de Marx, Engels, Lenine, Estaline, Mao Tsé-tung e outros autores
Domingo, 25 de Junho de 2006
Salário, preço e lucro (Observações preliminares e Cap. 1 e 2)
Observações preliminares

Cidadãos!

Antes de entrar no assunto, permiti que faça algumas observações preliminares.

Reina actualmente no Continente uma verdadeira epidemia de greves e um clamor geral exigindo aumento de salários. O problema há-de ser levantado no nosso Congresso. Vós, como dirigentes da Associação Internacional, deveis manter um critério firme perante este problema fundamental. Da minha parte julguei-me, por isso, no dever de tratar a fundo a matéria, embora com o risco de submeter a vossa paciência a uma dura prova.

Tenho a fazer uma outra observação prévia que respeita ao cidadão Weston. Atento ao que julga ser o interesse da classe operária, ele não só expôs perante vós, como também defendeu publicamente, opiniões que ele sabe serem profundamente impopulares no seio da classe operária. Esta demonstração de coragem moral deve merecer o alto apreço de todos nós. Confio que, apesar do estilo da minha conferência, o cidadão Weston verá que afinal me encontro de acordo com as acertadas ideias que, no meu entender, servem de base às suas teses que, por sua vez e na sua forma actual, não posso deixar de considerar falsas teoricamente e perigosas na prática.

Com isto, passo directamente ao assunto que nos interessa.

 

1 – Produção e salários

O argumento do cidadão Weston baseia-se, na realidade, em duas premissas:

1ª) que o volume da produção nacional é algo de fixo, uma quantidade ou grandeza constante, como diriam os matemáticos;

2ª) que o montante total dos salários reais, isto é, dos salários medidos pelo volume de mercadorias que permitem adquirir, é também uma soma fixa, uma grandeza constante.

Pois bem, a sua primeira afirmação é manifestamente falsa. Vereis que o valor e o volume da produção aumentam de ano para ano, que as forças produtivas do trabalho nacional crescem e que a quantidade de dinheiro necessária para pôr em circulação esta crescente produção varia sem cessar. O que é exacto no fim de cada ano e para diferentes anos comparados entre si, também o é no que respeita a cada dia médio do ano. O volume ou a grandeza da produção nacional varia continuamente. Não é uma grandeza constante, mas variável, e assim tem que ser, mesmo sem levar em conta as flutuações da população, devido às contínuas mudanças que se operam na acumulação de capital e nas forças produtivas do trabalho. É inteiramente certo que se hoje sobreviesse um aumento geral da proporção dos salários na produção líquida, este aumento, por si só, e quaisquer que fossem os seus resultados ulteriores, não alteraria imediatamente o volume da produção. Em primeiro lugar, teria que brotar do estado de coisas existente. E se a produção nacional, antes da subida dos salários era variável e não fixa, continuaria a sê-lo, também, depois.

Admitamos, porém, que o volume da produção nacional fosse constante em vez de variável. Ainda neste caso, aquilo que o nosso amigo Weston considera uma conclusão lógica, permaneceria como uma afirmação gratuita. Se tomo um determinado número, digamos 8, os limites absolutos deste algarismo não impedem que variem os limites relativos dos seus componentes. Por exemplo: se o lucro fosse igual a 6 e os salários a 2, os salários poderiam aumentar até 6 e o lucro baixar a 2, que o número total não deixaria por essa razão de ser 8. Desta maneira, o volume fixo da produção jamais conseguirá provar que seja fixo o montante total dos salários. Como demonstra, então, o nosso amigo Weston essa fixidez? Simplesmente afirmando-a.

Mas mesmo dando como boa a sua afirmação, ela teria efeito nos dois sentidos, ao passo que ele quer fazê-la vigorar apenas num. Se o volume dos salários representa uma quantidade constante, não poderá aumentar, nem diminuir. Portanto, se os operários agem como tolos, ao arrancarem um aumento temporário de salários, não menos tolamente agiriam os capitalistas, ao impor, ao contrário, uma baixa também temporária dos salários. O nosso amigo Weston não nega que, em certas circunstâncias, os operários podem impor aumentos de salários; mas, como segundo ele, a soma dos salários é fixa por lei natural, este aumento provocará necessariamente uma reacção. Por outro lado, ele sabe também que os capitalistas podem, do mesmo modo, impor uma baixa de salários, e tanto assim é que o tentam continuamente. De acordo com o princípio da constância dos salários, neste caso deveria ter lugar uma reacção, exactamente como no caso anterior. Por conseguinte, os operários agiriam com acerto reagindo contra as baixas de salários ou contra as tentativas em tal sentido. Procederiam, portanto, acertadamente ao arrancar aumentos de salários, pois qualquer reacção contra uma baixa de salários é uma acção a favor do seu aumento. Logo, mesmo que aceitássemos o princípio da estabilidade salarial, como sustenta o cidadão Weston, vemos que os operários devem, em certas circunstâncias, unir-se e lutar pelo aumento dos seus salários.

Para negar esta conclusão ele teria que renunciar à premissa em que se baseia. Não deveria dizer que o volume dos salários é uma grandeza constante, mas sim, que embora não possa nem deva aumentar, pode e deve baixar sempre que isso apeteça ao capital. Se o capitalista vos quer alimentar com batatas em vez de carne, ou com aveia em vez de trigo, deveis acatar a sua vontade como uma lei da economia política submetendo-vos a ela. Se num país, por exemplo, nos Estados Unidos, a proporção dos salários no produto líquido nacional é mais alta do que noutro, por exemplo na Inglaterra, deveis explicar esta diferença no nível dos salários como uma diferença entre a vontade do capitalista norte-americano e a do capitalista inglês; método este que, sem dúvida, simplificaria imenso não só o estudo dos fenómenos económicos, como também o de todos os demais fenómenos.

Ainda assim caberia perguntar: por que razão difere a vontade do capitalista norte-americano da do capitalista inglês? E para responder a esta questão, não teriam outro remédio senão ir para além dos domínios da vontade. É possível que um padre me diga que Deus quer uma coisa na França e outra na Inglaterra. E se o convido a explicar esta dualidade de vontade, ele poderá ter a impudência de responder que está nos desígnios de Deus ter uma vontade em França e outra na Inglaterra. Mas o nosso amigo Weston será, com certeza, a última pessoa a converter em argumento esta negação completa de todo o raciocínio.

Sem sombra de dúvida, a vontade do capitalista consiste em encher os bolsos o mais que possa. E o que temos a fazer não é divagar acerca da sua vontade, mas investigar o seu poder, os limites desse poder e o carácter desses limites.

 

2 – Produção, salários, lucros

A conferência proferida pelo cidadão Weston poderia ser condensada a ponto de caber numa casca de noz.

Toda a sua argumentação se reduz ao seguinte: se a classe operária obriga a classe capitalista a pagar-lhe, sob a forma de salário em dinheiro, 5 xelins em vez de 4, o capitalista devolver-lhe-á sob a forma de mercadorias, o valor de 4 xelins em vez do valor de 5. Então a classe operária terá que pagar 5 xelins pelo que antes da subida dos salários lhe custava apenas 4. E por que razão ocorre isto? Porque o capitalista só entrega o valor de 4 xelins por 5? Porque o montante total dos salários é fixo. Mas por que razão se fixa precisamente no valor de 4 xelins em mercadorias? Por que não em 3 ou em 2, ou noutra qualquer quantia? Se o limite do montante dos salários está fixado por uma lei económica, independente tanto da vontade do capitalista como da do operário, a primeira coisa que deveria ter feito o cidadão Weston era expor e demonstrar essa lei. Deveria provar, além disso, que a soma de salários efectivamente pagos em cada momento dado, corresponde sempre, exactamente, à soma necessária dos salários, sem nunca se desviar dela. Em compensação, se o limite dado da soma de salários depende da simples vontade do capitalista, ou das proporções da sua avareza, trata-se de um limite arbitrário, que nada tem em si de necessário. Tanto pode ser modificado pela vontade do capitalista, como também pode fazer-se variar contra a sua vontade.

O cidadão Weston ilustrou a sua teoria dizendo-nos que se uma terrina contém determinada quantidade de sopa, destinada a determinado número de pessoas, a quantidade de sopa não aumentará, aumentando o tamanho das colheres. Seja-me permitido considerar esse exemplo pouco substancioso. Ele faz-me lembrar um pouco aquele apólogo de que se valeu Menménio Agripa. Quando a plebe romana entrou em luta contra os patrícios, o patrício Agripa disse-lhes que a pança patrícia é que alimentava os membros plebeus do organismo político. Mas Agripa não conseguiu demonstrar como se alimentam os membros de um homem quando se enche a barriga de outro. O cidadão Weston, por sua vez, esquece-se que a terrina da qual comem os operários, contém todo o produto do trabalho nacional, e o que os impede de tirar dela uma ração maior não é nem o tamanho reduzido da terrina, nem a escassez do seu conteúdo, mas unicamente a pequena dimensão de suas colheres.

Graças a que artifício consegue o capitalista devolver um valor de 4 xelins por aquilo que vale 5? À subida de preço das mercadorias que vende. Mas então, a alta dos preços, ou falando em termos mais gerais, as variações nos preços das mercadorias, os próprios preços destas, porventura dependem da simples vontade do capitalista? Ou, ao contrário, são necessárias determinadas circunstâncias para que prevaleça essa vontade? Se não fosse assim, as altas e baixas, as incessantes oscilações dos preços no mercado seriam um enigma indecifrável.

Se admitimos que não se operou em absoluto alteração alguma, nem nas forças produtivas do trabalho, nem no volume do capital e do trabalho empregues ou no valor do dinheiro em que se expressam os valores dos produtos, mas que se alterou somente a proporção dos salários no valor criado, de que maneira poderia esta alta de salários influir nos preços das mercadorias? Somente influindo na proporção real entre a oferta e a procura dessas mercadorias.

É inteiramente certo que a classe operária, considerada em conjunto, gasta e será forçosamente obrigada a gastar a sua receita em artigos de primeira necessidade. Uma alta geral da proporção dos salários no valor criado provocaria, portanto, um aumento da procura de artigos de primeira necessidade e, consequentemente, um aumento dos seus preços no mercado. Os capitalistas que produzem estes artigos de primeira necessidade compensariam o aumento de salários por meio da alta dos preços dessas mercadorias. Mas que sucederia com os demais capitalistas que não produzem artigos de primeira necessidade? E podeis estar certos que o seu número não é pequeno. Se levardes em conta que duas terças partes da produção nacional são consumidas por um quinto da população – um deputado da Câmara dos Comuns declarou, recentemente, que tais consumidores constituem apenas a sétima parte da nação –, podereis imaginar que enorme parcela da produção nacional se destina a artigos de luxo ou a ser trocada por objectos de luxo, e que uma imensa quantidade de artigos de primeira necessidade se desperdiça em criadagem, cavalos, gatos, etc., esbanjamento esse que, como nos ensina a experiência, diminui consideravelmente com a elevação dos preços dos artigos de primeira necessidade.

Pois bem, qual seria a situação desses capitalistas que não produzem artigos de primeira necessidade? Não poderiam compensar a queda na taxa de lucro, após uma alta geral de salários, elevando os preços das suas mercadorias, visto que a procura destas não teria aumentado. As suas receitas diminuiriam; e com estas receitas diminuídas teriam de pagar mais pela mesma quantidade de artigos de primeira necessidade, que subiriam de preço. Mas a coisa não pararia aí. Diminuídas as suas receitas, menos teriam para gastar em artigos de luxo, com o que também se reduziria a procura recíproca das suas respectivas mercadorias. E como consequência desta diminuição da procura, cairiam os preços das suas mercadorias. Portanto nestes ramos da indústria, a taxa de lucros cairia, não só em proporção simplesmente à taxa do aumento geral de salários, como, também, essa queda seria proporcional à acção conjunta da alta geral de salários, do aumento de preços dos artigos de primeira necessidade e da baixa de preços dos artigos de luxo.

Qual seria a consequência desta diferença entre as taxas de lucro dos capitais colocados nos diversos ramos da indústria? Ora, a mesma que se produz sempre que, seja qual for a causa, se verificam diferenças nas taxas médias de lucro dos diversos ramos da produção. O capital e o trabalho deslocar-se-iam dos ramos menos rentáveis para os que o fossem mais; e este processo de deslocamento iria durar até que a oferta num ramo industrial aumentasse a ponto de se nivelar com a maior procura e nos demais ramos industriais diminuísse proporcionalmente à menor procura. Uma vez operada esta mudança, a taxa geral de lucro voltaria a igualar-se nos diferentes ramos da indústria. Como todo esse desarranjo obedecia originariamente a uma simples mudança na relação entre a oferta e a procura de diversas mercadorias, cessando a causa, cessariam também os efeitos, e os preços voltariam ao seu antigo nível e ao anterior equilíbrio. A redução da taxa de lucro, por efeito dos aumentos de salários, em vez de limitar-se a uns quantos ramos da indústria, tornar-se-ia geral. Segundo a suposição de que partimos, nenhuma alteração ocorreria, nem nas forças produtivas do trabalho, nem no volume global da produção, sendo que o volume de produção dado apenas teria mudado de forma. Agora, uma maior parte do volume de produção estaria representada por artigos de primeira necessidade, ao passo que diminuiria a parte dos artigos de luxo, ou, o que vem a ser o mesmo, diminuiria a parte destinada à troca por artigos de luxo importados do estrangeiro e consumida desta forma; ou, o que é ainda o mesmo mas em outros termos, uma parte maior da produção nacional seria trocada por artigos importados de primeira necessidade, em lugar de ser trocada por artigos de luxo. Isto quer dizer que, depois de transtornar temporariamente os preços do mercado, a alta geral na proporção dos salários no valor criado só conduziria a uma baixa geral da taxa de lucro, sem introduzir nenhuma alteração permanente nos preços das mercadorias.

Se me disserem que na anterior argumentação dou por estabelecido que todo o aumento de salários se gasta em artigos de primeira necessidade, replicarei que fiz a suposição mais favorável ao ponto de vista do cidadão Weston. Se o aumento dos salários fosse aplicado em objectos que antes não entravam no consumo dos trabalhadores, seria inútil que nos detivéssemos a demonstrar que o seu poder aquisitivo havia experimentado um aumento real. Sendo porém mera consequência da subida de salários, este aumento do poder aquisitivo dos operários terá de corresponder, exactamente, à diminuição do poder aquisitivo por parte dos capitalistas. Quer isto dizer, portanto, que a procura global de mercadorias não aumentaria e apenas mudariam os elementos integrantes dessa procura: o incremento da procura de um lado seria contrabalançado pela diminuição da procura do outro lado. Deste modo, como a procura global permaneceria invariável, não se operaria qualquer mudança nos preços das mercadorias.

Chegamos, assim, a um dilema: ou o incremento dos salários se gasta por igual em todos os artigos de consumo, caso em que o aumento da procura por parte da classe operária tem que ser compensado pela diminuição da procura por parte da classe capitalista; ou o incremento dos salários só se gasta em determinados artigos cujos preços no mercado aumentarão temporariamente. Neste caso, a consequente elevação da taxa de lucro em alguns ramos da indústria e a consequente baixa da taxa de lucro em outros provocarão uma mudança na distribuição do capital e do trabalho, que persiste até que a oferta se tenha ajustado à maior procura em alguns ramos da indústria e à menor procura nos outros. Na primeira hipótese não se produzirá nenhuma mudança nos preços das mercadorias. Na outra hipótese, após algumas oscilações dos preços do mercado, os valores de troca das mercadorias baixarão ao nível anterior. Em ambos os casos, chegaremos à conclusão de que a subida geral dos salários, afinal de contas, conduzirá apenas a uma baixa geral da taxa de lucro.

Para espicaçar o vosso poder de imaginação, o cidadão Weston convidava-vos a pensar nas dificuldades que acarretaria à Inglaterra uma alta geral de 9 para 18 xelins nas jornas dos trabalhadores agrícolas. Meditai, exclamou ele, no enorme acréscimo da procura de artigos de primeira necessidade que isso implicaria e, como consequência, na terrível subida dos preços a que daria lugar! Pois bem, todos sabeis que os salários médios dos trabalhadores agrícolas da América do Norte são mais do dobro dos salários dos trabalhadores agrícolas ingleses, apesar de ali os preços dos produtos agrícolas serem mais baixos do que na Inglaterra, apesar de reinarem nos Estados Unidos as mesmas relações gerais entre o capital e o trabalho que na Inglaterra e apesar de o volume anual da produção norte-americana ser muito mais reduzido do que o da inglesa. Por que razão, então, toca o nosso amigo a rebate este sino? Simplesmente para desviar a nossa atenção do verdadeiro problema. Um aumento repentino de 9 para 18 xelins nos salários representaria um acréscimo repentino de 100 por cento. Ora, não estamos aqui a discutir se seria possível duplicar na Inglaterra, de súbito, a proporção dos salários no valor criado. Não nos interessa em nada a grandeza do aumento, que em cada caso concreto depende das circunstâncias e tem que se adaptar a elas. Apenas nos interessa investigar quais os efeitos em que se traduziria uma alta geral dos salários, mesmo que não fosse além de um por cento.

Pondo de lado este aumento imaginário de 100 por cento do amigo Weston, desejo chamar a vossa atenção para o aumento efectivo de salários operado na Grã-Bretanha na década de 1849 a 1859.

Todos vós conheceis a Lei das Dez Horas ou, mais precisamente, das dez horas e meia, promulgada em 1848. Foi uma das maiores alterações económicas que já presenciámos. Representou um aumento súbito e obrigatório de salários não em umas quantas indústrias locais, mas nos ramos industriais mais eminentes, por meio dos quais a Inglaterra domina os mercados do mundo. Foi uma alta de salários em circunstâncias singularmente desfavoráveis. O dr. Ure, o prof. Senior e todos os demais porta-vozes oficiais da burguesia no campo da economia demonstraram e, devo dizer, com razões muito mais sólidas do que as do nosso amigo Weston, que aquilo era o dobre de finados da indústria inglesa. Demonstraram que não se tratava de um simples aumento de salário, mas de um aumento de salários provocado pela redução da quantidade de trabalho empregue e nessa redução fundamentado. Afirmaram que a duodécima hora que se queria arrebatar ao capitalista era precisamente aquela em que este obtinha o seu lucro. Ameaçaram com o decréscimo da acumulação, a alta dos preços, a perda dos mercados, a redução da produção, a consequente reacção sobre os salários e, por fim, a ruína. Sustentavam que a lei do máximo de Maximiliano Robespierre era uma ninharia comparada com esta; e, até certo ponto, tinham razão. Mas qual foi, na realidade, o resultado? Os salários em dinheiro dos operários fabris aumentaram, apesar de se haver reduzido a jornada de trabalho; cresceu consideravelmente o número de operários em actividade nas fábricas; baixaram constantemente os preços dos seus produtos; desenvolveram-se às mil maravilhas as forças produtivas do seu trabalho e expandiram-se progressivamente, em proporções nunca vistas, os mercados para os seus artigos. Em Manchester, na assembleia da Sociedade pelo Progresso da Ciência, em 1860, eu próprio ouvi o sr. Newman confessar que ele, o dr. Ure, o professor Senior e todos os demais representantes oficiais da ciência económica se haviam equivocado, ao passo que o instinto do povo não falhara. Cito neste passo o sr. W. Newman e não o prof. Francis Newman, porque ele ocupa na ciência económica um lugar proeminente, como colaborador e editor da History of Prices (História dos Preços) da autoria do sr. Thomas Tooke, essa obra magnífica, que estuda a história dos preços desde 1793 a 1856. Se a ideia fixa do nosso amigo Weston sobre um volume fixo dos salários, um volume fixo de produção, um grau fixo de produtividade do trabalho, uma vontade fixa ou constante dos capitalistas e tudo o mais que há de fixo e imutável em Weston, fosse exacta, o prof. Senior teria acertado nos seus sombrios presságios, e Robert Owen ter-se-ia equivocado, ele que já em 1816 pedia uma limitação geral da jornada de trabalho como primeiro passo preparatório para a emancipação da classe operária, implantando-a efectivamente, por conta e risco próprios, na sua fábrica têxtil de New Nanark, contra o preconceito generalizado.

Na mesmíssima época em que entrava em vigor a Lei das Dez Horas e se produzia o subsequente aumento dos salários, ocorreu na Grã-Bretanha, por motivo que não vem ao caso relatar, uma subida geral dos salários dos trabalhadores agrícolas.

Embora não seja indispensável ao meu objectivo imediato, farei algumas observações preliminares, a fim de clarificar alguns aspectos.

Se um homem recebe 2 xelins de salário por semana e o seu salário aumenta para 4 xelins, a taxa de aumento do salário será 100 por cento. Isto, expresso como taxa de aumento de salário, pareceria algo maravilhoso, ainda que na realidade a quantia efectiva do salário, ou seja, os 4 xelins por semana, continue a ser um ínfimo, um mísero salário de fome. Portanto, não vos deveis fascinar pelas altissonantes percentagens da taxa de aumento de salário. Deveis perguntar sempre: qual era a quantia original?

Outra coisa que também compreendereis é que, se há dez operários que ganhem, cada um, 2 xelins por semana, 5 que ganhem 5 xelins cada um e outros 5 que ganhem 11, todos eles, então os 20 ganharão 100 xelins, ou 5 libras esterlinas por semana. Logo, se a soma global destes salários semanais aumentar, digamos uns 20 por cento, haverá uma subida de 5 para 6 libras. Tomando a média, poderíamos dizer que a taxa geral de aumento dos salários foi de 20 por cento, embora na realidade os salários de dez dos operários não variassem, os salários de um dos dois grupos de cinco operários só aumentassem de 5 para 6 xelins por cabeça e os do outro grupo de 5 operários se elevassem, ao todo, de 55 para 70 xelins. Metade dos operários não melhoraria absolutamente nada de situação, a quarta parte deles teria uma melhoria insignificante e somente a quarta parte restante obteria um benefício sensível. Mas, calculando a média, a soma global dos salários destes 20 operários aumentaria em 20 por cento e no que se refere ao capital global, para o qual trabalham, bem como no concernente aos preços das mercadorias que produzem, o efeito seria exactamente o mesmo como se todos participassem por igual na subida média dos salários. No caso dos trabalhadores agrícolas, como os salários médios pagos nos diversos condados da Inglaterra e Escócia diferem consideravelmente, o aumento foi muito desigual.

Enfim, durante a época em que ocorreu aquele aumento de salários, manifestaram-se, também, influências que o contrabalançavam, tais como os novos impostos lançados no cortejo da Guerra da Crimeia, a demolição extensiva das habitações dos trabalhadores agrícolas, etc.

Depois destes prolegómenos, passo a referir que de 1849 a 1859 a taxa de aumento dos salários agrícolas na Grã-Bretanha registada foi de cerca de 40 por cento. Poderia dar-vos amplos detalhes em apoio da minha afirmação, mas para o objectivo em vista creio que bastará indicar-vos a obra de crítica, tão conscienciosa, lida em 1860 pelo finado Sr. John C. Morton, na Sociedade de Artes e Ofícios de Londres, sobre As Forças Aplicadas na Agricultura. Nela o Sr. Morton expõe os dados estatísticos colhidos nas contas e outros documentos autênticos de, aproximadamente, uns cem agricultores em doze condados da Escócia e trinta e cinco da Inglaterra.

Segundo o ponto de vista do nosso amigo Weston, em harmonia com a subida simultânea operada nos salários dos operários fabris, durante o período 1849-1859, os preços dos produtos agrícolas deveriam ter registado um aumento enorme. Mas o que aconteceu realmente? Apesar da Guerra da Crimeia e das péssimas colheitas consecutivas de 1854 a 1856, os preços médios do trigo, o produto agrícola mais importante da Inglaterra, baixaram de cerca de 3 libras esterlinas por quarter, como eram cotados de 1838 a 1848, para cerca de 2 libras e 10 xelins por quarter, nas cotações do período de 1849 a 1859. Isto representa uma descida de mais de 16 por cento no preço do trigo, em simultaneidade com um aumento médio de 40 por cento nos salários agrícolas. Durante a mesma época, se compararmos o final com o começo, quer dizer, o ano de 1859 com o de 1849, o valor oficial do número de indigentes desceu de 934 419 para 860 470, o que supõe uma diferença de 73 949 pobres; reconheço que é um decréscimo muito pequeno, e que se voltou a perder nos anos seguintes, mas, em todo caso, é sempre uma diminuição.

Pode-se objectar que, em consequência da revogação das leis sobre os cereais, a importação de trigo estrangeiro mais que duplicou, no período de 1849-1859, comparada com a de 1838-1848. E que significa isso? Do ponto de vista do cidadão Weston, dever-se-ia supor que esta enorme procura, repentina e incessantemente crescente sobre os mercados estrangeiros tivesse feito subir a uma altura espantosa os preços dos produtos agrícolas, posto que os efeitos de uma crescente procura são os mesmos, quer venham de fora ou de dentro do país. Mas o que ocorreu na realidade? Afora alguns anos de más colheitas, durante todo este período a ruinosa baixa no preço do trigo constituiu um motivo permanente de queixas na França; os norte-americanos viram-se várias vezes obrigados a queimar excedentes da produção; e a Rússia, se acreditarmos no Sr. Urquhart, atiçou a guerra civil nos Estados Unidos, porque a concorrência ianque paralisava a sua exportação de produtos agrícolas para os mercados da Europa.

Reduzido à sua forma abstracta, o argumento do cidadão Weston traduzir-se-ia no seguinte: todo aumento da procura opera sempre na base de um dado volume de produção. Portanto, não pode fazer aumentar nunca a oferta dos artigos procurados, mas unicamente fazer subir o seu preço em dinheiro. Ora, a mais comum das observações demonstra que, em alguns casos, o aumento da procura deixa inalterados os preços das mercadorias e provoca, em outros casos, uma alta passageira dos preços do mercado, à qual se segue um aumento da oferta, por sua vez seguido pela queda dos preços até ao nível primitivo e, em muitos casos, abaixo dele. Que o aumento da procura obedeça à alta dos salários, ou a outra causa qualquer, em nada modifica os dados do problema. Do ponto de vista do cidadão Weston, é tão difícil explicar o fenómeno geral como o que se revela sob as circunstâncias excepcionais de um aumento de salários. Portanto, a sua argumentação não tem nenhum valor para o assunto de que tratamos. Apenas exprimiu a sua perplexidade ante as leis em virtude das quais um acréscimo da procura engendra um acréscimo da oferta, em vez de um aumento definitivo dos preços no mercado.

(a seguir)


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publicado por portopctp às 20:09
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