de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Sábado, 10 de Novembro de 2007
Que fazer? - Anexo: sobre a unificação do Iskra e do Rabótcheie Dielo

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Conclusão

 

Resta-nos analisar a táctica que o Iskra adoptou e sistematicamente praticou nas relações de organização com o Rabótcheie Dielo, táctica que já foi perfeitamente explicada num artigo dos Iskra, no nº 1, sobre a "Cisão da União dos Social-Democratas Russos no Estrangeiro". Adoptámos imediatamente o ponto de vista de que a verdadeira "União dos Social-Democratas Russos no Estrangeiro", reconhecido no primeiro congresso do nosso Partido pelo delegado no estrangeiro, se cindiu em duas organizações; que a questão da representação do Partido permanece aberta, sendo resolvida apenas provisória e condicionalmente pelo facto de dois membros representantes da Rússia terem sido designados para o Conselho Socialista Internacional Permanente, um por cada parte da "União" dividida. Declarámos que, no fundo, o Rabótcheie Dielo estava errado, deliberadamente nos colocámos, por princípio, ao lado do grupo "Libertação do Trabalho" e, recusando ao mesmo tempo entrar nos detalhes da cisão, assinalámos o mérito da "União" em relação ao trabalho puramente prático[1].

A nossa posição, portanto, era até certo ponto uma posição de expectativa: concordáramos com a opinião que dominava entre a maioria dos social-democratas russos — de que mesmo os inimigos mais declarados do "economismo" podiam trabalhar de mãos dadas com a "União", tendo esta proclamado mais de uma vez a sua concordância de princípios com o grupo "Libertação do Trabalho", sem pretender (parecia), afirmar o seu carácter de independência nas questões fundamentais da teoria e da táctica. A correcção da posição que adoptámos foi confirmada, indirectamente, pelo seguinte facto: quase ao mesmo tempo que aparecia o primeiro número do Iskra (Dezembro de 1900), três membros separavam-se da "União" para formar o que se chamou "Grupo de Iniciadores", e dirigiram-se: 1. à secção do estrangeiro da organização do lskra, 2. à organização revolucionária "social-democrata" e 3. à "União", para oferecer a sua mediação nas negociações de reconciliação. As duas primeiras organizações concordaram imediatamente, a terceira recusou. A verdade é que quando um orador expôs estes factos no congresso de "unificação" do ano passado, um membro da administração da "União" declarou que tal recusa se devia exclusivamente ao facto de a "União" estar descontente com a composição do "Grupo de Iniciadores". Julgando ser meu dever participar nessa explicação, não posso, contudo, deixar de notar, da minha parte, que considero tal explicação insuficiente: conhecendo o acordo das duas organizações para estabelecer as conversações, a "União" poderia dirigir-se a elas, através de outro intermediário ou directamente.

Na Primavera de 1901, a Zaria (nº 1, Abril) e o Iskra (nº 4, Maio) deram início a uma polémica directa contra o Rabótcheie Dielo. O Iskra atacou sobretudo a "Viragem Histórica" do Rabótcheie Dielo que, na sua edição de Abril e portanto depois dos acontecimentos da Primavera, se mostrou hesitante quanto ao entusiasmo pelo terror e os apelos "sanguinolentos". Apesar dessa polémica, a "União" aceitou o reinício das negociações para a reconciliação através da mediação de um novo grupo de "conciliadores". Uma conferência preliminar, composta por representantes das três organizações acima citadas realizou-se no mês de Junho e elaborou um projecto de tratado na base de um "acordo de princípios", bastante detalhado, que a "União" fez imprimir na brochura "Documentos do Congresso de Unificação".

O conteúdo desse acordo de princípios (ou resoluções da conferência de Junho, como é chamado mais frequentemente) mostra com toda a clareza que colocávamos como condição expressa dessa Unificação, a negação definitiva de todas as manifestações de oportunismo em geral, e de oportunismo russo em particular. Diz o primeiro parágrafo: "Repudiamos qualquer tentativa de levar o oportunismo à luta de classe do proletariado, tentativa que está traduzida no que se chama de "economismo", bernsteinismo, millerandismo, etc." "A actividade da social-democracia compreende... a luta ideológica contra todos os adversários do marxismo revolucionário" (§ 4, letra c). "Em todas as esferas do trabalho de organização e de agitação, a social-democracia não deve perder de vista por nenhum instante a tarefa imediata do proletariado russo: o derrube da autocracia" (§ 5, letra a); ... "a agitação não apenas no campo da luta quotidiana dos assalariados contra o capital" (§ 5, b); "não reconhecendo... a fase da luta puramente económica e da luta pelas reivindicações políticas específicas" (§5, c); ... "consideramos importante para o movimento a crítica das tendências que erigem em princípio.... o carácter elementar e a estreiteza das formas internas do movimento" (§5, d). Mesmo a pessoa mais desinteressada, após ler com alguma atenção estas resoluções, verá pela própria maneira como foram formuladas, que visam aqueles que se mostraram oportunistas e "economistas"; que esqueceram, por um instante, a tarefa de derrubar a autocracia; que reconheceram a teoria dos estádios, erigida em princípio de estreiteza etc. E quem conhece, ainda que pouco, a polémica estabelecida contra o Rabótcheie Dielo pelo grupo "Libertação do Trabalho", a Zaria e o Iskra, não pode duvidar sequer um instante que essas resoluções rejeitam, ponto por ponto, exactamente os erros em que o Rabótcheie Dielo incorreu. Por isso, quando os membros da "União" declararam ao congresso de "unificação" que os artigos inseridos no 10 do Rabótcheie Dielo não eram consequência da nova "viragem histórica" da "União", mas, do carácter desmesuradamente "abstracto" das resoluções[2], um orador teve toda razão de zombar disso. As resoluções estão longe de ser abstractas, respondeu ele; são extremamente concretas; basta um simples olhar para compreender que se queria "apanhar alguém".

Esta última expressão daria origem, no congresso, a um episódio caracteriza­dor. De um lado, B. Kritchévski agarrou-se à palavra "apanhar", acreditando que se tratava de um lapso que denunciaria más intenções da nossa parte ("armar uma cilada"), e gritou pateticamente: "Quem é que se queria apanhar? — "Sim, quem?", perguntou Plekhanov, irónico. "Vou suprir a deficiência de perspicácia do camarada Plekhanov", respondeu B. Kritchévski, "vou-lhe explicar quem se queria apanhar: a redacção do "Rabótcheie Dielo" (riso geral). "Mas não nos deixamos apanhar!" (exclamações à esquerda: "pior para vocês!"). De outro lado, o membro do grupo "Borba" (grupo de conciliadores), falando contra as emendas da "União" às resolu­ções e desejoso de defender o nosso orador, declarou que a palavra "apanhar" tinha sem dúvida escapado por acaso, no fogo da polémica.

Da minha parte, imagino o que semelhante "defesa" custaria ao orador que fez uso da expressão. Penso que as palavras "queria-se apanhar alguém" "foram pronunciadas em tom de brincadeira, mas levadas a sério": sempre acusámos o Rabótchiei Dielo de instabilidade e vacilações. Portanto, é natural que se tenha tentado apanhá-lo, para tornar as vacilações impossíveis no futuro. Quanto às más intenções, tal não era a questão, pois tratava-se da instabilidade de princípios. E conseguimos "apanhar": a "União" assumiu tanta camaradagem[3] que as resoluções de Junho foram assinadas pelo próprio B. Kritchévski e um outro membro da administração da "União".

Os artigos do nº 10 do Rabótcheie Dielo (os nossos camaradas só puderam ver esse número quando chegaram ao congresso, alguns dias antes da abertura das sessões) mostraram nitidamente que, entre o Verão e o Outono, uma nova "viragem" ocorrera na "União": os "economistas" haviam tomado a dianteira, outra vez, e a redacção, que voga "ao sabor do vento", recomeçara a defender "os bernsteinianos mais declarados", a "liberdade de crítica" e a "espontaneidade", e a pregar pela boca de Martynov a "teoria da restrição" da esfera da nossa influência política com o objectivo de, pretensamente, acentuar essa influência). A justa observação de Parvus, de que não é difícil apanhar um oportunista com a armadilha de uma simples assinatura, mais uma vez foi confirmada: facilmente ele assinará qualquer papel, e com a mesma facilidade negará tal assinatura, pois o oportunismo contém em si exactamente a ausência de princípios determinados e firmes. Hoje os oportunistas repudiam qualquer tentativa de introduzir o oportunismo e todo o tipo de estreiteza, prometendo solenemente "não esquecer um só instante a derrube da autocracia", fazer "a agitação não só contra o capital" etc. etc. E amanhã mudarão o discurso e retomarão os velhos métodos sob o pretexto de defender a espontaneidade, a marcha progressiva da obscura luta quotidiana, exaltando as reivindicações que deixam entrever resultados tangíveis etc.. Continuando a afirmar que nos artigos do nº 10 a "União" não via, nem vê, qualquer digressão herética dos princípios gerais que fundamentaram o projecto da conferência (Dois Congressos, p. 26), manifesta assim apenas total incapacidade ou recusa de compreender a essência das divergências.

Após o nº 10 do Rabótcheie Dielo só nos resta mais uma única tentativa: esta­belecer uma discussão geral para nos certificarmos se toda a "União" está solidária com esses artigos e com seu comité de redacção. E é isto que desagrada particu­larmente à "União": acusa-nos de querermos semear a discórdia dentro dela, de nos intrometermos onde não somos chamados etc. Acusações gratuitas, evidentemente, pois com uma redacção eleita, que "vira" à mais ligeira brisa, tudo depende de que lado sopra a brisa, e nós determinámos tal orientação em privado, onde não havia senão membros das organizações que desejavam unir-se. A proposta feita em nome da "União" sobre as emendas às resoluções de Junho dissolveu a nossa última esperança de entendimento. Tais emendas confirmaram o facto de a nova "viragem" ser em direcção ao "economismo" e de a solidariedade da maioria da "União" ser com o nº 10 do Rabótcheie Dielo. Do conjunto dessas manifestações de oportunismo, eliminava-se o que se chama de "economismo" (por causa da preten­sa "indeterminação do sentido" dessas palavras embora disso decorra a necessida­de se definir com maior precisão a essência do erro amplamente difundido); elimi­nava-se também o "millerandismo" (embora B. Kritchévski o tenho defendido no Rabótcheie Dielo nº 2-3, p. 83-83, e de forma ainda mais explícita no Vorwärts[4]). Apesar das resoluções de Junho indicarem com precisão a tarefa da social-demo-cracia — "dirigir as menores manifestações da luta do proletariado contra todas as formas de organização política e opressão económica e social” — exigindo assim que a unidade e o espírito de método sejam levados a tais manifestações de luta, a "União" acrescentava frases completamente inúteis, dizendo que "a luta económica estimulava vigorosamente o movimento de massa" (essas palavras, em si mesmas, estão fora de discussão, mas devido à existência de um "economismo" estrei­to levariam inevitavelmente a falsas interpretações). Ainda mais, nas emendas às resoluções de Junho chegava-se a restringir a "política", eliminando-se as palavras "nem por um instante" (não se esqueça o objectivo do derrube da autocracia) e acrescentando que "a luta económica é o meio mais amplamente aplicável para integrar as massas na luta política activa". Compreende-se que, após a introdução destas emendas, todos os nossos oradores se tenham recusado a falar, considerando que era totalmente inútil prosseguir as negociações com homens que de novo tendiam para o "economismo" e asseguravam a liberdade de vacilação.

"O que a "União" considerou precisamente como a condição sine qua non da solidez do futuro acordo, isto é, a conservação do carácter de independência e de autonomia do Rabótcheie Dielo, o Iskra considerou como obstáculo para a realiza­ção desse mesmo acordo" (Dois Congressos, p. 25). Isto é por demais inexacto. Nunca atentámos contra a autonomia do Rabótcheie Dielo[5]. Efectiva­mente, negámos categoricamente o seu carácter independente, se por isso se entende o "carácter de independência" nas questões de princípio em matéria de teoria e de táctica: as resoluções de Junho implicam justamente a negação absoluta de tal independência, pois essa "independência" sempre significou na prática, repe­timos, todo o tipo de vacilações e o apoio ao estado de dispersão de forças em que nos encontramos, e que é insuportável do ponto de vista do Partido. Pelos artigos do nº 10 e pelas suas "emendas", o Rabótcheie Dielo demonstrou claramente o desejo de preservar essa independência de carácter; ora, esse desejo conduziu, natural e inevitavelmente, à ruptura e à declaração de guerra. Mas estávamos prontos a reconhecer "a independência de carácter" do Rabótcheie Dielo, no sentido de que devia dedicar-se a fundações literárias nitidamente determinadas. A distri­buição judiciosa dessas funções impunha-se por si própria: 1. revista científica, 2. jornal político, e 3. compilações e brochuras de divulgação. Só o facto de concordar com tal distribuição poderia provar o sincero desejo do Rabótcheie Dielo de acabar de uma vez por todas com os equívocos das resoluções de Junho, apenas tal distri­buição eliminaria os atritos eventuais e asseguraria de facto a solidez do acordo, servindo ao mesmo tempo de base a um novo impulso do nosso movimento e a novos sucessos.

Não existe um único social-democrata russo que duvide que a ruptura definiti­va da tendência revolucionária com a tendência oportunista se deveu não a causas de "organização", mas exactamente, ao desejo manifestado pelos oportunistas de consolidar o carácter de independência do oportunismo, e de continuar a lançar a confusão nos espíritos através dos raciocínios à la Kritchévski e à la Martynov.

 

Redigido no Outono de 1901-Fevereiro de 1902. Publicado pela primeira vez em brochura, em Março de 1902. 



[1] O conhecimento da literatura encontrava-se na base desse julgamento sobre a cisão, além das informações colectadas no estrangeiro por alguns membros de nossa organização que para lá se dirigiram. – Lenine.

[2] A afirmação foi retomada em Dois Congressos, p. 25. - Lenine

[3] Na verdade, dissemos na introdução às resoluções de Junho que a social-democracia russa, no conjunto, sempre se manteve dentro dos princípios do grupo "Libertação do Trabalho", e que o mérito da "União" consistiu sobretudo na sã actividade, nas publicações e na organização. Noutras palavras, afirmamos a nossa plena vontade de relegar para o esquecimento todo o passado e de reconhecer a utilidade (para a causa) do trabalho dos nossos camaradas da "União", sob a condição de fazerem cessar imediatamente as vacilações que era o que pretendíamos "apanhar". Qualquer pessoa imparcial que lesse as resoluções de Junho, compreenderia tais resoluções exactamente assim. Portanto, se a "União", após ter provocado a ruptura pela sua nova "viragem" para o economismo (nos artigos do nº 10 e nas emendas), acusa-nos solenemente de não dizer a verdade (Dois Congressos, p. 30) por essa lembrança a pelos seus próprios méritos, esta acusação naturalmente pode apenas provocar sorrisos. – Lenine.

[4] No Vorwärts foi iniciada uma polémica sobre isso, entre a redacção actual, Kautsky e a Zaria. Não deixaremos de tornar tal polémica conhecida dos leitores russos. – Lenine.

[5] Isto é, no caso das consultas editoriais relacionados com a criação de um conselho supremo conjunto das organizações combinadas não serem considerados como uma restrição à autonomia. E em Junho o Rabótcheie Dielo concordou com isso. – Lenine.


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publicado por portopctp às 19:45
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