de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Quinta-feira, 13 de Fevereiro de 2014
"Esquerdismo", a doença infantil do comunismo (I e II)

I

Em que sentido se pode falar da importância internacional da Revolução Russa?

Nos primeiros meses que se seguiram à conquista do poder político pelo proletariado na Rússia (25-X/7-XI de 1917) poderia parecer que, em virtude das enormes diferenças existentes entre a Rússia atrasada e os países adiantados da Europa Ocidental, a revolução proletária nesses países seria muito pouco semelhante à nossa. Actualmente dispõe-se já de considerável experiência internacional, a qual mostra definitivamente que certas características fundamentais da nossa revolução têm um significado não local, ou particularmente nacional, exclusivamente russo, mas internacional. Não me refiro a um significado internacional no sentido amplo da palavra, de que não são apenas alguns, mas todos os aspectos fundamentais, e muitos secundários, da nossa revolução que têm importância internacional quanto à influência que exercem sobre todos os países. Refiro-me ao sentido mais restrito da palavra, tomando-a no sentido da validade internacional ou da inevitabilidade histórica de uma repetição, numa escala internacional, do que ocorreu no nosso país. Deve-se admitir este valor para algumas das características fundamentais da nossa revolução.

Naturalmente, seria um erro grosseiro exagerar o alcance desta verdade, aplicando-a a outros aspectos da nossa revolução além de alguns dos fundamentais. Também seria errado não ter em conta que depois da vitória da revolução proletária, mesmo que seja em apenas um dos países adiantados, se produzirá, com toda certeza, uma radical transformação: a Rússia, logo depois disso, transformar-se-á não em país modelo, e sim, de novo, em pais atrasado (do ponto de vista “soviético” e socialista).

No momento histórico actual, porém, trata-se exactamente de que o exemplo russo ensina algo a todos os países, algo muito substancial, a respeito do seu futuro próximo e inevitável. Os operários evoluídos de todos os países já compreenderam isso há muito tempo e, mais que compreender, pressentiram-no com o seu instinto de classe revolucionária. Daí a “significado” internacional (no sentido estrito da palavra) do poder soviético e dos fundamentos da teoria e da táctica bolcheviques. Esse facto não foi compreendido pelos chefes “revolucionários” da II Internacional, como Kautsky na Alemanha e Otto Bauer e Friedrich Adler na Áustria, que, por isso, provaram ser reaccionários e defensores do pior oportunismo e traição social. A propósito, o folheto anónimo A Revolução Mundial (Weltre-revolution), publicado em 1919 em Viena (Sozialistische Bücherei, Heft II; Ignaz Brand), apresenta com particular clareza todo o processo de pensamento e todo o conjunto de raciocínios, ou melhor, todo o abismo de incompreensões, pedantismo, vilania e traição aos interesses da classe operária – e além disso, mascarado de “defesa” da ideia da “revolução mundial”.

Mas teremos de deixar para outra ocasião o exame mais pormenorizado desse folheto. Limitemo-nos aqui a mais um ponto: na época, já bem distante, em que Kautsky era um marxista e não um renegado, previa, ao abordar a questão como historiador, a possibilidade do surgimento de uma situação em que o espírito revolucionário do proletariado russo se converteria em modelo para a Europa Ocidental. Isso foi em 1902, quando Kautsky publicou na “Iskra” revolucionária o artigo “Os eslavos e a Revolução”. Eis o que escreveu nesse artigo:

 "Actualmente (ao contrário de 1848) parece que os eslavos não só incorporaram as fileiras dos povos revolucionários, como também, que o centro de gravidade das ideias e da acção revolucionárias se desloca cada vez mais para os eslavos. O centro revolucionário move-se de oeste para leste. Na primeira metade do século XIX encontrava-se em França e, por vezes, em Inglaterra. Em 1848, a Alemanha também se juntou às fileiras das nações revolucionárias... O novo século inicia-se com acontecimentos que sugerem a ideia de que caminhamos para um novo deslocamento do centro revolucionário: concretamente, da sua transferência para a Rússia... Rússia, que tendo tomado de empréstimo tanta iniciativa revo­lucionária do Ocidente, esteja hoje, ela própria, pronta para servir-lhe de fonte de energia revolucionária. O ardor actual do movimento revolucionário russo será, talvez, o meio mais poderoso para eliminar o espírito de filisteísmo flácido e de frio cálculo político que começa a difundir-se nas nossas fileiras e ressuscitará a chama viva do anseio de luta e da fidelidade apaixonada aos nossos grandes ideais. Há muito tempo que a Rússia deixou de ser para a Europa Ocidental um simples reduto da reacção e do absolu­tismo. A situação agora é, talvez, exactamente a oposta. A Europa Ocidental está a tornar-se o reduto da reacção e do absolutismo russos... É possível que os revolucionários russos já tivessem derrubado o czar há muito tempo se não fossem obrigados a lutar, ao mesmo tempo, contra o aliado deste, o capital europeu. Esperemos que desta vez consigam derrotar ambos os inimigos e que a nova “santa aliança" desmorone, mais rapidamente que as predecessoras. Contudo, seja qual for o resultado da luta actual na Rússia, o sangue e o sofrimento dos mártires que essa luta cria, infelizmente, em demasia, não terão sido em vão. Eles fecundarão os germes da revolução social em todo o mundo civilizado, fazendo-os crescer exuberante e rapidamente. Em 1848, os eslavos eram uma terrível geada que calcinava as flores da primavera popular. É bem possível que estejam agora destinados a cumprir o papel da tempestade que romperá o gelo da reacção e trará consigo irresistivelmente, uma nova e feliz primavera para os povos". (Karl Kautsky, Os eslavos e a revolução, artigo publicado na Iskra, jornal revolucio­nário da social-democracia russa, n.º 18, 10 de Março de 1902).

Como Karl Kautsky escrevia bem, há 18 anos!

II

Uma das condições fundamentais do êxito dos bolcheviques

Seguramente que hoje quase todo a gente percebe que os bolcheviques não poderiam ter-se mantido no poder, não dois anos e meio, mas tão-somente dois meses e meio, sem a disciplina severíssima, verdadeiramente férrea, dentro do nosso Partido, sem o apoio mais completo e abnegado prestado a este por toda a massa da classe operária, isto é, por tudo o que esta tem de consciente, honrado, abnegado, influente e capaz de conduzir com ela ou de atrair a si as camadas atrasadas.

A ditadura do proletariado é a guerra mais heróica e mais implacável da nova classe contra um inimigo mais poderoso, contra a burguesia, cuja resistência se decuplica com o seu derrubamento (ainda que num só país), e cujo poderio não reside apenas na força do capital internacional, na força e na solidez das relações internacionais da burguesia, mas ainda na força do costume, na força da pequena produção. Porque, infelizmente, ficou ainda no mundo muita e muita pequena produção, e a pequena produção engendra o capitalismo e a burguesia, cada dia, cada hora, de modo espontâneo e em massa. Por todos estes motivos, a ditadura do proletariado é indispensável, e é impossível vencer a burguesia sem uma guerra prolongada, tenaz, encarniçada, uma guerra de morte que exige serenidade, disciplina, firmeza, e uma vontade única e inflexível.

A experiência da ditadura proletária triunfante na Rússia, repito mais uma vez, mostrou claramente, a quem não sabe pensar ou a quem não teve oportunidade de reflectir sobre este problema, que a centralização incondicional e a disciplina mais severa do proletariado constituem uma das condições fundamentais da vitória sobre a burguesia.

Fala-se disso com frequência. Mas não se medita suficientemente sobre o que isso significa nem sobre as condições em que isso se torna possível. Não conviria que as saudações entusiásticas ao Poder dos Sovietes e aos bolcheviques fossem acompanhadas, mais frequentemente, pela mais séria análise das razões pelas quais os bolcheviques foram capazes de forjar a disciplina necessária ao proletariado revolucionário?

O bolchevismo existe como corrente do pensamento político e como partido político desde 1903. Somente a história do bolchevismo em todo o período de sua existência é capaz de explicar satisfatoriamente as razões pelas quais ele foi capaz de forjar e manter, nas mais difíceis condições, a disciplina férrea necessária à vitória do proletariado.

A primeira pergunta que surge é a seguinte: como se mantém a disciplina do partido revolucionário do proletariado? Como se verifica? Como se fortalece? Em primeiro lugar, pela consciência de classe da vanguarda proletária e pela fidelidade à revolução, pela firmeza, espírito de sacrifício, heroísmo. Em segundo lugar, pela capacidade de ligar-se, aproximar-se e, até certo ponto, se quiserem, de fundir-se com as mais amplas massas trabalhadoras, antes de tudo com as massas proletárias, mas também com as massas trabalhadoras não proletárias. Em terceiro lugar, pela justeza da liderança política exercida por essa vanguarda, pela justeza da sua estratégia e da sua táctica políticas, com a condição de que as mais amplas massas vejam isso a partir da sua própria experiência. Sem estas condições é impossível alcançar a disciplina de um partido revolucionário realmente capaz de ser o partido da classe avançada, cuja missão é derrubar a burguesia e transformar toda a sociedade. Sem estas condições, os propósitos de implantar uma disciplina convertem-se, inevitavelmente, em ficção, em frases sem significado, em gestos grotescos. Mas, por outro lado, estas condições não podem surgir de repente. Somente se vão formando por um trabalho prolongado e árdua experiência; a sua formação é facilitada por uma teoria revolucionária correcta que, por sua vez, não é um dogma e só se forma de modo definitivo em estreita ligação com a experiência prática de um movimento verdadeiramente de massas e verdadeiramente revolucionário.

Se o bolchevismo foi capaz de desenvolver e implementar com êxito, nos anos de 1917/1920, em condições de inaudita dificuldade, a mais rigorosa centralização e uma disciplina férrea, deve-se simplesmente a uma série de particularidades históricas da Rússia.

Por um lado, o bolchevismo surgiu em 1903 fundamentado na mais sólida base da teoria marxista. E a justeza dessa teoria revolucionária – e de nenhuma outra – foi demonstrada tanto pela experiência internacional de todo o século XIX como, em particular, pela experiência dos desvios, vacilações, erros e desilusões do pensamento revolucionário na Rússia. No decurso de quase meio século, aproximadamente de 1840 a 1890, o pensamento de vanguarda na Rússia, sob o jugo do terrível despotismo do czarismo selvagem e reaccionário, procurava avidamente uma teoria revolucionária justa, acompanhando com zelo e atenção admiráveis cada “última palavra” da Europa e da América nesse terreno. A Rússia alcançou o marxismo, como única teoria revolucionária justa, pelo sofrimento de meio século de tormentas incomparáveis e sacrifícios, de heroísmo revolucionário nunca visto, de incrível energia e abnegada pesquisa, de estudo, avaliação prática, desilusões, comprovação e comparação com a experiência europeia. Graças à emigração forçada pelo czarismo, a Rússia revolucionária da segunda metade do século XIX contava, mais que qualquer outro país, com uma enorme riqueza de relações internacionais e excelentes conhecimentos de todas as formas e teorias do movimento revolucionário mundial.

Por outro lado, o bolchevismo, surgido sobre essa base teórica de granito, passou por 15 anos de história prática (1903/1917) que, pela sua riqueza de experiência, não tem igual no mundo. Nenhum país, no decurso desses quinze anos, passou, nem ao menos aproximadamente, por experiência revolucionária tão rica na sucessão rápida e variada das diferentes formas do movimento, legais e ilegais, pacíficas e tumultuosas, clandestinas e abertas, de círculos locais e de massas, parlamentares e terroristas. Em nenhum país esteve concentrada, em tão curto espaço de tempo, semelhante riqueza de formas, matizes, métodos de luta, de todas as classes da sociedade contemporânea, luta que, além disso e em consequência do atraso do país e da gravidade da opressão czarista, amadureceu com singular rapidez e assimilou com particular sofreguidão e eficiência a “última palavra” da experiência política americana e europeia.

(a seguir)



publicado por portopctp às 19:30
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