanimação das tendências revolucionárias não sociais-democratas, em lugar de reforçar a autoridade e o prestígio da social-democracia". A razão é que não estávamos à altura da nossa tarefa, que a actividade das massas operárias ultrapassou a nossa, que não tínhamos dirigentes e organizadores suficientemente preparados, que conhecessem perfeitamente o estado de espírito de todas as camadas da oposição e soubessem colocar-se à cabeça do movimento, transformar uma manifestação espontânea em manifestação política, ampliar-lhe o carácter político etc. Dessa forma, os revolucionários não sociais-democratas, mais desembaraçados, mais enérgicos, explorarão necessariamente o nosso atraso, e os operários, por maior que seja a sua energia e abnegação nos combates contra a polícia e contra as tropas, por mais revolucionária que seja sua acção, serão apenas uma força de sustentação desses revolucionários, a retaguarda da democracia burguesa, e não a vanguarda social-democrata. Consideremos a social-democracia alemã, da qual os nossos "economistas" tomam emprestadas apenas as falhas. Por que não existe um único acontecimento político na Alemanha que não contribua para reforçar cada vez mais a autoridade e o prestígio da social-democracia? Porque a social-democracia é sempre a primeira a fazer a apreciação mais revolucionária desse acontecimento, a sustentar todo o protesto contra a arbitrariedade. Não alimenta ilusões de que a luta económica incitará os operários a pensar no seu jugo, e de que as condições concretas conduzem fatalmente o movimento operário ao caminho revolucionário. Intervém em todos os aspectos e em todas as questões da vida social e política: quando Guilherme se recusa a ratificar a nomeação de um progressista burguês para prefeito (os nossos "economistas" ainda não tiveram tempo de aprender com os alemães que isto constitui, na verdade, um compromisso com o liberalismo!), e quando se faz uma lei contra imagens e obras "imorais", e quando o governo faz pressão para obter a nomeação de certos professores etc. etc. Em toda a parte os sociais-democratas estão na linha de frente, despertando o descontentamento político em todas as classes, sacudindo os adormecidos, estimulando os atrasados, fornecendo uma ampla documentação para desenvolver a consciência política e a actividade política do proletariado. O resultado é que esse defensor político de vanguarda força o próprio respeito dos inimigos conscientes do socialismo, e não é raro que um documento importante, não só das esferas burguesas, mas também das burocráticas e palacianas, venha parar, não se sabe como, na sala de redacção do Vorwürts.

Aí está o segredo da "contradição" aparente que ultrapassa o nível de compreensão do Rabótcheie Dielo a ponto de se contentar em levantar os braços para o céu e exclamar: "Palhaçada"! De facto, imaginemos o seguinte: nós, o Rabótcheie Dielo, consideramos em primeiro plano o movimento operário de massa (e o imprimimos em letras garrafais!), pomos todos em guarda contra a tendência de diminuir o papel do elemento espontâneo, queremos conferir à própria luta económica um carácter político; queremos permanecer em estreita ligação orgânica com a luta proletária! E  dizem-nos que preparamos o terreno para fazer do movimento operário um instrumento da democracia burguesa. E quem o diz? Os homens que têm "compromisso" com o liberalismo, intervindo em toda a questão "liberal" (que incompreensão da "ligação orgânica com a luta proletária"!), concedendo tão grande atenção aos estudantes e até (que horror!) aos porta-vozes dos zemstvos! Homens que querem, em geral, consagrar uma percentagem maior (em relação aos "economistas") das suas forças entre as classes não proletárias da população! Não é isto uma "palhaçada"?

Pobre Rabótcheie Dielo! Chegará algum dia a penetrar no segredo deste complicado mecanismo? 

 

IV Parte -1


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publicado por portopctp às 20:10
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