de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Segunda-feira, 22 de Outubro de 2007
Que fazer? IV-2- Os métodos artesanais dos economistas e a organização dos revolucionários

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IV Parte - 1

 

c) A organização dos operários e a organização dos revolucionários 

Se, para um social-democrata, na concepção de "luta económica contra os patrões e o governo" se engloba a da luta política, é-se levado a assimilar mais ou menos a "organização de revolucionários" à de "organização de operários". É isso que acontece, ao tal ponto de, quando discutimos a organização, falarmos literalmente de coisas diferentes. Recordo-me de uma conversa que tive um dia com um “economista” bastante lógico que acabava de conhecer. A conversa girava à volta do folheto: Quem fará a revolução política? Tínhamos reconhecido que o erro capital deste folheto era não ter em conta a questão da organização. Pensávamos já estar inteiramente de acordo, mas não tardámos a aperceber-nos que falávamos de coisas diferentes. O meu interlocutor acusava o autor de não levar em consideração as caixas de greves, sociedades de socorros mútuos, etc.. Quanto a mim, tinha em vista a organização dos revolucionários indispensável para "fazer" a revolução política. E, a partir do momento que esta divergência se revelou, foi-nos impossível pôr-nos de acordo sobre qualquer questão de princípio.

Em que consiste o motivo das nossas divergências? No facto dos "econo­mistas" se desviarem constantemente da social-democracia para o sindicalismo, tanto nas tarefas de organização como nas tarefas políticas. A luta política da so­cial-democracia é bem mais ampla e complexa que a luta económica dos operários contra os patrões e o governo. Da mesma forma (e como consequência) a organi­zação de um partido social-democrata revolucionário deve ser diferente da organização dos operários para a luta económica. A organização dos operários deve ser em primeiro lugar profissional; em segundo lugar, o mais ampla possível; em terceiro lugar, o menos clandestina possível (aqui e no que se segue, tenho simplesmente em vista a Rússia autocrática). Pelo contrário, a organização dos revolucionários deve englobar principalmente pessoas cuja profissão é a acção revolucionária (por isso falo de organização de revolucionários, ou seja, de revo­lucionários social-democratas). Nesta organização não há nenhuma distinção entre operários e intelectuais e, com muito mais forte razão, não pode ser admi­tida nenhuma distinção profissional. Esta organização não deve ser muito ampla e é necessário que seja o mais clandestina possível. Detenhamo-nos nestes três pontos.

Nos países que gozam de liberdades políticas, a diferença entre a organiza­ção segundo as profissões e a organização política é tão clara como a que existe entre sindicatos e social-democracia. As relações da social-democracia com os sindicatos variam inevitavelmente de país a país conforme as condições históricas, jurídicas e outras; podem ser mais ou menos estreitas, complexas, etc. (devem ser, na nossa opinião, o mais estreitas e o menos complexas possíveis), mas nos países livres, não se pode pôr a questão de identificar a organização sindical com o partido social-democrata. Na Rússia, o jugo da autocracia faz desaparecer, à primeira vista, toda a distinção entre a organização da social-democracia e a união operária, porque todos os tipos de sindicatos e todos os tipos de associações estão formalmente proibidos, e a greve, manifestação e arma principal da luta económica dos operários, é considerada um crime de direito comum (por vezes mesmo um delito político). Assim, as condições entre nós, por um lado, "impelem" para as questões políticas os operários que conduzem a luta económica e, por outro, “impelem” os social-democratas a confundirem o sindicalismo e a social-democracia (os nossos Kritchévsky, Martinov e discípulos, que não cessam de falar sobre o "impulso" do primeiro género, esquecem o "impulso " do segundo). Com efeito, acontece que 99% das pessoas estão absorvidas pela “luta económica contra os patrões e o governo”. Uns, durante todo o período da sua acção (4-6 meses), jamais serão levados a pensar na necessidade de uma organização mais complexa de revolucionários. Outros “cairão”, talvez, na literatura bernisteiniana, relativamente bastante difundida, e ficarão com a convicção de que o que tem uma importância essencial é o "progresso da monótona luta quotidiana". Outros deixar-se-ão talvez seduzir pela ideia de dar ao mundo um novo exemplo de "ligação estreita e orgânica com a luta proletária", de ligação do movimento sindical e do movimento social-democrata. Quanto mais tarde um país chega ao capitalismo e, por conseguinte, ao movimento operário, argumentarão eles, tanto mais os socialistas podem participar no movimento sindical e apoiá-lo, tanto menos pode e deve haver sindicatos não social-democratas. Este raciocínio até aqui é perfeita­mente justo, mas infelizmente vai-se mais longe e sonha-se com a fusão completa entre a social-democracia e do sindicalismo. Vamos ver, a partir do exemplo dos "Estatutos da União de Luta de São Petersburgo", a influência prejudicial desses sonhos nos nossos planos de organização.

As organizações operárias para a luta económica devem ser organizações profissionais. Todo o operário social-democrata deve, sempre que possível, apoiar e trabalhar activamente nessas organizações. Mas é contrário aos nossos interesses exigir que só os social-de­mocratas possam ser membros das uniões "corporativas", porque isso reduziria a nossa influência entre as massas. Deixemos participar na união corporativa todo o operário que compreenda que é necessário unir-se para lutar contra os patrões e o governo. O objectivo das uniões corporativas seria impossível de alcançar se não agrupassem todos aqueles capazes de compreender essa noção elementar e se não fossem tão amplas. E quanto mais amplas elas forem, mais a nossa influ­ência se estenderá sobre elas, não somente através do desenvolvimento "espontâ­neo" da luta económica, mas também pela acção consciente e directa dos membros socialistas da união sobre os seus camaradas. Mas, numa organização numerosa, a clandestinidade é impossível (porque exige muito mais prepa­ração do que a participação na luta económica). Como conciliar esta contradição entre a necessidade de um efectivo numeroso e o regime clandestino? Como conseguir que as organizações corporativas sejam o menos clandestinas possível? No geral, não há senão dois meios: ou a legalização das uniões corporativas (que em alguns países precedeu a das uniões socialistas e políticas), ou a manutenção da organização secreta, mas "livre", pouco regulamentada, lose, como dizem os alemães, a tal ponto que, para a massa dos membros, o regime clandestino esteja reduzido quase a nada.

A legalização das uniões operárias não socialistas e não políticas já começou na Rússia, e não há a menor dúvida que o progresso rápido do nosso movimento operário social-democrata enco­rajará e multiplicará as tentativas de legalização, tentativas emanando principalmente dos partidá­rios do regime existente, mas também dos próprios operários e dos intelectuais liberais. Os Vassiliev e os Zubatov já hastearam a bandeira da legalização; os Ozerov e os Worms prometeram-lhes e forneceram-lhes o seu apoio, e encontram-se adeptos entre os operá­rios. Já não podemos ignorar esta nova corrente. Sobre isto não pode haver duas opiniões entre os social-democratas. Devemos desmascarar os Zubatov e os Vassiliev, os policiais e os popes, e mostrar as suas verdadeiras intenções aos operários. Devemos desmascarar qualquer tendência conciliatória que transpareça nos discursos dos liberais nas assembleias públi­cas de operários, quer estas pessoas creiam sinceramente na colaboração pacífica entre classes, quer tenham o desejo de contentar as autoridades, quer sejam simplesmente desastradas. Devemos enfim prevenir os operários contra as costumeiras armadilhas da polícia que, nestas assembleias públicas e em sessões autorizadas, espia os "homens de talento" e procura aproveitar as organizações legais para introduzir provocado­res nas organizações ilegais.

Mas, fazendo isto, não devemos esquecer que a legalização do movimento operário não beneficiará, afinal de contas, aos Zubatov, mas a nós. Pelo contrário, apenas as nossas campanhas de denúncias permitem separar o trigo do joio. Já mostrámos qual é o joio. O trigo é a atracção da atenção de maiores camadas e mais atrasadas de operários para as questões políticas e sociais que nos liberta, a nós, revolucionários, de funções essencialmente legais (difusão de obras legais, socorros mútuos, etc.) e que, desenvolvendo-se, nos dará inevitavelmente cada vez mais materiais para a agitação. Assim podemos e devemos dizer aos Zubatov e aos Ozerov: “trabalhai, senhores, trabalhai; montais armadilhas aos operários (seja pela provocação directa, seja pela via “honesta” da corrupção pelo "struvismo") – que nós  encarregar-nos-emos de vos desmascarar. Cada vez que derem um verdadeiro passo à frente – mesmo que seja em "tímido zigue­zague" – nós dir-vos-emos: obrigado! Um passo à frente, mesmo minúsculo, não faz senão alargar do campo de acção dos operários. Ora, isso não pode senão benefi­ciar-nos e acelerar o aparecimento de uniões legais, onde não serão os provocadores que apanharão os socialistas, mas os socialistas que ganharão adep­tos. Numa palavra, é preciso combatermos o joio agora. A nossa tarefa não é cultivar o trigo em pequenos vasos. Ao arrancar o joio, limpamos o terreno e permitimos que o trigo possa crescer. E enquanto Atanásio Ivanovitch e Pulquéria Ivanovna se ocupam de culturas de quarto, devemos preparar os ceifeiros para que saibam arrancar hoje o joio, e colher amanhã o grão[1].

 Assim, nós não podemos, por meio da legalização, resolver o problema da criação de uma organização profissional o menos clandestina e o mais ampla possível (mas ficaríamos encantados se os Zubatov e os Ozerov nos oferecessem a possibilidade, mesmo parcial, de assim resolver o problema, para o que temos de os combater o mais energicamente possível). Resta-nos a via das organizações profissionais secretas, e devemos ajudar com todas as forças os operários que seguem já (sabe­mo-lo de fonte segura) por esta via. As organizações profissionais podem não ser somente extremamente úteis para desenvolver e reforçar a luta económica, como podem tornar-se, para além disso, num auxiliar precioso da agitação política e da organização revolucionária. Para chegar a esse resultado, para orientar o movimento profissio­nal nascente no caminho desejado pela social-democracia, é preciso antes de tudo compreender bem o absurdo do plano de organização que preconizam, já há cinco anos, os "economistas” de Petrogrado. Este plano foi exposto nos “Estatutos da Caixa Operária” (Julho de 1897 (List. "Rab", n.º 9-10, p. 46, - n.º 1 da Rabótchaia Mysl) e nos “Estatutos da Organização Operária Profissio­nal”, de Outubro de 1900 (folha especial, impressa em São Petersburgo e mencio­nada no n.º 1 do Iskra). Estes dois estatutos têm um defeito essencial: expõem todos os detalhes de uma vasta organização operária, que confundem com a orga­nização dos revolucionários. Tomemos os segundos estatutos, melhor elaborados. Compõem-se de 52 parágrafos: 23 parágrafos expõem a organização, o modo de gestão e os limites dos "círculos operários" organizados em cada fábrica ("10 homens no máximo") e elegendo os "grupos centrais (de fábrica)". "O grupo central observa tudo o que se passa na fábrica ou na oficina, e tem a seu cargo a crónica dos acontecimentos…"  (estabelece o §2). "O grupo central presta contas cada mês, a todos os quotizantes, do estado da caixa” (§ 17), etc.. 10 parágrafos são consagrados às "organizações de bairro”, e 19 às intrincadíssimas relações entre  "Comité de organização dos operários" e o "Comité da união de luta de São Petersburgo” (delegados dos bairros e dos "grupos executivos" ,  “grupos de propagandistas para as relações com a provín­cia e com o estrangeiro, para a gestão dos depósitos, das edições, da caixa").

A social-democracia = "grupos executivos", no que respeita à luta económica dos operários! Seria difícil demonstrar duma maneira mais evidente como o pensamento "economista" desvia a social-demo­cracia para o sindicalismo, como não se apercebe que o social-democrata deve, antes de tudo, pensar na organização de revolucionários capazes de dirigir toda a luta emancipadora do proletariado. Falar da "emancipa­ção política da classe operária", da luta contra "a arbitrariedade czarista" e redigir semelhantes estatutos, é não compreender nada, absolutamente nada, das verdadeiras tarefas políticas da social-democracia. Nenhum dos cinquenta pará­grafos mostra o menor traço de compreensão da necessidade de se fazer uma grande agitação política entre as massas, esclarecendo todos os aspectos do absolu­tismo russo do ponto de vista das diferentes classes sociais na Rússia. Além disso, com tais estatutos, as próprias finalidades sindicais do movimento, não falando dos fins políticos, são irrealizáveis, pois exigem uma organização por profissões que os estatutos não mencionam.

Mas o mais característico é talvez o peso extraordinário de todo este "sistema" que procura ligar cada fábrica ao "comité" por meio de uma série de regras uniformes, minuciosas até ao ridículo, e institui um sistema eleitoral em três graus. No estreito horizonte do "economismo", o pensamento perde-se em detalhes burocráticos. Na realidade, três quartos destes parágrafos nunca serão aplicados; em contrapartida, uma tal organização "clandestina", com um grupo central em cada fábrica, facilita consideravelmente à polícia acções extremamente vastas. Os camaradas polacos já passaram por esta fase do movimento; houve uma altura em que se entusiasmaram pelas caixas operárias; mas depressa renunciaram a elas, ao aperceberem-se que consistiam apenas em entregar ricas colectas à polícia. Se queremos amplas organizações operárias ao abrigo das rusgas da polícia, devemos fazê-las de forma que não sejam regulamentadas. Poderão, assim, funcionar? Conside­remos as seguintes funções: "Observar tudo o que se passa na fábrica e fazer a crónica dos acontecimentos" (§ 2 dos estatutos). É absolutamente necessário regulamentar essa função? O seu objectivo não será melhor atingido com correspondências para a imprensa ilegal, sem que grupos de qualquer espécie sejam especial­mente constituídos para esse fim? "... Dirigir a luta dos operários para melhoria da sua situação na fábrica" (§ 3). Mais uma vez, é inútil regulamentar. Todo o agitador que tenha um mínimo de inteligência apreenderá facilmente, por uma simples conversa, quais são as reivindicações que os operários querem apresentar, depois transmiti-las-á a uma organização restrita – e não ampla – de revolucionários que editará um panfleto apropriado. "...Criar uma caixa… com a contribuição de 2 copeques por rublo" (§ 9) e apresentar mensalmente, a todos os contribuintes, relatório do estado da caixa (§ 17); excluir os membros que não paguem a quota (§ 10), etc. Eis um verdadeiro paraíso para a polícia, pois nada lhes será mais fácil do que penetrar no segredo da "caixa central da fábrica", confiscar o dinheiro e encarcerar todos os melhores elementos. Não seria mais simples emitir selos de um ou dois copeques com o emblema de uma certa organização (muito restrita e muito secreta), ou ainda fazer colectas cujos resultados seriam dados num jornal ilegal numa linguagem convencionada? Alcançar-se-iam os mesmos objectivos, e seria cem vezes mais difícil para os polícias descobrirem a organização.

Poderia continuar esta análise dos estatutos, mas penso já ter dito o bastan­te. Um pequeno núcleo compacto, composto pelos operários mais seguros, mais experientes e melhor temperados, com homens de confiança nas principais áreas-chave, e ligados de forma rigorosamente clandestina à organização dos revolucio­nários, poderia perfeitamente, com a ajuda das massas e sem nenhuma regula­mentação, cumprir todas as funções duma organização profissional e cum­pri-las da forma mais desejável para a social-democracia. Só assim se poderá consolidar e desenvolver, apesar da polícia, o movimento profissional social-de­mocrata.

Pode-se objectar que uma organização lose ao ponto de não ter qualquer regulamento, sem membros declarados nem registados, possa ser qualificada de organização. Talvez: para mim o nome não tem importância. Mas esta "organização sem membros" fará tudo o que for necessário e assegurará desde o início uma sólida ligação entre os nossos futuros sindicatos e o socialismo. Os que desejam uma ampla organização de operários com eleições, relatórios, sufrágio universal, tudo isto sob absolutismo, são utopistas incuráveis.

A conclusão é simples: se começarmos por estabelecer uma forte organização de revolucionários, poderemos assegurar a estabilidade do movimento, realizar os objectivos social-democratas e os objectivos puramente sindicais. Mas, se começamos por constituir uma organização operária ampla, com o pretexto de que é mais "acessível" às massas (na realidade, é aos polícias que ela será mais acessível e, além disso, porá os revolucionários ao alcance da polícia), não atingiremos nenhum destes objectivos, não nos desembaraçaremos do amadorismo e com o nosso fraccionamento, e os nossos fracassos contínuos, não faremos senão tornar mais acessíveis às massas os sindicatos do tipo Zubatov e Ozerov.

Quais serão exactamente, as funções desta organização de revolucionários? Vamos dizê-lo. Mas primeiro examinaremos um outro raciocínio típico do nosso terrorista que, mais uma vez (triste destino o seu!), anda de braço dado com os economistas. A revista Svoboda (nº1) contém um artigo intitulado A Organização, cujo autor procura defender os seus amigos, os economistas operários de Ivanovo--Voznessensk.

"É uma pena”, diz ele, "quando uma multidão é silenciosa, inconsciente, quando um movimento não vem do fundo das massas. Vejam o que sucede quando os estudantes de uma cidade universitária, em época de festas ou durante o Verão, voltam a casa: o movimento operário fica suspenso. Será que um movimento operário estimulado do exterior pode ser uma verdadeira força? Evidentemente que não... Ainda não aprendeu a andar sozinho, anda amparado. O quadro é o mesmo em toda a parte: os estudantes partem, e o movimento cessa; os elementos mais capazes, a nata, são presos, e o leite azeda; preso o 'Comité', enquanto um novo não é formado, sobrevém a calmaria; mas ninguém sabe ainda como será o novo 'Comité'; talvez venha a ser muito diferente do anterior: este dizia uma coisa, o outro dirá o contrário. Rompeu-se a ligação entre ontem e hoje, a experiência do passado não beneficia o futuro. E tudo isto porque o movimento não tem raízes profundas na multidão; porque não é uma centena de imbecis, mas uma dezena de homens inteligentes quem faz o trabalho. É sempre fácil capturar uma dezena de homens, mas quando a organização engloba a multidão, quando tudo parte da multidão, é impossível destruir o movimento" (p. 63).

A descrição é correcta. Dá um bom quadro do nosso amadorismo. Mas as conclusões, pela sua falta de lógica e de tacto político, são dignas da Rabótchaia Mysl. É o cúmulo da falta de lógica, pois o autor confunde a questão filosófica e histórico-social das “raízes profundas” do movimento com a da organização técnica da luta contra a polícia. É o cúmulo da falta de tacto político, pois, em vez de apelar aos bons dirigentes contra os maus dirigentes, o autor apela à "multidão" contra os dirigentes em geral. É uma tentativa de nos fazer retroceder no que diz respeito à organização, do mesmo modo que a ideia de substituir a agitação política pelo "terror excitativo" nos faz retroceder politicamente. Isto é um verdadeiro embarras de richesses! Não sei por onde começar a análise do imbróglio que a Svoboda nos oferece. Para maior clareza, começarei por um exemplo: o dos alemães. Ninguém negará, espero, que a sua organização engloba a multidão, que entre eles tudo vem da multidão, que o movimento operário aprendeu a andar sozinho. Contudo, como esta multidão de vários milhões de homens aprecia a sua "dezena" de chefes políticos experimentados! Como se agarra a eles! Quantas vezes não ouviram já, os socialistas, os deputados dos partidos adversários provocatoriamente dizerem no Parlamento: "Bons democratas! O movimento da classe operária não existe entre vocês senão em palavras: na realidade, é sempre o mesmo grupo de chefes que faz tudo. Desde há anos, desde há dezenas de anos são Bebel e Liebknecht que dirigem. Os vossos delegados supostamente eleitos pelos operários, são mais inamovíveis que os funcionários nomeados pelo imperador!". Mas os alemães acolheram sempre com desdém estas tentativas demagógicas de opor a “multidão” aos “chefes», e para enfraquecer o movimento, sapando a confiança da massa para com a “dezena de homens inteligentes”. Os alemães estão suficientemente desenvolvidos politicamente, têm suficiente experiência política para compreender que, sem “uma dezena" de chefes de talento (os talentos não surgem às centenas), de chefes provados, profissionalmente preparados e instruídos por uma longa prática, e bem unidos entre si, não é possível a luta firme de qualquer classe na sociedade contemporânea. Os alemães também tiveram os seus demagogos, que adulavam as "centenas de imbecis” colocando-os acima das "dezenas de homens inteligentes"; que glorificavam o "punho possante" das massas, empurravam (como Most ou Hasselmann) as massas para acções "revolucionárias" irreflectidas, semeando a desconfiança em relação aos chefes firmes e resolutos. E foi apenas graças a uma luta tenaz, implacável, contra todos os elementos demagógicos que o socialismo alemão cresceu e se fortificou. Ora, no momento em que a social-democracia russa sofre uma crise devido à falta de dirigentes inteligentes e experimentados para as massas espontaneamente despertadas, os nossos sábios vêm dizer-nos com a profundidade de um Ivanushki "É uma pena quando um movimento não vem do fundo das massas"!

"Um comité de estudantes não nos convém, porque é instável". Perfeitamente correcto. Mas a conclusão a extrair é de que é preciso um comité de revolucionários profissionais, estudantes ou operários, pouco importa, desde que sejam capazes de se tornarem revolucionários profissionais. Ora, a vossa conclusão é que não é necessário estimular o movimento operário a partir do exterior! Na vossa ingenuidade, não reparam que assim fazem o jogo dos nossos "economistas" e fomentam o nosso amadorismo. Permitam-me colocar uma questão: como é que os nossos estudantes "estimularam" os nossos operários? Unicamente levando-lhes o pouco conhecimento político que tinham, fragmentos das ideias socialistas que puderam adquirir (porque o principal alimento espiritual do estudante contemporâneo, o marxismo legal, não lhe podia oferecer mais que o á-bê-cê, mais que fragmentos). E esse estímulo não foi considerável, ao contrário, esse estímulo foi escandalosa e vergonhosamente insignificante; até ao momento, não fizemos mais do que "cozinharmo-nos mais do que o necessário no nosso próprio molho", inclinando-nos servilmente perante a "luta económica dos operários contra os patrões e o governo". Nós, revolucionários profissionais, devemos ocupar-nos cem vezes mais desse "estímulo", e é o que faremos. Mas, é justamente porque vós empregais essa odiosa expressão, "estímulo do exterior", que inspira inevitavelmente no operário (pelo menos no operário tão pouco desenvolvido como vós) a desconfiança em todos os que lhe levam conhecimentos políticos e experiência revolucionária de fora, e suscita nele o desejo instintivo de repelir todas as pessoas desse tipo, que os senhores se mostram como demagogos, e os demagogos são os piores inimigos da classe operária.

Sim, é isso mesmo! E não vos apresseis a gritar contra os meus processos polémicos "desprovidos de camaradagem"! Não suspeito da pureza das vossas intenções; já afirmei que qualquer um pode tornar-se demagogo unicamente por ingenuidade política. Mas demonstrei que caíram em demagogia. E não deixarei de repetir que os demagogos são os piores inimigos da classe operária. Os piores porque acendem os maus instintos das massas, e é impossível aos operários não avançados reconhecer esses inimigos, que se apresentam e às vezes com sinceridade como amigos. Os piores porque, num período de dispersão e de hesitação, quando o nosso movimento ainda procura encontrar-se, não há nada mais fácil do que arrastar demagogicamente a multidão, a que só as provações mais amargas poderão, depois, convencer do erro. Eis por que a palavra de ordem do momento dos social-democratas russos é de combate impiedoso contra o inclinar para a demagogia da Svoboda e do Rabótcheie Dielo[2] (abaixo mais detalhes sobre o assunto).

"É mais fácil encarcerar uma dezena de homens inteligentes do que uma centena de imbecis". Este axioma (que vos trará sempre os aplausos de uma centena de imbecis) parece evidente unicamente porque, no curso do raciocínio, os senhores saltaram de uma questão para outra. Começaram a falar e continuam falando da captura do "Comité", da captura da "organização", e depois saltam para uma outra questão, a captura das "raízes profundas” do movimento. Naturalmente, o nosso movimento é indestrutível, porque tem inúmeras profundas raízes, mas não é disso que se trata. Mesmo agora, apesar de todo o nosso amadorismo, é impossível destruir as nossas "raízes profundas” e todavia deploramos, nem podemos deixar de deplorar, a captura de "organizações" que impede a continuidade do movimento. Ora, se colocais a questão da captura de organizações, e vos quedais nela, dir-vos-ei que é muito mais difícil capturar uma dezena de homens inteligentes do que uma centena de imbecis. E sustentarei esta tese por mais que façais para voltar a multidão contra meu "anti-democratismo", etc.. Por "homens inteligentes" em matéria de organização deve entender-se unicamente, como já indiquei inúmeras vezes, os revolucionários profissionais, estudantes ou operários, pouco importa. Ora, afirmo: 1º que não poderá haver um sólido movimento revolucionário sem uma organização de dirigentes que mantenha a continuidade no tempo; 2º que quanto mais numerosas são as massas espontaneamente conduzidas para a luta, formando a base do movimento e dele participando, mais urgente é uma tal organização, e mais sólida deve ser (senão, será fácil aos demagogos arrastar as camadas atrasadas das massas); 3º que esta organização deve ser composta principalmente de revolucionários profissionais; 4º que, num país autocrático, quanto mais confinarmos o efectivo da organização a revolucionários profissionais iniciados na luta contra a polícia política, mais difícil será "apanhar" tal organização; 5º e tanto mais numerosos serão os operários e os elementos das outras classes sociais, que poderão participar do movimento e nele militar activamente.

Que os nossos “economistas", os nossos terroristas, e os nossos "economis­tas-terroristas"[3] refutem, se puderem, estas propostas, das quais, neste momento, desenvolverei apenas as duas últimas. A questão de saber se é mais fácil capturar uma "dezena de homens inteligentes" ou uma "centena de imbecis" reconduz à questão que analisei mais acima: uma organização de massas é compatível com um regime estritamente clandestino? Jamais poderemos dar a uma vasta organi­zação o carácter clandestino indispensável para uma luta firme e continuada contra o governo. A concentração de todas as funções clandestinas nas mãos do menor número possível de revolucionários profissionais não significa de modo algum que estes últimos "pensarão por todos", que a multidão não participará acti­vamente no movimento. Pelo contrário, a multidão fará surgir um número cada vez maior de revolucionários profissionais, porque saberá que não basta que alguns estudantes e operários, que dirigem a luta económica, se reúnam para constituir um "comité", mas que é necessário formar pouco a pouco revolucionários profissionais; e a multidão não "pensará" unicamente no trabalho artesanal, mas nessa educação. A centralização das funções clandestinas da organização não implica de modo algum a centralização de todas as funções do movimento. Quando uma "dúzia" de revolucionários profissionais concentrar nas suas mãos a edição clandestina da literatura ilegal, a colaboração das massas nesta literatura, longe de diminuir, decuplicará. Nessa altura, a leitura das publicações ilegais, a colaboração das massas nessas publicações e mesmo a sua difusão, deixarão quase de ser clandestinas, pois a polícia compreenderá o absurdo e a impossibi­lidade de perseguições judiciárias e administrativas sobre cada instância de publi­cações dispersas aos milhares. E é assim, não só para a imprensa, mas para todas as funções do movimento, incluindo as manifestações. A participação mais activa e maior das massas em manifestações, longe de sofrer, ganhará mais se uma "dúzia" de revolucionários experimentados, e pelo menos tão bem preparados profissionalmente como a nossa polícia, centralizar todos os aspectos clandesti­nos: edição de panfletos, elaboração do plano aproximativo, nomeação de diri­gentes para cada bairro da cidade, cada grupo de fábricas, cada estabelecimento de ensino, etc. (Dir-se-á, já o sei, que os meus pontos de vista "nada têm de democrático", mas mais adiante refutarei em detalhe essa objecção estúpida). A centralização das funções mais clandestinas pela organização dos revolucionários, longe de enfraquecer, reforçará e alargará a acção de muitas outras organizações destinadas ao grande público e, por conseguinte, o menos regulamentadas e o menos clandestinas possível: sindicatos de operários, círculos operários de instru­ção e de leitura de literatura ilegal, círculos socialistas, círculos democráticos em todas as outras camadas da população, etc. etc. Estes círculos, sindicatos de operários e organizações são necessários em toda a parte; é necessário que sejam o mais numerosos possível e as suas funções o mais variadas possível; mas é absurdo e prejudicial confundi-las com a organização dos revolucioná­rios, apagar a linha de demarcação que existe entre elas, extinguir nas massas o sentimento já incrivelmente desafamado de que, para "servir" um movimento de massas, é necessário dispor de homens que se consagrem especial e integral­mente à acção social-democrata, e que se forgem paciente e tenazmente como revolucionários profissionais.

Sim, esse sentimento está incrivelmente esbatido. Com o nosso amadorismo, comprometemos o prestígio dos revolucionários na Rússia: eis o nosso principal erro em matéria de organização. Um revolucionário molenga e hesitante nos problemas teóricos, tacanho, justificando a sua inércia pela espontaneidade do movimento das massas, mais semelhante a um secretário de sindicato que a um tribuno popular, sem um plano de grande envergadura e audacioso que imponha respeito aos adversários, um revolucionário inexperiente e inábil na sua profissão — a luta contra a polícia política — poderá ser considerado um revolucionário? Não, não passa de um artesão patético.

Que ninguém se ofenda com este epíteto severo, pois no que diz respeito à impreparação, aplico-o primeiro a mim próprio. Trabalhei num círculo que queria cumprir tarefas muito amplas e múltiplas; todos nós, membros desse círculo, sofremos muito ao percebermos que não passávamos de grosseiros artesãos num momento histórico em que se poderia dizer, parafraseando uma velha máxima: dêem-nos uma organização de revolucionários e revolucionaremos a Rússia! E quanto me lembro do sentimento de vergonha que então experimentei, sinto aumentar em mim a amargura contra estes pseudo-social-democratas, cuja propaganda "desonra o título de revolucionário", e que não compreendem que a nossa tarefa não é rebaixar o revolucionário ao nível do artesão, mas elevar o artesão ao nível do revolucionário.

 

d) Envergadura do trabalho de organização 

Como vimos, B-v fala da "insuficiência de forças revolucionárias próprias para a acção, que se faz sentir não apenas em S. Petersburgo, mas em toda a Rússia". Creio que não haverá ninguém capaz de contestar este facto. Mas, como explicá-lo? B-v escreve:

"Não procuraremos aprofundar as razões históricas deste fenómeno; diremos somente que, desmoralizada por uma reacção política prolongada e dividida pelas alterações económicas contínuas, a sociedade não fornece senão um número muito reduzido de pessoas aptas para o trabalho revolucionário; diremos que a classe operária completa em parte as fileiras das organizações ilegais, mas o número de revolucionários que fornece não responde às necessidades da época. As funções que o operário. ocupado onze horas e meia por dia na fábrica, pode desempenhar em virtude dessa situação, é a de agitador; já a propaganda e a organização, a reprodução e a distribuição de literatura ilegal, a publicação de proclamações etc., ficam forçosamente a cargo de um número ínfimo de intelectuais" (Rabótcheie Dielo, n.º6, p. 38-39).

Em relação a muitos destes pontos não estamos de acordo com B-v, especi­al­mente aquele que sublinhámos que mostra indubitavelmente que, tendo sofrido muito por causa do nosso trabalho artesanal (tal como todo o militante que pensa um pouco) B-v não consegue encontrar, dentro do "economismo", um meio de sair dessa situação intolerável. Não, a sociedade fornece um número extremamente grande de pessoas aptas para a "causa", mas nós não sabemos utilizá-las todas. O estado crítico transitório do nosso movimento, neste aspecto, pode ser assim for­mulado: há uma multidão mas não há homens. Há uma multidão, porque a classe operária e camadas cada vez mais variadas da sociedade fornecem, a cada ano, um número sempre maior de descontentes, desejosos de protestar e prontos a participar na luta contra o absolutismo, cujo jugo intolerável, ainda não reconhe­cido por todos, é cada vez mais vivamente sentido por um número crescente de pessoas. Mas, ao mesmo tempo, não há homens, porque não há dirigentes, chefes políticos, talentos capazes de organizar um trabalho simultaneamente amplo, coordenado e harmoni­oso, permitindo a aplicação de todas as forças, mesmo as mais insignifi­cantes. "O crescimento e o desenvolvimento das organiza­ções revolucionárias" estão atrasados não só em relação ao crescimento do movimento operário — como reconhece o próprio B-v —, mas ainda em relação ao crescimento do conjunto do movimento democrático em todas as camadas do povo. (Aliás, é provável que hoje B-v subscre­vesse esta extensão da sua conclu­são). O quadro do trabalho revolucio­nário é demasiado reduzido para a base espontânea do movimento, demasiado comprimido pela infeliz teoria da "luta económica contra os patrões e o governo". Ora, actual­mente, não são só os agita­dores políticos, mas também os social-demo­cratas orga­nizadores que devem "ir a todas as classes da população"[4]. Os social-democratas podem repartir perfeita­mente as funções múltiplas do trabalho de orga­nização entre os representantes das classes mais diversas, nenhum militante, creio eu, duvidará disso. A falta de especialização, que B-v deplora amargamente e com tanta razão, é um dos maio­res defeitos da nossa técnica. Quanto menores forem as diferentes "operações" da causa comum, mais pessoas se encontrarão capazes de as executar (e comple­tamente incapazes, na maioria dos casos, de se tornarem revolucionários profis­sionais), mais difícil será à polícia "lançar a mão" sobre todos os "militantes parci­ais", e mais difícil será constituir, com um delito insignificante, um "caso" impor­tante que justifique as despesas do Estado com a "segurança". Quanto ao número de pessoas prontas a prestar a sua ajuda, assinalámos no capítulo ante­rior, a alte­ração considerável que se operou a esse respeito nos últimos cinco anos. Mas, por outro lado, para agrupar todos esses elementos e não fragmentar o próprio movi­mento juntamente com as funções do movimento, para insuflar ao executor de uma pequena tarefa a fé na necessidade e na importância do seu trabalho, confi­ança sem a qual ele não fará nada[5], é necessária uma forte organização de revolu­cionários experimentados. Com tal organização, a confiança na força do partido será fortale­cida e expandir-se-á tanto mais intensamente quanto mais clan­destina for a organi­zação; ora, na guerra, o que importa não é só incutir no exército a confiança nele próprio, mas também impressionar o inimigo e os elementos neutros, porque uma neutralidade amistosa pode decidir o sucesso. Com uma tal organização, as­sente numa base teórica firme e dispondo de um órgão social-de­mo­crata, não há que recear que os numerosos elementos "de fora" que tenham aderido ao movi­mento o possam desviar. (Pelo contrário, é agora com o trabalho artesanal a reinar entre nós, que vemos muitos social-democratas a orientar o movimento para a linha do Credo, imaginando que só eles são social-democratas). Numa palavra, a especi­alização pressupõe e implica necessariamente a centralização.

Mas o próprio B-v, que tão bem mostrou a necessidade da especialização, não aprecia, segundo parece, o valor da segunda parte do raciocínio citado. O número de revolucionários provenientes dos meios operá­rios é insuficiente, diz ele. Esta observação é perfeitamente justa, e mais uma vez sublinhamos que a "preci­osa informação dum observador directo" confirma intei­ramente o nosso ponto de vista sobre as causas da crise actual da social-demo­cracia e, portanto, sobre os meios de a remediar. Não são só os revolucioná­rios em geral, mas também os operários revo­lucionários que estão atrasados em relação ao movimento espontâ­neo das massas operárias. Ora, este facto confirma com clareza, mesmo do ponto de vista "prático", o absurdo e o carácter político reaccio­nário da "pedagogia" que nos é muitas vezes ministrada a propósito dos nossos deveres para com os operários. Atesta que a nossa primeira obrigação é de contribuir para a formação de revolucionários operá­rios que, do ponto de vista da sua actividade no partido, estejam no mesmo nível dos revolucionários intelectuais. (Sublinhamos "do ponto de vista da sua actividade no Partido”, porque no que se refere a outros campos não é tão fácil nem tão neces­sário que os operários atinjam um tal nível). Por isso devemos dedicar-nos princi­palmente a elevar os operários ao nível dos revolucionários, e não baixar os revo­lucionários ao nível da "massa operária", como o querem os "economistas", ou ao nível do "operário médio" como o quer a Svoboda (que a este respeito, eleva ao quadrado a "pedagogia" economista). Longe de mim negar a necessidade de uma literatura popular para os operários, e particularmente popular (mas não vulgar) para os operários mais atrasados. Mas o que me revolta, é esta caldeação contínua da pedagogia com problemas políticos e de organização. Porque, no fundo, vós, senho­res campeões do "operário médio", ofendeis esse ope­rário sempre que vos curvais perante ele, ao invés de lhe falar­des de política operária ou de organização operária. Falai mas é de coisas sérias, endireitai-vos e deixai a pedagogia aos pedagogos, que não é tarefa de políticos e organizadores! Será que entre os intelectuais não há também elementos avança­dos, "médios" e "massas"? Não reconhecem todos a necessidade de uma litera­tura popular para os intelectuais? E não se publica essa literatura? Suponhamos que, num artigo sobre a organização dos estudantes univer­sitários e liceais, o autor, em tom de quem faz uma grande descoberta, anuncia que o que é necessá­rio antes de tudo, é uma organização de "estudantes médios". Rir-se-iam dele e com razão. E poderão pedir-lhe: dê-nos algumas ideias sobre a orga­nização, se é que as tem, que nós veremos quais são os elementos “médios”, supe­riores e infe­riores. Mas se não tiver ideias próprias sobre organi­zação, todos os seus discursos sobre "a massa" e sobre os elementos "médios" serão simplesmente fasti­diosos. Portanto, as questões de "política" e de "organiza­ção" são em si mesmas tão sérias, que só podem ser tratadas seriamente: pode-se e deve-se preparar os ope­rários (assim como os estudantes universitários e liceais) de modo a poder discutir com eles estas questões, mas uma vez abordadas, dê-se-lhes respostas verdadei­ras, não se faça marcha atrás, não se fale mais de "médios" ou da "massa", não se tente eliminar o problema com observações brincalhonas e frases[6].

Para se preparar completamente para essa tarefa, o operário revolucionário deve tornar-se também um revolucionário profissional. É por isso que B-v erra ao dizer que, estando o operário ocupado durante onze horas e meia na fábrica, as funções revolucionárias (salvo a agitação) "ficam forçosamente a cargo de um número ínfimo de intelectuais". Não é "forçosamente", mas devido ao nosso estado atrasado que as coisas são assim; é porque não compreendemos o nosso dever de ajudar todos os operários capazes a tornarem-se agitadores, organizadores, propagandistas, redeiros profissionais, etc., etc.. Neste aspecto, desperdiçamos vergonhosa­mente as nossas forças, não sabemos cuidar do que tem de ser culti­vado e desenvolvido com o maior desvelo. Reparai nos alemães: têm cem vezes mais força que nós, mas compreendem perfeitamente que os operários "médios" só raramente forne­cem agitadores capazes, etc.. É por isso que se esforçam por pôr imediatamente todo o operário talentoso em condi­ções de desenvolver e apli­car a fundo as suas aptidões; fazem dele um agitador profissional, encorajam-no a alargar o seu campo de acção, a estendê-lo de uma única fábrica a toda a profis­são, de uma localidade a todo o país. Assim, adquire experiência e habilidade profissionais, alarga os seus conhecimentos e o seu horizonte, observa de perto os chefes políticos eminen­tes das outras localidades e dos outros partidos, esforça-se por os igualar e aliar o conhecimento do meio operário e o ardor das convicções socialistas à competência profissional, sem a qual o proletariado não pode travar uma luta tenaz contra um inimigo perfeitamente preparado. Foi assim, e só assim, que os Bebel e os Auer surgiram da massa operária. Mas o que se faz mais ou menos naturalmente num país poli­ticamente livre, entre nós deve ser feito siste­maticamente pelas nossas organizações. Todo o agitador operário talentoso em quem se "deposite esperanças", não deve trabalhar na fábrica 11 horas por dia. Devemos arranjar maneira de ele viver por conta do partido, de poder passar à acção clandestina, quando for necessário, de mudar de localidade, pois, de outro modo, não adquirirá grande experiência, não alargará o seu horizonte, não se manterá sequer por alguns anos na luta contra a polícia. Quanto mais o entusi­asmo espontâneo do movimento operário se reforça e alarga, tanto mais as massas operárias fornecem não só agitadores, mas também organizadores e pro­pagandistas de talento e "práticos" no bom sentido (tão pouco numerosos entre os nossos intelectuais, na sua maioria ao estilo russo, amorfos e indolentes). Quando tivermos equipas de operários revolucionários especialmente preparados por uma longa aprendizagem (e, está claro, de "todas as armas" da acção revolucionária) nenhuma polícia do mundo poderá derrubá-los, porque estes homens consagrados à revolução possuirão igualmente a confiança ilimitada das massas operárias. E somos culpados por não "estimular" suficientemente os operários para a sua aprendizagem de revolucionário profissional, comum a eles e aos intelectuais, fazendo-os recuar com discursos estúpidos sobre o que é "acessível" às massas operárias, aos "operários médios", etc.

 Neste, como noutros aspectos, o reduzido alcance do nosso trabalho de organização é devido directamente ao facto (embora a imensa maioria dos "econo­mistas" e dos práticos novatos não tenham consciência disso) de restringirmos o âmbito da nossa teoria e das nossas tarefas políticas. O culto da espontaneidade faz com que temamos afastar-nos do que é "acessível" às massas, e elevarmo-nos além da satisfação das suas necessidades imediatas. Não tenhais medo, senho­res! Lembrem-se que em matéria de organização temos um nível tão baixo que é até absurdo pensar que possamos subir demasiado alto!

 

IV Parte - 3

[1] A luta do Iskra contra o joio deu lugar da parte do Rabótcheie Dielo a esta saída indignada: “Para o Iskra não são estes grandes acontecimentos da Primavera que são importantes, mas as miseráveis tentativas dos agentes de Zubatov para legalizar o movimento operário. O Iskra não vê que estes factos falam precisamente contra ela; atestam com efeito que o movimento operário tomou proporções ameaçadoras aos olhos do governo” (Dois congressos, pág 27). O erro está sempre no “dogmatismo” destes ortodoxos “surdos perante os imperativos da vida”. Recusam-se a ver o trigo da altura de um metro para fazer guerra ao joio de um centímetro! Não é isto uma “deformação da perspectiva do movimento operário russo” (Ibidem, pág. 27)? – Lenine

[2] Tudo o que dissemos a respeito do estímulo do exterior e dos raciocínios da Svodoba sobre organização aplica-se inteiramente a todos os economistas e partidários do Rabótcheie Dielo porque aderiam a este ponto de vista sobre as questões de organização ou o defenderam e difundiram. – Lenine.

[3] Este termo seria talvez mais justo que o precedente no que se refere à Svoboda, porque no Renascimento do espírito revolucionário defende-se o terrorismo e, no artigo em questão, o "economismo". "As uvas estão verdes", pode-se dizer em geral da Svoboda. A Svoboda tem excelentes aptidões e as melhores intenções, e, no entanto, só consegue espalhar a confusão. A razão é que, pregando a continuidade da organização no tempo, a não quer reconhecer a necessidade da continuidade do pensamento revolucionário e da teoria social-democrata. Esforçar-se por ressuscitar o revolucionário profissional (o Renascimento do espírito revolucionário) através, primeiro, do terror excitativo e, em seguida, da “organização dos operários médios” (Svoboda n.º 1, p. 66 e seguintes) o menos "estimulados de fora" possível, é na realidade demolir a própria casa para ter madeira para a aquecer. – Lenine.

[4] Assim, entre os militares, observa-se ultimamente uma acentuação considerável do espírito democrático, parcialmente devido aos combates de rua contra “inimigos” como os operários e os estudantes. E, desde que as nossas forças nos permitam, devemos prestar a mais séria atenção à propaganda e agitação entre os soldados e oficiais, à criação de organizações militares afectas ao nosso partido. – Lenine.

[5] Um camarada contou-me uma vez que um inspector de fábrica, que tinha ajudado a social-democracia e estava pronto a continuar a fazê-lo, se queixava amargamente de não saber se as suas “informações” chegavam a um verdadeiro organismo revolucionário central, se a sua ajuda era necessária e em que medida podia ser utilizada. Todo o militante dedicado ao trabalho prático poderá citar casos semelhantes em que a nossa falta de organização nos fez perder aliados. Ora, os empregados e os funcionários das fábricas, dos correios, dos caminhos de ferro, da alfândega, da nobreza, do clero e de todas as instituições, até mesmo da policia e do Tribunal, poderiam prestar-nos e prestar-nos-iam “pequenos-serviços que no total seriam de um valor incalculável”! Se já tivéssemos um verdadeiro partido, uma organização combativa de revolucionários, não nos precipitaríamos a utilizar todos esses “auxiliares”, não teríamos pressa em conduzi-los para a "acção clandestina"; pelo contrário, prepararíamos especialmente homens para estas funções, recordando que muitos estudantes poderiam ser mais úteis ao partido como funcionários "auxiliares" do que como revolucionários de "curto prazo". Mas, repito, só uma organização sólida, e que não faltem forças activas, tem o direito de aplicar essa táctica. – Lenine.

[6] Svoboda n.º 1, artigo "A Organização", p. 66: "As massas operárias apoiarão todas as reivindicações que forem formuladas em nome do Trabalho da Rússia" (naturalmente, Trabalho com maiúscula). E o autor exclama: "Não sou absolutamente nada hostil aos intelectuais, mas"... (e é este mas que Chendrine traduziu pelo ditado: não se salta mais alto que as orelhas!). ... "mas quando alguém me vem dizer  uma série de coisas bonitas e exige que eu as aceite pela sua (desse alguém?)  beleza e outras virtudes, fico sempre terrivelmente furioso. " (p. 62). Eu também "fico sempre terrivelmente furioso"... – Lenine.


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publicado por portopctp às 18:58
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