de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2006
A questão judaica (II)

A capacidade dos actuais judeus e cristãos de serem livres (Die Fühigkeit der heutigen Juden und Christen, frei zu werden), Bruno Bauer Sob esta forma, Bauer trata a atitude da religião hebraica e cristã como sua atitude frente à crítica. A sua atitude diante desta é o seu comportamento em relação "à capacidade de ser livre". Donde se conclui: "O cristão só necessita de remontar-se a uma fase, à sua religião, para superar a religião em geral", isto é, para chegar a ser livre; "o judeu, pelo contrário, tem que romper não só com a sua essência judaica, mas também com o acabamento da sua religião, com um desenvolvimento que lhe permanece estranho" (p. 71). Como vemos, Bauer converte aqui o problema da emancipação dos judeus numa questão puramente religiosa. O escrúpulo teológico de quem possui melhores perspectivas de alcançar a bem-aventurança, se o judeu ou o cristão, repete-se agora de forma mais clara: qual dos dois é mais capaz de chegar a emancipar-se? A pergunta já não é certamente: o judaísmo ou o cristianismo tornam o homem livre?, mas, isto sim, a fórmula contrária: O que faz o homem mais livre, a negação do judaísmo ou a negação do cristianismo? "Se querem chegar a ser livres, os judeus não devem abraçar o cristianismo, mas a dissolução deste e da religião em geral, isto é, a ilustração, a crítica e seu resultado, a livre humanidade" (p. 70). Continua, para o judeu, a tratar-se de uma profissão de fé, que já não é, agora, a do cristianismo, mas a da dissolução deste. Bauer pede aos judeus que rompam com a essência da religião cristã, exigência que, como ele mesmo faz notar, não brota do desenvolvimento da essência judaica. Depois que Bauer, no final da Questão Judaica, concebera o judaísmo simplesmente como uma inexpressiva crítica religiosa do cristianismo, concedendo-lhe, assim, "somente" um significado religioso, era de se imaginar que também a emancipação dos judeus se converteria, para ele, num acto filosófico, teológico. Bauer concebe a essência abstrata ideal do judeu a sua religião, como toda sua essência. Daí concluir, com razão: "O judeu nada entrega à humanidade quando despreza a sua lei limitada", quando supera todo o seu judaísmo (p. 65) . A atitude de judeus e cristãos é. portanto, a seguinte: o único interesse do cristão pela emancipação do judeu é um interesse geral humano, um interesse teórico. Segundo a perspectiva religiosa do cristão, o judaísmo é um facto ultrajante. Logo que a sua perspectiva deixa de ser religiosa, deixa também este facto de ser ultrajante. A emancipação do judeu não é, pela sua natureza, tarefa para o cristão. Ao contrário, para libertar-se, o judeu tem que levar adiante não só a sua própria tarefa como, além disso e ao mesmo tempo, a tarefa do cristão, a Crítica dos Sinóticos, da Vida de Jesus, etc. "Eles mesmos devem abrir os olhos: seu destino está em suas próprias mãos; a história não permite que ninguém se omita" (p. 71). Nós tentamos romper a formulação teológica do problema. O problema da capacidade do judeu para se emancipar, converte-se, para nós, no problema de que elemento social específico vencer para superar o judaísmo. A capacidade de emancipação do judeu actual é a atitude do judaísmo frente à emancipação do mundo de hoje. Atitude que se deduz necessariamente da posição especial que ocupa o judaísmo no mundo escravizado dos nossos dias. Fixemo-nos no judeu real que anda pelo mundo; não no judeu sabático, como diz Bauer, mas no judeu quotidiano. Não vamos buscar o mistério do judeu na sua religião, mas, ao contrário, buscamos o mistério da religião no judeu real. Qual é o fundamento secular do judaísmo? A necessidade prática, o interesse egoísta. Qual é o culto secular praticado pelo judeu? A usura. Qual o seu Deus secular? O dinheiro. Pois bem, a emancipação da usura e do dinheiro, isto é, do judaísmo prático, real, seria a auto-emancipação de nossa época. Uma organização social que acabasse com as premissas da usura e, portanto, com a possibilidade desta, tornaria impossível o judeu. A sua consciência religiosa desanuviar-se-ia como um vapor turvo que pairava na atmosfera real da sociedade. Por outro lado, ao reconhecer como nula esta sua essência prática e ao trabalhar pela sua anulação, o judeu empenha-se, com o amparo do seu desenvolvimento anterior, na emancipação humana pura e simples e manifesta-se contra a suprema expressão prática da auto-alienação humana. Mas, reconhecemos no judaísmo a presença de um elemento anti-social de carácter geral, que o desenvolvimento histórico -que conta com a zelosa colaboração dos judeus - neste aspecto se encarregou de levar até o apogeu em que hoje se encontra e a partir de onde se tem que necessariamente dissolver . A emancipação dos judeus é, em última análise, a emancipação da humanidade do judaísmo. O judeu já se emancipou à maneira judaica. "O judeu que em Viena, por exemplo, pouco mais é que tolerado, determina, com seu poder monetário, a sorte de todo o império". Um judeu que careça de direitos no menor dos estados alemães, decide a sorte da Europa. "Enquanto as corporações e os grémios cerram suas portas ao judeu ou não se inclinam suficientemente até ele, a indústria, com intrepidez, ri-se da teimosia das instituições medievais" (B. Bauer, Judenfrage, p. 114). Este não é um facto isolado. O judeu emancipou-se à maneira judaica não só ao apropriar-se do poder do dinheiro como, também, porque o dinheiro se converteu, através dele e à sua revelia, numa potência universal, e o espírito prático dos judeus no espírito prático dos povos cristãos. Os judeus emanciparam-se na medida em que os cristãos se fizeram judeus. "O habitante devoto da Nova Inglaterra, politicamente livre", informa-nos por exemplo o coronel Hamilton, "é uma espécie de Laocoonte que não faz o menor esforço para se livrar das serpentes que o atormentam. Seu ídolo é Mammón, que adora não só com os lábios, mas com todas as forças do corpo e do espírito. A terra não é, a seus olhos, mais do que uma imensa bolsa, e estas pessoas estão convencidas de não ter outra missão neste mundo senão a de enriquecer mais que seus vizinhos. A usura quedou-se em todos os seus pensamentos; a sua única distração é ver como os objetos se transformam sob a sua acção. Quando viajam, levam às costas, de um lado para outro, por assim dizer, a sua loja ou o seu escritório, e só falam de interesses e de benefícios. E ao afastarem, por um momento, os olhos dos seus próprios negócios, o fazem para saber os dos outros". Mais ainda, o senhorio prático do judaísmo sobre o mundo cristão alcançou, na América do Norte, a expressão inequívoca e normal de que a prédica do próprio evangelho, do ensino da doutrina cristã, se converteu num artigo comercial e o negociante falido, que passou a comerciar com o evangelho, dedica-se agora aos seus negócios, tal como o evangelista enriquecido: "Tel que vous voyez à la tête d'une congrégation respectable a commencé par être marchand; son commerce étant tombé, il s'est fait ministre; cet autre a débuté par le sacerdoce, mais dês qu'il a eu quelque somme d'argent à sa disposition, il a laissé la chaire pour le négoce. Aux yeux d'un grand nombre, le ministère religieux est une véritable carrière industrielle" (1) (Beaumont, 1. c., p. 185-6). Segundo Bauer, é falso o facto de que, teoricamente, se negue ao judeu direitos políticos, enquanto que, na prática, possui imenso poder e exerce influência política por atacado, embora esta seja desdenhada a varejo (Judenfrage, p. 114). A contradição que existe entre o poder político prático do judeu e seus direitos políticos é a contradição entre a política e o poder do dinheiro em geral. Enquanto que a primeira predomina idealmente sobre a segunda, na prática dá-se justamente o contrário. O judaísmo manteve-se ao lado do cristianismo não só como crítica religiosa deste, como dúvida incorporada à origem religiosa do cristianismo, senão, também, porque o espírito prático judaico, porque o judaísmo se tem mantido nesta mesma sociedade cristã, adquirindo nela, inclusivé, o seu desenvolvimento máximo. O judeu, que aparece na sociedade burguesa como um membro especial, não é senão a manifestação específica do judaísmo da sociedade burguesa. O judaísmo não se tem conservado apesar da história, mas por intermédio desta. A sociedade burguesa engendra constantemente o judeu em suas próprias entranhas. Qual era o fundamento da religião hebraica? A necessidade prática, o egoísmo. O monoteísmo do judeu é, portanto, na realidade, o politeísmo das muitas necessidades, um politeísmo que converte até mesmo o vaso sanitário em objecto da lei divina. A necessidade prática, o egoísmo, é o princípio da sociedade burguesa e manifesta-se como tal em toda sua pureza da mesma maneira que a sociedade burguesa extrai totalmente de seu próprio seio o Estado político. O Deus da necessidade prática e do egoísmo é o dinheiro. O dinheiro é o Deus zeloso de Israel, diante do qual não pode legitimamente prevalecer nenhum outro Deus. O dinheiro humilha todos os deuses do homem e os converte em mercadoria. O dinheiro é o valor geral de todas as coisas, constituído em si mesmo. Portanto, despojou o mundo inteiro de seu valor peculiar, tanto o mundo dos homens como a natureza. O dinheiro é a essência do trabalho e da existência do homem, alienada deste, e esta essência estranha domina-o e é adorada por ele. O Deus dos judeus secularizou-se, converteu-se em Deus universal. A letra de câmbio é o Deus real do judeu. O seu Deus é somente a letra de câmbio ilusória. A concepção que se tem da natureza sob o império da propriedade e do dinheiro é o desprezo real, a degradação prática da natureza, que na religião hebraica existe, certamente, mas só na imaginação. Neste sentido, declara Thomas Münzer que é intolerável "que se tenham convertido em propriedade todas as criaturas, os peixes na água, os pássaros no ar e as plantas na terra, pois também a criatura deve ser livre". O que está implícito de modo abstrato na religião hebraica, é o desprezo da teoria, da arte, da história e do homem como fim em si, e do ponto de vista consciente, real, é a virtude do homem e da mulher, etc., converterem-se em objeto de comércio. A mulher é negociada. A nacionalidade quimérica do judeu é a nacionalidade do negociante, do homem de dinheiro em geral. A lei insondável e carente de fundamento do judeu não é senão a caricatura religiosa da moralidade e do direito em geral, carentes de fundamento e insondáveis, dos ritos puramente formais que circundam o mundo do egoísmo. Também aqui vemos que a atitude suprema do homem é a atitude legal, a atitude frente a leis que regulam a sua conduta não porque sejam leis de sua própria vontade e de sua própria essência, mas porque imperam e porque sua infração é punida. O jesuitismo judaico, este mesmo jesuitismo que Bauer põe de relevo no Talmude, é a atitude do mundo do egoísmo diante das leis que o dominam e cuja astuta alusão constitui a arte fundamental deste mundo. Mais ainda, o movimento deste mundo dentro de suas leis é, necessariamente, a abolição constante da lei. O judaísmo não pôde continuar a desenvolver-se como religião, a desenvolver-se teoricamente, porque a concepção do mundo da necessidade prática é limitada por natureza e reduz-se a umas tantas características. A religião da necessidade prática não podia, pela própria essência, encontrar sua consagração na teoria, mas somente na prática, precisa ... porque a prática é a sua verdade. O judaísmo não podia criar um mundo novo; só podia atrair as novas criações e as novas relações do mundo à órbita de sua engenhosidade, porque a necessidade prática, cujo cérebro é o egoísmo, conduz-se passivamente e não tem a faculdade de se ampliar, mas é ampliada pelo desenvolvimento sucessivo dos acontecimentos sociais. O judaísmo atinge seu apogeu com a consagração da sociedade burguesa; mas a sociedade burguesa só alcança a consagração no mundo cristão. Somente sob a égide do cristianismo, que converte em relações puramente externas para o homem todas as relações nacionais, naturais, morais e teóricas, a sociedade civil se podia chegar a separar totalmente da vida do Estado, romper todos os vínculos genéricos do homem, suplantar estes vínculos genéricos pelo egoísmo, pela necessidade egoísta, dissolver o mundo dos homens num mundo de indivíduos que se enfrentam uns aos outros atomística e hostilmente. O cristianismo brotou do judaísmo. E tornou a dissolver-se nele. O cristão foi, desde o primeiro instante, o judeu teórico; o judeu é, portanto, o cristão prático, e o cristão prático fez-se novamente judeu. O cristianismo só havia chegado a superar o judaísmo real na aparência. Era demasiado nobre, demasiado espiritualista para eliminar o rigor das necessidades práticas, a não ser elevando-se ao reino das nuvens. O cristianismo é o pensamento sublime do judaísmo, assim como o judaísmo é a aplicação prática vulgar do cristianismo. Porém, esta aplicação só poderia chegar a ser geral quando o cristianismo, como religião acabada, levasse a termo, teoricamente, a auto-alienação do homem de si mesmo e da natureza. Só então o judaísmo pôde impor seu império geral e alienar o homem alienado e a natureza alienada, convertê-los em coisas venais, em objetos entregues à sujeição da necessidade egoísta, à negociação e à usura. A venda é a prática da alienação. Assim como o homem - enquanto permanece sujeito às cadeias religiosas - só sabe expressar a sua essência convertendo-a num ser fantástico, num ser estranho a ele, assim também só poderá conduzir-se praticamente sob o império da necessidade egoísta, só poderá produzir praticamente objectos, colocando os seus produtos e a sua actividade sob o império de um ser estranho e conferindo-lhes o significado de uma essência estranha, o dinheiro. O egoísmo cristão da bem-aventurança transforma-se, necessariamente, na sua prática acabada, no egoísmo concreto do judeu, a necessidade celestial na terrena, o subjetivismo na utilidade própria. Não explicamos a tenacidade do judeu a partir da religião, mas do fundamento humano de sua religião, da necessidade prática, do egoísmo. O facto de a essência real do judeu se realizar e ter-se realizado de modo geral, na sociedade burguesa, explica por que esta mesma sociedade não pôde convencer o judeu da irrealidade de sua essência religiosa, que não é, cabalmente, senão a concepção ideal da necessidade prática. Não será, por conseguinte, no Pentateuco ou no Talmude, mas na sociedade actual que iremos encontrar a essência do judeu de hoje, do judeu que não se apresenta mais como aquele ser abstrato, mas como um ser altamente empírico, do mesmo modo que é na sociedade de nossos dias que se encontra a limitação do judeu e a limitação judaica da sociedade. O judeu tornar-se-á impossível logo que a sociedade consiga acabar com a essência empírica do judaísmo, com a usura e as suas premissas. O judeu será impossível porque a sua consciência carecerá de objecto, porque a base subjectiva do judaísmo, a necessidade prática, se terá humanizado, porque se terá superado o conflito entre a existência individual-sensível e a existência genérica do homem. A emancipação social do judeu é a emancipação da sociedade do judaísmo.

 

(1) Esse que aí veis à testa de uma respeitável corporação começou como comerciante; falindo seu negócio, fez-se sacerdote; este outro começou pelo sacerdócio, porém, ao dispor de certa quantia, abandonou o púlpito pelos negócios. Aos olhos de muitos, o ministério religioso é uma verdadeira carreira industrial.


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