de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Quarta-feira, 12 de Março de 2014
"Esquerdismo", a doença infantil do comunismo (IX)

(início)

IX

O comunismo “de esquerda”, na Inglaterra

Na Inglaterra ainda não existe o Partido Comunista, mas entre os operários observa-se um movimento comunista jovem, amplo, poderoso, que cresce com rapidez e permite que se alimentem as mais radiosas esperanças. Há alguns partidos e organizações políticas, (“Partido Socialista Britânico”, “Partido Socialista Operário”, “Sociedade Socialista do Sul de Gales”, “Federação Socialista Operaría” que desejam fundar o Partido Comunista e que, para isso, já fazem negociações entre si. The Workers Dreadnought (t. VI, n.º. 48, de 21/11/1920), semanário da última das organizações citadas, dirigido pela camarada Sylvia Pankhurst, publicou um artigo escrito por ela, intitulado Rumo ao Partido Comunista. Nele está exposta a marcha das negociações entre as quatro organizações citadas para constituir um Partido Comunista único, baseado na adesão à III Internacional e no reconhecimento, em vez do parlamentarismo, do sistema soviético e da ditadura do proletariado. Acontece que um dos principais obstáculos para a criação imediata de um Partido Comunista único é a falta de unanimidade no que concerne à participação no parlamento e à adesão do novo Partido Comunista ao velho “Partido Trabalhista” oportunista, social-chauvinista e corporativista, integrado predominantemente por trade-unions. A “Federação Socialista Operária” e o “Partido Socialista Operário”[1]pronunciam-se contra a participação nas eleições parlamentares e no parlamento, e contra a adesão ao “Partido Trabalhista”, discordando quanto a isso de todos ou da maioria dos membros do Partido Socialista Britânico, que, é, na sua opinião, “a ala direita dos Partidos Comunistas“ na Inglaterra (pág. 5, artigo citado de Sylvia Pankhurst).

A divisão fundamental é, portanto, a mesma que na Alemanha, malgrado as enormes diferenças de forma em que se manifestam as divergências (na Alemanha essa forma é muito mais parecida “com a russa” que na Inglaterra), além de muitas outras circunstâncias. Examinemos os argumentos dos “esquerdistas”.

Ao falar da participação no parlamento, a camarada Sylvia Pankhurst alude a uma carta à Redacção do camarada W. Gallacher, publicada no mesmo número, o qual, em nome do “Conselho Operário da Escócia”, de Glasgow, escreve:

"Este Conselho é definidamente antiparlamentarista e está apoiado pela ala esquerda de várias organizações políticas. Representamos o movimento revolucionário na Escócia, que pretende criar uma organização revolucionária nas indústrias (nos diversos sectores da produção) e um Partido Comunista, baseado em Comités sociais, no país inteiro. Durante muito tempo altercamos com os parlamentares oficiais. Não achamos necessário declarar-lhes guerra abertamente e eles temem iniciar o ataque contra nós.

Semelhante estado de coisas, porém, não pode prolongar-se muito. Nós triunfamos em toda a linha.

Os membros de base do Partido Trabalhista Independente da Escócia têm uma repugnância cada vez maior pela ideia do parlamento, e quase todos os grupos locais são partidários dos Sovietes (no texto inglês emprega--se o termo russo) ou Conselhos Operários. Sem dúvida, isso tem considerá­vel importância para os senhores que consideram a política um meio de vida (como se fosse uma profissão) e põem em jogo todos os métodos para persuadir os seus membros a voltarem para o parlamentarismo. Os camara­das revolucionários não devem (todos os realces são do autor) apoiar esse bando. Nesse terreno, nossa luta será muito difícil. Um dos seus piores aspectos consistirá na traição daqueles cuja ambição pessoal é um motivo mais forte do que o interesse pela revolução. Qualquer apoio ao parlamenta­rismo equivale a contribuir para que o Poder caia nas mãos dos Scheidemann e Noske britânicos. Henderson. Clynes, & Cia são reaccionários irrecuperá­veis. O Partido Trabalhista Independente oficial cai, cada vez mais sob o controle dos liberais burgueses, que encontraram um refúgio espiritual no campo dos senhores MacDonald, Snowden e companhia. O Partido Traba­lhista Independente oficial é violentamente hostil à III Internacional, mas a massa é partidária dela. Apoiar, seja como for, os parlamentaristas oportu­nistas significa simplesmente fazer o jogo desses senhores. O Partido Socia­lista Britânico nada significa... Precisa-se é de uma boa organização revoluci­onária industrial e de um Partido Comunista que actue em bases claras, bem definidas, científicas. Se os nossos camaradas podem ajudar-nos a criar ambas as coisas, aceitaremos de bom gosto a ajuda; se não podem, por Deus, não se metam nisso, se não querem trair a Revolução apoiando os reaccionários, que tão cuidadosamente tratam de adquirir o "honroso" (?) (a interrogação é do autor) titulo de parlamentar e que ardem de desejos de demonstrar que são capazes de governar tão bem quanto os próprios “amos", os políticos de classe".

Esta carta à Redacção exprime admiravelmente, na minha opinião, o estado de espirito e o ponto de vista dos comunistas jovens e dos operários comuns que apenas começam a chegar ao comunismo. Esse estado de espírito é altamente consolador e valioso: é preciso saber apreciá-lo e apoiá-lo, porque sem ele seria para desanimar na vitória da revolução proletária na Inglaterra (e em qualquer outro país). É preciso conservar cuidadosamente e ajudar com toda a solicitude os homens que sabem expressar esse estado de ânimo das massas e suscitá-lo (pois muito amiúde ele permanece oculto, inconsciente, adormecido). Mas, ao mesmo tempo, é preciso dizer-lhes, clara e sinceramente que, por si só, esse espírito é insuficiente para dirigir as massas na grande luta revolucionária, e que esses ou outros erros em que podem incorrer ou incorrem os homens mais fiéis à causa revolucionária são capazes de prejudicá-la. A carta dirigida à Redacção pelo camarada Gallacher mostra de modo incontestável, o germe de todos os erros que cometem os comunistas “de esquerda” alemães e em que incorreram os bolcheviques “de esquerda” russos em 1908 e 1918.

O autor da carta está imbuído do mais nobre ódio proletário aos “políticos de classe “ da burguesia (ódio compreensível e susceptível de penetrar, por outro lado, não só nos proletários, como em todos os trabalhadores, todos os Kleinen Leuten (pequenos) para empregar a expressão alemã). Esse ódio de um representante das massas oprimidas e exploradas é, na verdade, o “princípio de toda a sabedoria”, a base de todo movimento socialista e comunista e dos seus êxitos. Mas o autor não leva em conta, pelo visto, que a política é uma ciência e uma arte que não caem do céu, que não se obtêm gratuitamente, e que se o proletariado quiser vencer a burguesia deve formar os seus próprios “políticos de classe” proletários, e de tal envergadura que não sejam inferiores aos políticos burgueses.

O autor compreendeu de modo admirável que não é o parlamento, e sim apenas os Sovietes operários que podem constituir o instrumento necessário do proletariado para atingir seus objectivos. E, naturalmente, quem até agora não compreendeu isso, é o pior dos reaccionários, mesmo que seja o homem mais culto, o político mais experiente, o socialista mais sincero, o marxista mais erudito, o mais honrado cidadão e chefe de família. Há, porém, uma questão que o autor não apresenta e nem sequer pensa que seja necessário apresentar; se se pode levar os Sovietes à vitória sobre o parlamento sem fazer com que os políticos pró-soviéticos entrem no parlamento, sem decompor o parlamentarismo estando dentro dele, sem preparar no interior do parlamento o êxito dos Sovietes no cumprimento de sua tarefa de acabar com o parlamento. Contudo, o autor exprime uma ideia absolutamente justa ao dizer que o Partido Comunista Inglês deve actuar em bases científicas. A ciência exige, em primeiro lugar, que se leve em conta a experiência dos demais países, sobretudo se esses países, também capitalistas, passam ou passaram há pouco por uma experiência bastante parecida; em segundo lugar, exige que se levem em conta todas as forças, todos os grupos, partidos, classes e massas que actuam dentro do pais considerado, em vez de determinar a política baseando-se exclusivamente nos desejos e opiniões, no grau de consciência e de preparação para a luta de um só grupo ou partido.

É certo que os Henderson, Clynes, MacDonald e Snowden são reaccionários irrecuperáveis. E também é certo que querem tomar o Poder (ainda que prefiram a coligação com a burguesia), que querem “governar”, de acordo com as rançosas normas burguesas e que, uma vez de posse do Poder, procederão inevitavelmente como os Scheidemann e os Noske. Tudo isso é verdade; mas dai não se deduz, absolutamente, que apoiá-los equivale a trair a revolução, mas sim que, no interesse dela, os revolucionários da classe operária devem conceder a esses senhores certo apoio parlamentar. Para tornar clara essa ideia usarei dois documentos políticos ingleses actuais: 1) o discurso pronunciado pelo Primeiro Ministro Lloyd George a 18 de Março de 1920 (segundo o texto do The Manchester Guardian de 19 do mesmo mês) e 2) os argumentos de uma comunista “de esquerda”, camarada Sylvia Pankhurst, no artigo citado.

No seu discurso, Lloyd George polemiza com Asquith (que fora convidado especialmente para a reunião, mas que se negou a assisti-la) e com aqueles liberais que querem uma aproximação com o Partido Trabalhista e não a coligação com os conservadores. (Na carta dirigida à Redacção pelo camarada Gallacher vimos também uma alusão à passagem de alguns liberais ao Partido Trabalhista Independente). Lloyd George demonstra que é necessária uma coligação dos liberais com os conservadores, inclusive uma coligação estreita, pois de outro modo a vitória pode ser alcançada pelo Partido Trabalhista, que Lloyd George “prefere chamar” de socialista e que aspira “à propriedade colectiva” dos meios de produção. “Na França isso se chamava comunismo” - explica em linguagem popular o chefe da burguesia inglesa a seus ouvintes, membros do Partido Liberal parlamentar, que, com certeza, até então ignoravam isso – “na Alemanha chamava-se socialismo; na Rússia chama-se bolchevismo”. Para os liberais isto é inadmissível por princípio, esclarece Lloyd George, pois os liberais são, por princípio, defensores da propriedade privada. “A civilização está em perigo”, declara o orador, razão por que devem unir-se liberais e conservadores...

“... Se vocês forem aos distritos agrícolas - diz Lloyd George - verão conservadas, reconheço, as antigas divisões do partido. Lá, o perigo está longe, não existe. Mas quando o perigo lá chegar, será tão grande como o é hoje em alguns distritos industriais. Quatro quintos de nosso país dedicam-se à Indústria e ao comércio; apenas um quinto vive da agricultura. Eis uma das circunstâncias que sempre tenho em mente quando penso nos perigos com que o futuro nos ameaça. Na França, a população é agrícola e por isso constitui uma base sólida de determinadas opiniões, base que não se modifica tão rapidamente e que não é facilmente excitável pelo movimento revolucionário. No nosso país a coisa é diferente. O nosso país é menos estável que qualquer outro, e se se começar a vacilar, a catástrofe aqui será, em virtude dos motivos citados, mais forte do que nos demais países".

Através dessas citações, o leitor pode perceber que o Sr. Lloyd George não só é muito inteligente, como também aprendeu muito com os marxistas. Nós também não faríamos nenhum mal em aprender com Lloyd George.

É igualmente interessante registar o seguinte episódio da discussão havida depois do discurso de Lloyd George:

"G. Wallace: Gostaria de perguntar como encara o primeiro ministro os resultados de sua política nos distritos industriais no que concerne aos operários industriais, muitos dos quais são hoje liberais e nos concedem tão grande apoio. Não se pode prever um resultado que provoque um aumento enorme da força do Partido Trabalhista por parte desses mesmos operários que hoje nos apoiam tão sinceramente?

O Primeiro Ministro: Sou de opinião completamente diferente. O facto de os liberais lutarem entre si leva, sem dúvida, um número bastante considerável deles, movidos pelo desespero, para as fileiras do Partido Trabalhista, onde há muitos liberais bastante capazes que hoje se ocupam em desacreditar o governo. O resultado dessa luta entre os liberais, evidentemente, é um importante movimento da opinião pública em favor do Partido Trabalhista. A opinião pública inclina-se não para os liberais que estão fora do Partido Trabalhista, mas sim para este, como mostram as eleições parciais".

Digamos, de passagem, que esses raciocínios provam de modo singular até que ponto se confundiram e não podem deixar de cometer desatinos irreparáveis os mais inteligentes homens da burguesia. É isto que a fará perecer. Os nossos camaradas podem até fazer tolices (contanto, é claro, que não sejam muito consideráveis e possam ser reparadas a tempo) e, não obstante, acabarão por triunfar.

O segundo documento político são as seguintes considerações da comunista “de esquerda” camarada Sylvia Pankhurst:

“...O camarada Inkpin (secretário do Partido Socialista Britânico) denomina o Partido Trabalhista de "a principal organização do movimento da classe operária". Outro camarada do Partido Socialista Britânico expressou ainda com mais relevo o ponto de vista desse partido na Conferência da III Internacional. "Consideramos o Partido Trabalhista - disse - como a classe operária organizada".

Não compartilhamos dessa opinião a respeito do Partido Trabalhista. Ele é muito importante do ponto de vista numérico, embora os seus membros sejam, em grande parte, inertes e apáticos; trata-se de operários e operárias que entraram para as trade-unions porque os seus companheiros de oficina são trade-unionistas e porque desejam receber seguros e pensões.

Reconhecemos, porém, que a importância numérica do Partido Trabalhista obedece também ao facto de ser esse partido fruto de uma escola de pensamento, cujos limites ainda não foram ultrapassados pela maioria da classe operária britânica, embora se preparem grandes modificações na mentalidade do povo que transformarão brevemente esse estado de coisas..."

“... O Partido Trabalhista Britânico, como as organizações social-patriotas dos demais países, chegará inevitavelmente ao Poder pelo caminho natural do desenvolvimento social. O dever dos comunistas consiste em organizar as forças que derrubarão os social-patriotas, e no nosso país não devemos vacilar nem retardar essa acção.

Não devemos dispersar as nossas energias aumentando as forças do Partido Trabalhista; o seu advento no Poder é inevitável. Devemos concentrar as nossas forças na criação de um movimento comunista que derrote esse partido. Dentro de pouco tempo o Partido Trabalhista estará no governo; a oposição revolucionária deve estar preparada para empreender o ataque contra ele..."

Assim, pois, a burguesia liberal renuncia ao sistema dos “dois partidos” (dos exploradores), consagrado no transcurso da história por uma experiência secular e extremamente proveitoso para os exploradores, considerando necessária a união de suas forças a fim de lutar contra o Partido Trabalhista. Uma parte dos liberais, como os ratos de um navio que afunda, corre para o Partido Trabalhista. Os comunistas de esquerda consideram inevitável a passagem do Poder para as mãos do Partido Trabalhista e reconhecem que a maior parte dos operários está actualmente a favor desse partido. De tudo isso, chegam à estranha conclusão assim formulada pela camarada Sylvia Pankhurst:

"O Partido Comunista não deve assumir compromissos... Deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; a sua missão é marchar na vanguarda, sem se deter ou desviar do caminho, avançar em linha recta em direcção à Revolução Comunista".

Pelo contrário, do facto de a maioria dos operários da Inglaterra ainda seguir os Kerenski e os Scheidemann ingleses de não ter passado "ainda pela experiência de um governo formada por esses homens - experiência que foi necessária tanto na Rússia como na Alemanha para que os operários se passassem em massa para o comunismo deduz-se de modo infalível que os comunistas ingleses devem participar do parlamentarismo, devem, dentro do parlamento, ajudar a massa operária a ver na prática os efeitos do governo dos Henderson e dos Snowden, devem ajudar os Henderson e Snowden a derrotarem a coligação de Lloyd George e Churchill. Proceder de outro modo significa dificultar a marcha da revolução, pois se não se produz uma modificação nas opiniões da maioria da classe operária, a revolução torna-se impossível; e essa modificação consegue-se através da experiência política das massas, e nunca apenas com a propaganda. A palavra de ordem: “Avante sem compromissos, sem se desviar do caminho!” é claramente errada, se quem a propala é uma minoria evidentemente impotente de operários que sabe (ou, pelo menos, deve saber) que dentro de pouco tempo, no caso de Henderson e Snowden triunfarem sobre Lloyd George e Churchill, a maioria perderá a fé nos seus chefes e apoiará o comunismo (ou, em todo caso, adoptará uma atitude de neutralidade e, na maioria, de neutralidade simpática em relação aos comunistas). É a mesma coisa que se 10.000 soldados se lançassem ao combate contra 50.000 inimigos no momento em que é necessário “deter-se”, "afastar-se do caminho”, e até concertar um “compromisso” para esperar a chegada de um reforço prometido de 100.000 homens, que não podem entrar em acção imediatamente. É uma infantilidade própria de intelectuais e não uma táctica séria da classe revolucionária.

A lei fundamental da revolução, confirmada por todas as revoluções, e em particular pelas três revoluções russas do século XX, consiste no seguinte: para a revolução não basta que as massas exploradas e oprimidas tenham consciência da impossibilidade de continuar a viver como vivem e exijam transformações; para a revolução é necessário que os exploradores não possam continuar a viver e a governar como vivem e governam. Só quando os “de baixo” não querem e os “de cima” não podem continuar a viver à moda antiga é que a revolução pode triunfar. Com outras palavras, esta verdade exprime-se do seguinte modo: a revolução é impossível sem uma crise nacional geral (que afecte explorados e exploradores). Por conseguinte, para fazer a revolução é preciso conseguir, em primeiro lugar, que a maioria dos operários (ou, em todo caso, a maioria dos operários conscientes, pensantes, politicamente activos) compreenda a fundo a necessidade da revolução e esteja disposta a sacrificar a vida por ela; em segundo lugar, é preciso que as classes dirigentes atravessem uma crise governamental que atraia à política inclusive as massas mais atrasadas (o sintoma de toda revolução verdadeira é a decuplicação ou centuplicação do número de homens aptos para a luta política, homens pertencentes à massa trabalhadora e oprimida, antes apática), que reduza o governo à impotência e torne possível seu rápido derrube pelos revolucionários.

Na Inglaterra, e exactamente o discurso de Lloyd George o demonstra, entre outras coisas, desenvolvem-se a olhos vistos as duas condições de uma revolução proletária vitoriosa. E os erros dos comunistas de esquerda representam actualmente um singular perigo, precisamente porque observamos em alguns revolucionários uma atitude pouco ponderada, pouco atenta, pouco consciente, pouco reflexiva com relação a cada um desses factores. Se somos o partido da classe revolucionária, e não um grupo revolucionário, se queremos atrair as massas (sem o que corremos o risco de não passar de simples charlatães) devemos: em primeiro lugar, ajudar Henderson ou Snowden a vencer Lloyd George e Churchill (mais exactamente: devemos obrigar os primeiros a vencer os segundos, pois os primeiros têm medo de sua própria vitória!); em segundo lugar, ajudar a maioria da classe operária a convencer-se por experiência própria de que temos razão, isto é, da incapacidade completa dos Henderson e Snowden, de sua natureza pequeno-burguesa e traidora, da inevitabilidade de sua falência; e, em terceiro lugar, antecipar o momento em que, sobre a base da desilusão produzida pelos Henderson na maioria dos operários, se possa, com grandes probabilidades de êxito, derrubar de golpe o governo dos Henderson. Se inclusive Lloyd George, político inteligentíssimo e resoluto, que não é pequeno burguês, mas sim grande burguês, enfraquece cada vez mais (como toda a burguesia), ontem pelas suas “rusgas” com Churchill e hoje pelas suas “rusgas” com Asquith, perde a cabeça, com muito mais facilidade a perderão os Henderson.

Falarei de modo mais concreto. Os comunistas ingleses devem, na minha opinião, unificar os seus quatro partidos e grupos (todos muito débeis e alguns extraordinariamente débeis) num Partido Comunista único, baseado nos princípios da III Internacional e da participação obrigatória no parlamento. O Partido Comunista propõe aos Henderson e Snowden um “compromisso”, um acordo eleitoral: marchemos juntos contra a coligação de Lloyd George e conservadores, repartamos os postos no parlamento proporcionalmente aos votos dados pelos operários ao Partido Trabalhista ou aos comunistas (não nas eleições, mas numa votação especial) conservemos a mais completa liberdade, de agitação, propaganda e acção política. Sem esta última condição é impossível, naturalmente, fazer a aliança, pois seria uma traição. Os comunistas ingleses devem reivindicar e alcançar a mais completa liberdade, que lhes permita, desmascarar os Henderson e Snowden, de modo tão absoluto como o fizeram (durante 15 anos, de 1903 a 1917) os bolcheviques russos em relação aos Henderson e Snowden da Rússia, isto é, aos mencheviques.

Se os Henderson e Snowden aceitarem a aliança nestas condições, sairemos ganhando, pois o que nos interessa não é, absolutamente, o número de cadeiras no parlamento. Não é esse o nosso objectivo; nesse ponto seremos transigentes (enquanto os Henderson e, sobretudo, seus novos amigos – ou seus novos amos – os liberais que ingressaram no Partido Trabalhista, correm atrás disso mais que de qualquer outra coisa). Teremos ganho porque levaremos a nossa agitação às massas num momento em que o próprio Lloyd George as terá “irritado’, e ajudaremos não só o Partido Trabalhista a formar mais depressa o seu governo, como também as massas a compreenderem melhor toda a nossa propaganda comunista, que realizaremos contra os Henderson sem nenhuma limitação, sem nada silenciar.

Se os Henderson e Snowden repelirem a aliança connosco, nessas condições, teremos ganho ainda mais, pois teremos mostrado na hora às massas (levem em conta que inclusive dentro do Partido Trabalhista Independente, puramente menchevique, completamente oportunista, as massas são partidárias dos Sovietes) que os Henderson preferem a intimidade com os capitalistas à união de todos os trabalhadores. Teremos ganho imediatamente ante a massa, a qual, sobretudo depois das explicações brilhantíssimas, extremamente acertadas e úteis (para o comunismo) dadas por Lloyd George, simpatizará com a ideia da união de todos os operários contra a coligação de Lloyd George com os conservadores. Teremos ganho desde o primeiro momento, pois teremos demonstrado às massas que os Henderson e Snowden receiam vencer Lloyd George, receiam tomar o Poder sozinhos e aspiram a conseguir o apoio secreto de Lloyd George, que estende a mão abertamente aos conservadores contra o Partido Trabalhista. É preciso lembrar que na Rússia, depois da revolução de 27 de Fevereiro de 1917 (calendário antigo), o êxito da propaganda dos bolcheviques contra os mencheviques e socialistas revolucionários (isto é, os Henderson e Snowden russos) foi devido precisamente às mesmas circunstâncias. Dizíamos aos mencheviques e aos socialistas revolucionários: tomem todo o Poder sem a burguesia, posto que vocês têm a maioria nos Sovietes (no I Congresso dos Sovietes de toda a Rússia, celebrado em Junho de 1917, os bolcheviques não tinham mais que 13% dos votos). Mas os Henderson e Snowden russos tinham medo de tomar o Poder sem a burguesia, e quando esta adiou as eleições para a Assembleia Constituinte porque sabia perfeitamente que os socialistas revolucionários e os mencheviques alcançariam a maioria[2] (ambos formavam um bloco político muito estreito, representavam praticamente uma democracia pequeno-burguesa), os socialistas revolucionários e os mencheviques ficaram impotentes para lutar com energia e até ao fim contra esses adiamentos.

Se os Henderson e Snowden se negassem a formar uma aliança com os comunistas, estes sairiam ganhando de imediato, pois conquistariam a simpatia das massas, enquanto os Henderson e Snowden ficariam desacreditados. Pouco nos importaria então perder algumas cadeiras no parlamento por causa disso. Só apresentaríamos candidatos num número ínfimo de circunscrições absolutamente seguras, isto é, onde isto não representasse a vitória de um liberal contra um trabalhista. Realizaríamos a nossa campanha eleitoral distribuindo volantes de propaganda do comunismo e convidando o povo, em todas as circunscrições em que não apresentássemos candidato, a votar no candidato trabalhista contra o candidato burguês. Enganam-se os camaradas Sylvia Pankhurst e Gallacher se vêem nisso uma traição ao comunismo ou uma renúncia à luta contra os social-traidores. Pelo contrário, não há dúvida de que a causa da revolução sairia ganhando.

Hoje em dia, é muito difícil para os comunistas ingleses inclusive aproximar-se das massas, fazer com que elas os ouçam. Contudo, se me apresentar como comunista e, ao mesmo tempo, convidar a votar em Henderson contra Lloyd George, é certo que serei ouvido. E poderei explicar de modo acessível não só por que os Sovietes são melhores que o parlamento e a ditadura do proletariado melhor que a ditadura de Churchill (mascarada sob o rótulo de “democracia” burguesa), como também por que eu gostaria de sustentar Henderson com o meu voto do mesmo modo que a corda sustenta o enforcado; que a aproximação dos Henderson a um governo formado por eles mesmos demonstrará a minha razão, atrairá as massas para o meu lado e acelerará a morte política dos Henderson e Snowden, exactamente como aconteceu com os seus correligionários na Rússia e na Alemanha.

E se replicarem dizendo que esta táctica é muito “astuta” ou complicada, que as massas não a compreenderão, que dispersará e desagregará as nossas forças impedindo-nos de concentrá-las na revolução soviética, etc., responderei aos meus contestadores “de esquerda”: não atribuam às massas o seu próprio doutrinarismo! É de se supor que na Rússia as massas não são mais cultas, mas, pelo contrário, que são menos cultas que na Inglaterra. Apesar disso, compreenderam os bolcheviques; e, em vez de prejudicá-los, favoreceu-os o facto de, nas vésperas da revolução soviética de Setembro de 1917, comporem listas de candidatos seus ao parlamento burguês (à Assembleia Constituinte) e tomarem parte, no dia seguinte à revolução soviética de Novembro de 1917, nas eleições para essa mesma Constituinte, dissolvida por eles no dia 5 de Janeiro de 1918.

Não posso examinar pormenorizadamente a segunda divergência entre os comunistas ingleses, consistente em se devem ou não aderir ao Partido Trabalhista. Tenho pouquíssimos dados sobre essa questão extremamente complexa, dada a extraordinária originalidade do “Partido Trabalhista” Britânico, muito pouco parecido estruturalmente com os habituais partidos políticos do continente europeu. Mas não há dúvida de que, em primeiro lugar, também incorre inevitavelmente em erro quem deduz a táctica do proletariado revolucionário de princípios como este: “O Partido Comunista deve conservar pura a sua doutrina e imaculada a sua independência frente ao reformismo; a sua missão é marchar na vanguarda, sem se deter ou desviar do seu caminho, avançar em linha recta em direcção à Revolução Comunista”. Princípios como este só fazem repetir o erro dos comunardos-blanquistas franceses, que em 1874 proclamavam a “negação” de todo compromisso e de toda etapa intermediária. Em segundo lugar, não há dúvida de que nesse ponto a tarefa consiste, como sempre, em saber aplicar os princípios gerais e fundamentais do comunismo às peculiaridades das relações entre as classes e os partidos, às características específicas do desenvolvimento objectivo rumo ao comunismo, próprias a cada pais e que é necessário saber estudar, descobrir e adivinhar.

Mas é preciso falar a respeito disso não só em relação ao comunismo inglês, mas sim em relação às conclusões gerais que se referem ao desenvolvimento do comunismo em todos os países capitalistas. Este é o tema que vamos abordar agora.

 

(a seguir)

[1] Pelo visto, esse partido opõe-se à adesão ao "Partido Trabalhista", mas nem todos os seus membros são contra a participação no parlamento. (Nota do autor)
[2] As eleições de Novembro de 1917 para a Assembleia Constituinte na Rússia, segundo dados que abrangem mais de 36 milhões de eleitores, deram 25% dos votos aos bolcheviques, 13% aos diferentes partidos dos latifundiários e da burguesia e 62% à democracia pequeno-burguesa, isto é, aos socialistas revolucionários e mencheviques juntamente com os pequenos grupos chegados a eles. (Nota do autor)


publicado por portopctp às 10:44
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